Alicorn Falls [Br]
The light will die and the moon will rise
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Lux acordou com o estridente despertador da casa coletiva, ela e mais trinta e um pôneis se levantaram de uma vez, alguns animados, alguns reclamando como sempre acontecia a cada manhã. A unicórnio de pelos brancos e crina amarelo ouro esmaecido puxou seu casaco com sua magia, o esforço a fazendo suar sobre as cobertas.
-Alguém viu meu sapato? –Mine Strip perguntou.
-Deve estar na cama do Clover. –Sweet Protein disse enquanto vestia seu casaco, os dois machos coraram imediatamente, eles vinham tentando manter o relacionamento em segredo, mas quando se dormia com mais trinta e um pôneis no mesmo quarto era raro você conseguir manter qualquer relação íntima em segredo.
Lux colocou seu casaco e suas botas enquanto o dormitório ao redor cercava Mine Strip e Clover para saber de mais detalhes. Logo estavam todos descendo as escadas para a cozinha e o principal tema de conversas agora eram os encontros românticos de cada pônei, quem estava dormindo com quem só por um pouco de calor e quem estava dormindo com quem por que realmente queria. Lux estava contente de apenas ouvir, ela mesma não tinha muitas histórias próprias para contar, ela tinha acabado de terminar um longo relacionamento com Ruby Cogs e no momento não queria nenhum relacionamento sério, havia sempre Nox, no entanto.
Os pôneis se serviram cada um com uma porção da ração diária de proteína unicelular que o dormitório deles recebia das fazendas industriais nos níveis inferiores. Apesar de tecnicamente a ração ter gosto de maçã, Lux sempre se perguntou se isso era verdade, a única pônei viva que ainda poderia se lembrar do que realmente era o gosto de uma maçã era princesa Luna e ela provavelmente deveria ter coisas mais importantes em mente do que o gosto da ração.
Depois da refeição eles limparam os seus pratos e copos e cada um iria para suas tarefas diárias. Lux se despediu dos seus colegas e se colocou a caminho do seu trabalho no centro de energia arcana. Assim que ela abriu a porta ela foi atingida pela lufada de ar gelado, ela subiu pelo caminho que levava do setor habitacional para o setor arcano.
Equestria havia mudado para sobreviver à catástrofe, com o decaimento do sol a superfície do planeta rapidamente se tornou completamente inabitável, alguns pôneis contavam histórias de grandes dragões anciões que ainda conseguiam sobreviver na superfície do planeta, mas para pôneis e praticamente todas as criaturas vivas a superfície era mortal. Nos primeiros dias após a catástrofe, a temperatura caiu rapidamente, nas primeiras semanas ainda era possível se aventurar do lado de fora, mas logo até mesmo pôneis em armaduras encantadas não conseguiam mais sobreviver ao frio, os últimos exploradores contavam histórias de colossais oceanos de oxigênio e nitrogênio líquido cobrindo as cidades, depois disso as entradas haviam sido seladas e já faziam duas gerações que nenhum pônei se aventurava fora das cidades subterrâneas.
Lux passava pelas grandes usinas de calor em seu caminho para seu trabalho todo dia, ela sempre teve inveja dos pôneis que trabalhavam nelas, as grandes usinas que queimavam petróleo, carvão e gás natural eram a força vital da nova Equestria, sem o constante calor que elas emitiam constantemente as cidades subterrâneas já teriam congelado como a superficie. As primeiras cidades eram aquecidas com a magia de unicórnios, mas a cada geração a magia parecia enfraquecer, logo eles não conseguiam mais manter as cidades aquecidas e as primeiras usinas a carvão surgiram, logo escavadeiras movida a vapor estavam abrindo caminho em meio a rocha e quando os primeiros poços de petróleo foram encontrados pôneis rapidamente descobriram como refinar a substância e criar combustível a partir dela, não fosse pelos pesados encouraçados movidos a diesel eles provavelmente teriam perdido bem mais do que duas cidades durante a última incursão da Horda.
Nox apareceu como ela sempre aparecia, de surpresa e sem nenhum respeito pelo espaço pessoal de Lux, a pegasus de pêlo azul escuro e crina azul celeste, parecia ter sempre energia de sobra, mesmo usando dois casacos pesados ela ainda conseguia se mover rapidamente e diferente dos outros pôneis ela sempre parecia feliz, não importa que eles vivessem em um buraco na terra, no meio de um inferno congelado.
-Lux! Eu estava com tantas saudades. –A pegasus falou enquanto abraçava fortemente.
-A gente se viu ontem, Nox. – Lux respondeu, sorrindo apesar de si mesma.
-Ah, mas aquilo não contou, a gente nem se viu direito... Eu estava pensando se você não queria passar a noite comigo. Eu consegui uma lata de aguardente que a gente podia dividir. –A pegasus roçou seu casco contra o pouco de pêlo do pescoço que escapava do casaco pesado de Lux.
-Acho melhor não, hoje eu provavelmente vou chegar cansada de mais para qualquer coisa. –Lux respondeu, a proposta era tentadora, não apenas o calor de outro pônei, mas todas as calorias de uma lata de aguardente eram coisas valiosas, mas a unicórnio não iria conseguir pagar o preço que Nox iria querer, por mais tentador que fosse. Ruby ainda era uma memória fresca em sua mente.
-Se mudar de idéia você sabe onde me encontrar. –Nox sorriu e beijou carinhosamente a bochecha de Lux antes de seguir sem eu caminho, Nox como quase todos os pegasi trabalhava nos sistemas de purificação de ar, usando sua magia de pegasus para manter o ar respirável nas cidades subterrânea.
O setor arcano era um gigante decrépito, no passado ele servia como um pilar da sociedade em todas as doze cidades, unicórnios geravam luz e calor do alto da torre, usando cristais e circuitos arcanos para distribuir luz e calor por toda a cidade, mas agora essas eram apenas lembranças de um passado glorioso, de quando ainda existia ainda alguma esperança para os pôneis. Atualmente a maior parte do setor servia como uma base para as operações militares e um abrigo temporário para os pôneis doentes ou velhos de mais para trabalhar. Pelas leis, qualquer pessoa que não contribuísse para a sociedade não teria direito a comida ou abrigo, os membros do setor arcano ofereciam uma escapatória, eles ofereciam dois meses de abrigo a qualquer pônei. Depois de dois meses o pônei estaria por conta própria, a maior parte acabava escolhendo se juntar as fazendas industriais como matéria orgânica.
Ela subiu três andares para o seu posto de trabalho, Lux sempre havia se considerado abençoada pelo seu trabalho, mesmo com toda a desolação do mundo de fora dentro daquelas paredes ainda havia a esperança de uma nova geração. Ela retirou um dos seus casacos e colocou por cima o jaleco branco que era tradicionalmente usado, depois ela foi até a sala especial construída no centro do pilar que era o setor arcano, no passado ela era ocupada por pelo menos vinte unicórnios a todo tempo e através dela era fornecido calor e luz para a cidade, atualmente a sala havia sido convertida, agora a luz e calor eram focados dentro da própria. Lux se sentou em seu lugar, uma cadeira atrás de um espelho falso, uma série de cabos conectados ao seu chifre, outros unicórnios iam se sentando nas outras cadeiras, apenas uma pequena parte dos unicórnios era abençoado com esse tipo de trabalho, a maior parte eram usados nos setores de reciclagem de dejetos, purificação de água ou militar.
Luz solar mágica era provavelmente uma das comodidades mais valiosas nas dez cidades, algo pelo que os barões militares, arcanos, industriais ou das fazendas pagariam milhares de quilo calorias por apenas algumas horas, mas essas salas não eram para eles, essas salas serviam a uma clientela mais exclusiva. Lux fechou seus olhos e começou a se concentrar na sua magia, conjurando a magia que todo unicórnio aprendia: luz arcana.
Vinte unicórnios conjuraram ao mesmo tempo através do maquinário arcano, cada um individualmente produzindo uma luz pouco mais poderosa que uma vela, mas os vinte em sincronia conseguiam criar uma imitação decente de um dia ensolarado, ou pelo menos era isso que as medições diziam, nenhum deles nunca havia visto um dia ensolarado.
As portas da sala se abriram e vários pequenos pôneis correram felizes para dentro, os filhotes receberiam duas horas de luz solar simulada por dia até eles completarem onze anos. Essa pequena dose de energia solar seria o suficiente para ajudar os pôneis a desenvolverem seus dons mágicos, pôneis privados da luz arcana acabavam nunca desenvolvendo seus poderes, eles se tornavam inúteis, pegasi incapazes de controlar correntes de ar, unicórnios incapazes de qualquer magia, pôneis terrestres incapazes de fazer matéria vegetal se desenvolver.
Lux estava transpirando, se esforçando para manter os padrões arcanos em sua mente, a energia arcana fluindo através da máquina, no passado isso era uma tarefa simples para unicórnios, mas para a geração de Lux era necessário um esforço constante, ela não gostava de pensar no que a próxima geração precisaria fazer, haviam rumores terríveis vindos das cidades da Horda, de unicórnios tendo seus membros decepados, ligados permanentemente a máquinas como essas e injetados com drogas estimulantes para produzirem energia arcana até finalmente morrerem algumas semanas depois. Os grifos em geral serviam as cidades pôneis como mercenários, as zebras eram o verdadeiro mistério, elas sempre haviam sido misteriosas, mas nos dias atuais elas evitavam qualquer contato com o mundo externo, até mesmo quando elas faziam negócios com as cidades pôneis era através de pôneis mediadores contratados para representar seus interesses.
Ao fim das duas horas do primeiro grupo, Lux se desconectou da máquina e levantou de sua cadeira lentamente, não era incomum o esforço constante da magia a deixar tonta ao final de uma sessão, eles teriam um descanso de duas horas antes de precisarem receber um novo grupo. O grupo de moveu silenciosamente até a sala de descanso enquanto um novo grupo de unicórnios entrava para tratar de mais um grupo de filhotes. Ela e os unicórnios foram para a pequena sala de descanso, a maior parte deles simplesmente despencava em algum canto para cochilar, Lux era uma das poucas que conseguia se manter de pé por pelo menos duas sessões antes de precisar disso, ela pegou uma garrafa de água do armário com seus cascos, seu chifre estava quente de mais com magia residual para ela arriscar qualquer magia adicional por algum tempo. Ela bebeu, sentindo o líquido revitalizar seu corpo e acalmar a dor de cabeça latejante que ela sentia.
-Operária Lux Rivet, a administradora gostaria de vê-la. –Uma voz soou através do sistema de interfone, alguns dos unicórnios que estavam dormindo até então amaldiçoando o sistema de comunicação interno, mas ao mesmo tempo felizes de que não seriam eles a terem de perder tempo de descanso com o que provavelmente seria mais algum problema burocrático idiota.
Lux suspirou, guardou a garrafa de água de volta no armário e foi ao seu encontro com a administração, seguindo as placas esmaecidas que permeavam o lugar não foi difícil encontrar a administradora do andar, ela parou diante de uma pesada porta de metal, no passado quando o setor arcano ainda era de grande importância tática, eles haviam sido construídos para resistirem ataques externos ou internos, atualmente a maior parte dos sistemas haviam sido desativados e reutilizados em lugares mais vitais das cidades. A porta se abriu lentamente, provavelmente usando um antigo motor a vapor para ativar uma bomba hidráulica e fazer mover a porta.
A sala era espartana, apenas uma mesa de pedra, quase tudo era feito de pedra atualmente, toda a madeira de Equestria havia sido queimada nos primeiros dias, florestas inteiras foram consumidas para calor e luz.
Lux esperou pacientemente até a administradora chegar, a pônei terrestre estava com grandes olheiras, provavelmente não tinha uma boa noite de sono nas últimas semanas. Ela se sentou em sua cadeira de pedra e pegou uma folha de papel, nos dias de hoje o material era sintetizado nas fazendas industriais.
-Funcionária Lux Rivet? –Ela perguntou.
-Apenas Lux, identificação 04529-7, atualmente trabalhando providenciando banhos de luz solar para filhotes. –Lux respondeu.
-Sim, você está sendo transferida para o sétimo andar, pegue essa nova identificação e se dirija para lá imediatamente. –Ela estendeu uma pequena chapa de bronze marcada com a nova identificação que a daria acesso aos andares superiores.
Lux pegou a identificação e colocou em um dos bolsos do seu casaco, bronze era um material muito usado, era mais fácil fazer folhas de bronze do que folhas de papel, metais preciosos e gemas preciosas não estavam mais em falta, mas também não tinham mais valor algum.
-Senhora, eu posso me esforçar mais, eu sei que devo conseguir mais uns vinte por cento de potência, você não precisa me transferir para os andares superiores! –Lux tentou sabendo que os andares superiores eram controlados pelo militares.
-Sinto muito, não tem nada que eu possa fazer. – A administradora falou cansada, ela já havia cumprido esse ritual inúmeras vezes, unicórnios eram escolhidos, muitas vezes os que produziam menos luz, mas as vezes simplesmente alguém aparentemente aleatório, algumas vezes ela havia tentado recorrer, mas uma vez que os militares escolhiam alguém não havia nada a fazer.
Lux suspirou pesadamente, ela olhou para a administradora, procurando por qualquer saída, mas ela podia ver nos olhos da outra pônei que não haveria forma, resignada ela se retirou, andando lentamente para as escadas, tomando seu tempo para subir as escadas e por fim confirmando duas vezes que ela estava diante da porta correta antes de inserir seu cartão de identidade na ranhura correta diante da porta que bloqueava a entrada aos andares controlados pelos militares.
Uma vez dentro ela viu como as coisas eram diferentes dos andares inferiores, aqui todos usavam uniformes, todos pareciam sempre apressados para chegar onde quer que eles estejam indo, tudo parecia mais organizado e papel era usado aos montes por toda parte.
Ela continuou subindo, do quinto para o sexto e do sexto para o sétimo e último andar, ela atravessou uma porta guardada por dois grandes pôneis, pelo menos tão grande quanto pôneis conseguiam crescer com a dieta extremamente restrita que eles possuíam hoje em dia. Eles confirmaram a identidade dela silenciosamente e permitiram a entrada dela na sala.
Assim que Lux atravessou a porta ela quase desmaiou ao se encontrar olho a olho com um grifo, ela já havia fotos e até mesmo vídeos deles, mas ver um deles pessoalmente era diferente, havia algo que nenhuma foto ou filme de propaganda conseguia capturar, um espírito de predador habitava aquelas criaturas, elas no passado haviam se alimentado da carne de pôneis e algo enterrado em seu código genético dizia a Lux que ela deveria correr, que aquilo que estava a frente dela era morte.
-Pare de assustar nossa convidada, general Ailen, você a está deixando desconfortável. –Uma voz falou em um quase sussurro de trás da sala.
Lux desviou seu olhar lentamente para ver a origem da voz e seu coração quase parou quando seus olhos se encontraram com os profundos olhos cianos da princesa da noite. Ela respirou fundo e deu um passo para trás, quase desmaiando, ela não podia acreditar no que estava acontecendo, a princesa nunca aparecia a menos que fosse incrivelmente importante, ela estava sempre ocupada com os assuntos das dez cidades e a constante guerra com os rebeldes, a Horda e os dragões selvagens.
-Se acalme querida, ninguém vai te machucar. –A princesa falou, sua voz era serena, confortante, como o grifo havia algo nela que trazia uma memória ancestral em Lux, mas essa era uma memória prazerosa, como rever uma amiga perdida ou como quando ela era apenas um filhote e adormecia no abraço de sua mãe.Uma memória que trazia um calor gostoso.
-Sim, vossa majestade! – Lux respondeu prontamente e se curvou como ela havia visto nos filmes mudos que de vez em quando passavam no teatro.
Luna sorriu e se aproximou, horrorizada Lux percebeu que a princesa não era perfeita como nos vídeos de propaganda, sua crina e cauda estavam cortadas curtas, diferente da longa e esvoaçante que ela usava nos pôster, ela tinha cicatrizes, várias pequenas por todo seu corpo e três longas e sinuosas que começavam no lado esquerdo do seu pescoço e desciam até quase a ponta do seu casco, Lux não podia parar de pensar em que tipo de criatura havia sido capaz de machucar a princesa.
-Apenas Luna, por favor. Deixe essas formalidades para o corpo político. –Luna falou e ofereceu a Lux seu casco para que ela se levantasse.
Lux aceitou, seu coração pulando quando ela encostou na princesa, ela não podia acreditar que estava tocando na última alicornia viva.
-Vossa Ma... Você me chamou aqui? –Lux perguntou, sua mente correndo tentando encontrar qualquer razão pela qual a princesa poderia querer falar com uma simples pônei como ela.
-Sim, minha assistente estava revisando as quotas de produção dessa cidade e chamou minha atenção para algumas inconsistências. –Luna falou, sua voz trazia algo raro em Equestria, algo que Lux só havia ouvido na voz de uma outra égua, a voz da princesa estava cheia de esperança.
-Inconsistências? Não, por favor, eu sei que minha produção de luz arcana não é a melhor de todas, mas eu posso melhorar, por favor, não me envie para as linhas de frente. –Lux implorou para a princesa.
-Eu acho melhor minha assistente te explicar direito. –Luna apontou para uma pequena pônei terrestre ao fundo, ela usava pesados óculos e trazia consigo dois pesados alforjes. – Numeric Variable, pode explicar tudo a ela?
-Claro, princesa. –A pônei falou com uma voz um tanto rouca. –Eu notei uma variação de 0,34% na força arcana média nos filhotes dessa cidade acima dos filhotes de outras cidades. A maior parte dos pôneis consideraria isso apenas um erro estatístico, e ele esta bem dentro da zona de erro, mas eu tive um instinto de querer saber mais sobre essa anomalia. Quando eu considerei apenas os pôneis dessa cidade eu notei que a diferença aumentava bruscamente, alguns filhotes possuíam uma força arcana média cerca de 4,78% acima da média. Você entende o conceito de entropia arcana, certo?
-Sim, em um sistema fechado a entropia tende a aumentar com o tempo, se aproximando de um valor máximo. –Lux citou, as leis básicas da magia era algo que todos os filhotes aprendiam.
-Sim, e você entende o que isso significa na prática? –Numeric perguntou.
-A energia arcana potencial total de um sistema fechado tende a diminuir com o tempo. Isso quer dizer que cada nova geração sem acesso a uma fonte externa de energia arcana é mais fraca que a anterior.
-Exato, então você deve entender como eu fiquei interessada em um aumento médio no potencial arcano, algo esta injetando nova magia no sistema. –Numeric falou e puxou algo de seu alforje com seus cascos, uma longa e detalhada lista dos filhotes da cidade, alguns dos filhotes estavam marcados.
-Isso não poderia ser um erro? –Lux perguntou.
-Claro, mas quanto mais fundo eu pesquisava mais certa eu fiquei de que não era um erro, essa variação vinha se mantendo constante. Esse ano a variação foi de 4,78% acima da média, ano passado foi de 3,98%, no ano anterior de 4,52% e assim por diante. Eu comecei a checar os pôneis em questão, o que eles tinham em comum, talvez algo na comida ou na água. Eu gastei os últimos dois meses checando cada possível variável.
Numeric entregou as folhas para Lux que começou a checar os pôneis marcados, cada nome era seguido de uma longa lista de informações, onde eles dormiam, onde eles comiam, gênero, orientação sexual, unidade de ensino, setor de trabalho e no final da lista uma coluna havia sido adicionada, rabiscado ao final da tabela estava a equipe que gerou luz solar para eles quando filhotes, todos os marcados haviam sido energizados pelo grupo 217, o grupo que Lux fazia parte. Sem acreditar no que ela estava lendo, Lux olhou para Numeric, esperando que ela explicasse o que aquilo significava, a única conclusão que seu cérebro chegava não poderia estar correta.
-Eu tracei de volta a anomalia por dez anos. –Numeric disse e Lux arregalou os olhos. –Exatamente o ano em que você começou a trabalhar produzindo luz arcana.
-Não, isso deve ser um engano, eu não faço nada de mais, eu sou só uma funcionária comum. –Lux falou, isso devia ser um sonho, desde seus onze anos ela havia trabalhado sem parar no setor, ela não podia ser especial, ela era só mais uma pônei contribuindo para a cidade.
-Não é nenhum engano, Lux. –Luna falou. –Se Numeric está dizendo que você é a anomalia eu acredito nela, por que essa é a Cutie Mark dela.
Lux olhou subitamente para a assistente da princesa, a questão clara em seus olhos, Numeric se virou e abaixou suas calças levemente apenas o suficiente para que Lux pudesse ver a marca no flanco dela na forma de um símbolo de porcentagem.
-Eu acredito que você tenha uma também. –Numeric disse enquanto ela levantava sua calça. –Eu te mostrei a minha, nada mais justo do que você me mostrar a sua.
Lux ofegou espantada, ela nunca havia conhecido outro pônei com uma Cutie Mark! Timidamente ela se virou e abaixou suas calças apenas o suficiente para que Numeric pudesse ver a imagem de um sol nascente no flanco de Lux, rapidamente erguendo suas calças de novo. Numeric e a princesa sorriram.
Ela não podia acreditar no que estava acontecendo, era tão surreal que ela chegava a pensar que estava em um sonho alucinatório, talvez ela tivesse se exaustado de mais produzindo luz e agora estava na enfermaria, tendo sonhos sobre a princesa e Cutie Marks.
-Nós precisamos da sua ajuda, Lux Rivet. –Princesa Luna disse e Lux soube naquele momento que seria impossível dizer não a princesa, perto dela ela se sentia motivada a fazer seu melhor, ela queria impressionar a princesa, mostrar que ela era uma boa pônei.
-Eu vou me esforçar, princesa! Eu vou trabalhar mais, gerar tanta luz quanto eu puder, talvez eu pudesse tentar ensinar outros unicórnios como fazer magia como eu. –Lux falou, não importa se era um sonho ou não, ela iria ajudar a princesa de qualquer forma que ela pudesse.
-Não, isso não iria funcionar. –Luna começou, havia um pouco de tristeza se infiltrando em sua voz.
-Princesa. –O grifo falou do seu canto, chamando atenção para si mesmo pela primeira vez. –Antes de ela saber mais, seria bom ter certeza das afiliações dela.
Luna confirmou com a cabeça. –Desculpe, Lux, mas o general está correto. Antes de prosseguirmos, precisamos ter certeza de que você é realmente é uma cidadã leal.
Lux engoliu a seco. –Cla... Claro, princesa.
O chifre de Luna começou a brilhar e Lux sentiu um alívio imediato, nenhum unicórnio conseguiria fazer esse tipo de magia, por isso em geral os testes de lealdade eram feitos... de forma desagradável. Luna encostou seu chifre no de Lux, a pequena unicórnio se contendo para não gritar de excitação, todos os outros unicórnios da cidade provavelmente morreriam de inveja dela ter encostado no chifre da princesa.
A magia era gentil, carinhosa, ela levou Lux a um estado similar ao sono e quando ela abriu os olhos estava em um longo corredor escuro, estrelas brilhavam ao redor dela e uma a uma grandes projeções de toda sua vida começaram a aparecer como pinturas nas paredes do corredor, Luna apareceu pouco depois.
-Onde nós estamos? –Lux perguntou.
-Esse é um lugar especial, um dos poucos lugares mágicos que ainda sobraram. Aqui toda a sua vida está exposta, se tem algo que você não quer que eu veja, eu peço desculpas e te prometo não fazer julgamentos. –Luna falou enquanto começava a andar em frente, observando os flashes dos primeiros anos de vida de Lux, brincando com outros filhotes na sala de luz.
-Quem é a pegasus azul? –Luna perguntou, ela estava em quase todas as memórias.
-Nox, ela é minha melhor amiga. –Lux falou e imediatamente corou quando elas passaram em frente a uma memória em que ela e Nox pintavam cutie marks falsas em seus flancos.
Luna sorriu ternamente vendo as duas brincarem juntas, logo as duas não eram mais filhotes, elas estavam na escola, treinando para suas futuras carreiras, mas ainda juntas, rindo e se divertindo sempre que podiam apesar do mundo congelado que as cercava. Ela viu Lux se esforçando para conjurar a magia de luz pela primeira vez.
-No começo era mais difícil fazer magia, não? –Luna perguntou.
-Sim, depois que a minha marca apareceu se tornou mais fácil.
-Quando ela apareceu? –Luna perguntou e viu a unicórnio abaixar suas orelhas e apontar para uma memória.
Luna observou atentamente e viu uma jovem unicórnio chorando em frente a uma pequena placa de bronze marcada, ela não precisava perguntar para saber o que aquela placa dizia, ela mesma já havia visto inúmeras como aquelas.
-Sua mãe? –Luna perguntou.
-Sim, ela morreu nas linhas de frente. Foi o momento mais triste da minha vida, ela era a minha heroína e um dia eu recebo uma simples placa de bronze dizendo que a primeira tenente Steel Rivet morreu defendendo a cidade de Nova Baltimare.
Luna suspirou pesadamente, essa era uma realidade comum nos dias atuais, pôneis morriam em combate ou em acidentes industriais praticamente todos os dias, filhotes sem pais estavam se tornando a norma.
-Eu decidi acender uma luz para a minha mãe aquela noite, para que o espírito dela achasse o caminho para a luz, eu me sentei em frente a janela e fiz me chifre brilhar até eu não agüentar mais, até meu corpo inteiro doer e foi então que eu descobri como alterar a matriz arcana, apenas uma pequena modificação e minha luz brilhou mais forte, eu continuei brilhando até não conseguir mais ficar consciente. Quando eu recuperei a consciência a marca tinha aparecido no meu flanco.
Luna viu em outra memória a jovem desesperada pelo aparecimento da marca, tentando cobrir ela com roupas, com medo de que outras pessoas a vissem. Luna as vezes não podia acreditar em como as coisas haviam mudado, pôneis atualmente viviam para trabalhar, para manter a cidade, para sobreviver mais um dia, havia pouquíssimo tempo para se divertirem, descobrirem seus talentos, e como conseqüência cada vez menos pôneis ganhavam suas marcas e como resultado, pôneis com Cutie Marks acabavam se envergonhando das suas, escondendo elas para não chamarem a atenção.
A juventude de Lux passou brevemente, praticamente todos os dias na mesma rotina de trabalho e depois de volta para o dormitório, alguns machos com quem ela dividiu a cama, mas nenhum deles durava muito até que apareceu um macho de pêlo vermelho e crina preta, o pônei terrestre e Lux passaram anos juntos, mas no final ele também foi embora, a única pônei constante em sua vida era Nox, ela também havia dividido a cama com Lux, mas nunca com freqüência, em geral quando Lux estava bêbada. Lux corou profundamente, ela não podia acreditar que a princesa estava vendo toda a sua vida amorosa dessa maneira.
-É o bastante, você parece ser um pônei leal. –Ela falou e em um momento elas estavam de volta à sala no topo do setor arcano, Numeric e o grifo olhando para a as duas.
-Ela é leal. –Luna proclamou e o grifo apenas confirmou com a cabeça. – Lux, você disse que faria qualquer coisa para nos ajudar, você esta disposta a dar sua vida para isso?
-Dar a minha vida? Como assim? –Lux perguntou rapidamente, dando um passo para trás.
-Nós já passamos do ponto sem volta. –Numeric falou como se fosse uma sentença. –Nós temos no máximo mais duas gerações antes que o potencial mágico das cidades se torne insuficiente para manter as necessidades dos pôneis. Antes disso a sociedade vai entrar em colapso, a maior possibilidade é de que em dezesseis anos as cidades iniciem uma guerra civil pelos poucos recursos, uma vez iniciada esse conflito deve eliminar pôneis e recursos o suficiente para tornar a sobrevivência em longo prazo impossível.
-No entanto nós temos uma alternativa, uma última chance. –O grifo falou subitamente, caminhando para perto de Lux. –Eu passei os últimos doze anos trabalhando em um projeto particular, no entanto eu serei completamente honesto, você não irá sobreviver.
-Você não precisa decidir isso agora. –Luna falou. –Se você desejar algum tempo para pensar é compreensível.
-Eu... Eu vou pensar a respeito. –Lux falou, era muita coisa para ela processar de uma só vez. Ela caminhou para fora do escritório, tentando pensar no que deveria fazer, a resposta deveria ser óbvia, não? As cidades dependiam dela, mas a partir do momento que ela dissesse sim para o plano ela estaria praticamente morta.
Ela andou para fora do setor arcano, era provavelmente a primeira vez em toda a sua vida que ela saía mais cedo do trabalho, as ruas estavam vazias, praticamente todos os pôneis estavam em seus trabalhos, ela sentia vontade de uma bebida, mas Nox não iria sair do turno dela por mais algumas horas. Ela simplesmente vagou, andando aleatoriamente pelas ruas sem saber exatamente para onde ir. Morrer era uma constante da vida, todos os pôneis sabiam que a qualquer momento um acidente industrial poderia acontecer ou até mesmo a qualquer momento a Horda poderia atacar ou ataques terroristas das cidades rebeldes, morrer não era o problema, mas escolher isso voluntariamente era outra questão.
Sem perceber ela acabou indo de encontro as grandes portas de ferro encantado que separavam a cidade da superfície, no passado elas abriam e fechavam, grupos de exploradores vasculhavam a superfície para tentar resgatar os tesouros de Equestria, mas logo até mesmo isso havia se tornado impossível, um oceano de oxigênio e nitrogênio líquido recobriam a superfície do planeta. Ela estendeu seu casco e tocou a porta, mesmo usando pesadas botas ela ainda conseguia sentir o frio do lado de fora, isso era tudo que existia além dessas paredes o frio da morte e decaimento.
Quantos milhões de pôneis haviam se sacrificado para que eles pudessem continuar vivendo, ela havia ouvido as histórias antes, de como os elementos da harmonia haviam se sacrificado na defesa de Equestria durante os primeiros dias da existência subterrânea, como Rainbow Dash morreu de hipotermia repelindo um ataque da Horda tentando tomar as cidades pela superfície. Applejack, que trabalhou até morrer na criação das fazendas industriais. Twilight Sparkle e sua filha que morreram na segunda invasão da Horda, elas criaram um escudo ao redor da cidade inteira e agüentaram por três dias até que os encouraçados conseguiram resgatar a cidade e conter o avanço da Horda antes que eles destruíssem mais cidades. Rarity que cavalgou Spike em batalha contra as zebras durante a guerra dos três poços, ambos morreram alguns meses depois com algum tipo de veneno que nenhum pônei havia visto antes. Fluttershy, a médica dedicada que foi morta por cães-diamante durante a invasão das Cinco Montanhas. Pinkie Pie que sobreviveu as suas amigas, que se esforçava a cada dia para trazer divertimento às vidas dos pôneis condenados, andando de cidade a cidade para trazer um brilho de esperança aos pôneis, mesmo que dia após dia ela se sentisse mais sozinha, ela simplesmente empurrava a própria tristeza para o fundo e sorria, até o dia em que ela não agüentou mais.
Lux suspirou, nas histórias era sempre tão fácil para a heroína sacrificar sua vida ou felicidade pelo bem comum, deixar tudo de lado para fazer o que é certo. Ela sentia medo, como algum pônei poderia escolher a morte, quando desde pequenos eles eram ensinados que tudo que importava era sobreviver um dia após o outro.
-Você está bem, pequenina? –Uma velha pônei perguntou atrás dela.
Lux se virou, subitamente notando a velha pônei olhando para ela, sua crina e cauda eram cinzas e seu pêlo um rosa esmaecido pelos anos.
-Eu estou sim, só pensando. –Lux falou.
-Eu sempre gostei de vir aqui para pensar, aqui é um bom lugar, cheio de memórias. Eu fui uma exploradora no passado, você sabia? –A velha pônei tocou a porta com seu casco e respirou profundamente.
-Nossa, eu não sabia que existiam mais exploradores. –Lux respondeu um tanto surpresa.
-Eu devo ser a última, pelo menos nessa cidade. –Ela falou com uma voz cheio de pesar, tirando uma vela de dentro do seu casaco e encaixando ela no chão, ela pegou em seguida uma caixa de fósforos, mas Lux acendeu a vela para ela com sua magia. –Obrigada, querida.
-Como era o lado de fora? –Lux perguntou curiosa.
-Eu não vi muito dele, quando nós saímos a atmosfera já estava liquefazendo, mas eu vi as cidades de antes. Fillydelphia, Baltimare, Canterlot, todas elas eram tão grandes e tão abertas, aqui embaixo tudo é pequeno e apertado. E havia cores por todo lado, esmaecidas pelos anos, mas ainda havia cor por todo lado. –Ela pegou uma pequena foto, um artefato antigo que provavelmente atualmente custaria uma pequena fortuna em calorias, nela Lux conseguiu ver quatro jovens pôneis usando as pesadas armaduras encantadas contra o frio.
-Esses eram vocês? Lux perguntou curiosa.
-Sim, eu e o meu time, todos eles estão mortos agora. Snow Flake - Ela apontou para o pônei mais a direita, um jovem macho todo branco com a crina de um azul suave. – Foi o primeiro, ele morreu em um acidente, escorregou em um lago de nitrogênio líquido, nós ainda recuperamos o corpo, mas era tarde de mais, Northern Lights – Ela apontou para uma grande fêmea ao lado do outro pônei. – Perdeu uma perna tentando resgatar ele, colocaram uma prótese nela, mas ela acabou morrendo alguns meses depois quando uma nevasca nos separou e a gente nunca encontrou o corpo. Poucodepois eles decidiram parar com as explorações, não havia mais nada que a gente pudesse recuperar de qualquer forma. Eu e Ice Sheet fomos trabalhar em uma das fazendas industriais. Ontem Ice Sheet morreu. –Ela suspirou pesadamente, contendo as lágrimas.
-Meus pêsames. –Lux respondeu quase automaticamente.
-Foi uma boa vida pelo menos, poucos pôneis hoje em dia podem dizer o mesmo. –Ela colocou a foto ao pé da vela.
-Você não devia colocar ai, vai acabar queimando a foto. –Lux advertiu.
-Eu sei. –A velha sorriu. –Você já viu as estrelas, garota?
Lux balançou a cabeça.
-Eu sinto falta delas, quando a gente estava lá fora e olhava para cima havia milhares delas brilhando ao nosso redor. –Ela falou com seu olhar intento na chama que se aproximava cada vez mais da foto.
Lux olhou em silencio a velha pônei, ela parecia perdida em suas memórias, olhando enquanto a chama da vela lentamente devorava a foto, um pequeno sorriso em seu rosto.
-Acho que tudo acaba um dia. –A velha pônei falou. –Se cuide, jovenzinha.
Ela foi descendo o caminho até a cidade, deixando Lux sozinha, a unicórnio ficou observando a vela queimando. O fogo consumia a cera, eventualmente a chama morreria sem cera para consumir, assim como as cidades que consumiam pôneis para se manterem vivas. Ela não seria diferente de sua mãe.
Cansada dos próprios pensamentos, Lux voltou á cidade, ainda levariam algumas horas para o turno acabar, o tempo demorava a passar sem nada para fazer, ela nunca havia passado um dia que fosse sem trabalhar desde que havia começado seu trabalho no setor arcano.
Ela caminhou até o museu, a velha construção não era conservada a anos, todos os recursos disponíveis eram enviados para setores mais importantes, fora que ninguém mais parecia ter tempo para o passado e não gostavam de pensar sobre o futuro. Tudo que pôneis tinham atualmente era o presente e o presente era uma droga.
O museu guardava as últimas relíquias do passado, atualmente a maior parte eram pinturas, fotografias e uns poucos artefatos, nos primeiros dias haviam dezenas de orbes de memórias, mas sem magia ambiente eles esmaeceram até se tornarem pedras comuns. Ela caminhou pelos corredores escuros, vendo as antigas fotos e pinturas das cidades, das arvores, do sol. Em um patamar no centro de uma sala estava um livro, provavelmente o último livro do mundo de antes, atrás de uma barreira de vidro reforçado estava o “Elementos da Harmonia: Um guia de referência”, o mesmo livro que havia pertencido a princesa Twilight Sparkle.
Lux tocou o vidro e olhou para o livro, Celéstia em pessoa havia encomendado o livro, ele era um das dezenas de livros similares que ela havia escrito para que ninguém realmente soubesse o que havia acontecido com Luna, ela temia que nobres gananciosos ou poderes externos tentassem libertar sua irmã ensandecida. A história no final se tornou pouco mais que uma fábula, uma lenda para assustar crianças, a noite dos pesadelos que no passado havia sido uma celebração da vitória de Luna contra os espíritos do pesadelo se tornou sobre o medo de Nightmare Moon. Atualmente você conseguia cópias do livro em folhas de bronze, muitos rebeldes criavam suas próprias cópias incluindo a história de como Nightmare Moon tentou trazer noite eterna e usavam isso como prova contra Luna, acusavam ela de ter arranjado o assassinato da própria irmã para trazer a noite eterna que ela tanto desejava.
Ao redor do livro nas paredes estavam os retratos das seis pôneis que carregaram os elementos por último, todos conheciam suas histórias, seus feitos. Ela olhou para as grandes heroínas.
-Por favor, me dêem forças para fazer o que é certo. –Ela sussurrou para as seis
A seguir havia uma exposição do assassinato de Celestia, réplicas da arma e da munição usada estavam em exibição. A arma era uma versão rudimentar de uma arma de fogo, elas haviam se tornado comum conforme a magia dos unicórnios enfraquecia, atualmente existiam modelos muitos mais avançados, criados para combater os inimigos de Equestria. A bala era mais intrigante, apesar de parecer normal, nenhum cientista conseguia determinar o mineral usado em sua confecção, era algo diferente de tudo que eles já haviam visto, ele parecia ser completamente impermeável a magia, conseguiu atravessar os escudos de Celestia que normalmente seriam capazes de parar a fusão solar e quando os médicos unicórnios tentaram operar para retirar a bala descobriram tarde de mais que sua magia também não conseguia tocar a bala, eles precisaram trazer médicos pôneis terrestres com ferramentas especializadas para conseguir remover o projétil, mas infelizmente já era tarde de mais, a bala parecia ter drenado a magia de Celestia e por fim, apesar dos esforços dos melhores médicos da nação Celestia entrou em coma e morreu alguns dias depois.
Se os cães diamante sabiam do que a munição era feita eles nunca falaram e aparentemente nunca haviam usado ela novamente.
A última exposição mostrava os primeiros dias, as seis heroínas guiando os pôneis para as grandes cavernas subterrâneas, Cadence e o Império de Cristal desaparecendo, as primeiras guerras contra a nascente Horda ainda na superfície.
E era isso, no começo havia planos para ampliar o museu, adicionar novas exposições, mas ninguém parecia ter tempo ou recursos para isso. Ela se sentou em uma mesinha onde no passado eram servidos cafés e comidas, mas não mais, atualmente toda a comida vinha na forma da mesma ração, cada pônei era atribuído um número de rações diárias suficiente para seu organismo continuar funcionando e executando seu trabalho de forma eficaz.
Numeric Variable se sentou a sua frente.
-Você está bem? –A outra fêmea perguntou.
-Muita coisa na minha cabeça, se importa se não falarmos sobre isso? –Lux respondeu cabisbaixa.
-Claro. Sobre o que você quer conversar? –Numeric perguntou.
-Como você sabia que eu estaria aqui? –Lux perguntou.
-Era estatisticamente o lugar mais provável, um dos poucos lugares públicos que permanece aberto durante o ciclo primário de trabalho. –Numeric respondeu.
-Com você é tudo números e estatísticas, não? –Lux falou irritada.
Numeric deu de ombros. –Desde pequena eu sempre gostei de números, meus dois pais sempre me deram total apoio. Eles me adotaram quando eu era pequena ainda, mas sempre foram super gentis comigo. Um deles trabalhava no setor arcano e conseguia me trazer folhas de cobre de matemática avançada o outro trabalhava nas fazendas industriais, ele aprendeu a ler e escrever só para me ajudar nos meus estudos. Quando minha marca apareceu, eles até mesmo me deram uma pequena cutiecenera, eles eram os melhores.
-Eram? –Lux perguntou.
-Sim. –Numeric respondeu brevemente.
Um silêncio pesado se estendeu entre as duas.
-Vamos beber algo. –Numeric falou bruscamente. –Eu quero esquecer o passado.
-Mas a essa hora? Eu sei onde conseguir uma lata de bebida, mas só daqui algumas horas. –Lux respondeu.
-Venha, eu vou te mostrar alguns dos privilégios de trabalhar para a princesa. –Numerica sorriu ardilosamente.
Alguns momentos depois Numeric havia trocado algumas unidades de ração por uma garrafa pequena de aguardente forte, duas garrafas de água e um frasco de flavorizante sabor de limão.
Lux acordou com uma terrível dor de cabeça, o despertador tocando com toda força como a cada manhã, ela tentou levantar seu casco esquerdo para desligar o despertador, mas sentiu ele preso embaixo de algo pesado, irritada ela usou sua magia para desligar o despertador, o esforço fazendo sua cabeça parecer que iria explodir. Os outros pôneis acordavam e as luzes se acendiam subitamente, Lux grunhiu sem querer sair da cama, ela estava tão quente e confortável. Os outros pôneis do dormitório estavam rindo, comentando algo, mas ela não fazia esforço para entender, apenas mais cinco minutos não iriam lhe matar, sua memória voltava aos poucos do dia passado, ela nem mesmo precisaria ir trabalhar, ela só precisava ir se encontrar com a princesa.
Algo molhado tocou sua orelha, ela abriu seus olhos repentinamente e olhou para sua direita e viu a forma azulada de Nox aninhada contra ela, ela respirou aliviada, então era disso que os outros estavam comentando pela manhã, ela suspirou aliviada até olhar para sua esquerda e ver Numeric aninhada a sua esquerda. Ela olhou para os outros pôneis que já estavam terminando de colocar seus casacos, sempre que seu olhar se encontrava com algum deles ela viu um risinho contido. Então era isso que tinha acontecido noite passada, ela pensou engolindo a seco, ela conseguia sentir suas bochechas corando subitamente.
Com cuidado ela acordou as duas, Nox estava sorrindo alegremente e Numeric parecia um tanto constrangida, especialmente por conta de todos os outros pôneis ao redor.
-Eu... Eu te encontro no setor arcano! –Numeric falou apressada e saiu correndo, colocando seu casaco às pressas.
-O que deu nela? –Nox perguntou, se espreguiçando sem a menor pressa e aproveitando o momento de nudez para cutucar Lux com suas penas.
Lux estremeceu com a sensação das penas delicadas delineando sua coluna. -Nox! –Lux falou com um sorriso gostoso, aquela sensação era boa de mais, mas elas tinham de se aprontar para o trabalho. –Vai colocar seu casaco! –Ela falou para Nox, dessa forma as duas já estariam atrasadas.
Subitamente Nox a abraçou. –Eu não quero que você vá hoje. –Ela falou envolvendo Lux com suas asas.
-Não seja boba, você sabe qu... –Lux começou, mas foi interrompida pelo olhar de Nox, ela estava à beira de lágrimas.
-Você não pode morrer, Lux! Por favor não me abandona! –Nox falou, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Lux sentiu seu coração bater em falso, ela estava pronta para se oferecer ao trabalho, mas agora ouvindo Nox ela sentia sua determinação falhando. Nox parecia sempre complicar as coisas.
-Você me contou tudo ontem à noite. –Nox falou. – Eu não quero que você morra.
-Eu preciso ir, é importante. –Lux respondeu. –Por favor, não torne isso mais difícil.
Nox a soltou de seu abraço relutantemente, pegando seu próprio casaco em silêncio.
-Lux, por que nós nunca namoramos? –Nox perguntou com um demorado suspiro.
-Nox... Agora você me pergunta isso? Não importa mais. –Lux respondeu, se fechando no próprio casaco.
Nox mordeu a própria asa com força, estremecendo ao arrancar uma de suas próprias penas, ela estendeu a pena a Lux que a pegou em sua telecinese.
-Leva isso com você, lembre de mim no final. –Nox falou e saiu correndo, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Lux a deixou ir, era melhor assim. Ela olhou para a pena escura e a guardou dentro do seu casaco antes de ir para o refeitório pegar sua refeição, todos os pôneis olhando para ela assim que ela chegou, cochichando sobre tudo que havia acontecido na noite anterior, Lux se sentou e logo começaram as perguntas sobre quem era a outra pônei com Cutie Mark, se Nox não havia ficado com ciúmes e provavelmente o que para eles era mais importante: Onde ela havia arranjado aquela bebida.
Ela respondeu o melhor que podia, mas sem querer comprometer Numeric, ela não parecia ter ficado muito confortável com o que havia acontecido e Lux não queria constranger ela ainda mais, Lux comeu o mais rápido que podia para não ter mais que responder perguntas e saiu correndo para o setor arcano.
A cada movimento ela sentia a pena de Nox roçando contra seu pescoço, ela sentia seu coração pesado, ela amava Nox, isso já havia se tornado claro para ela a muito tempo, mas ela não poderia ter nada sério com a pegasus, simplesmente não era para ser entre as duas e de qualquer forma agora não importava mais. Ela mudou a pena de posição rapidamente, para algum lugar em que ela não a sentisse e continuou correndo, em frente ao setor arcano ela se encontrou com Numeric, a égua parecia ainda um tanto desconfortável e envergonhada.
-Lux, eu sei que nós não somos amigas realmente, mas eu precisava te pedir um favor. –Numeric falou, alternando seu peso de um casco para o outro.
-Claro, olha ontem à noite nós estávamos muito bêbadas, não precisa se envergonhar do que aconteceu. –Lux ofereceu enquanto as duas caminhavam para dentro do setor.
-Obrigada, mas não é isso. Só te peço, por favor, que não mencione o que aconteceu próximo a Luna. –Ela falou rapidamente.
-Com a princesa Luna? Eu nunca poderia mencionar esse tipo de coisa com a princesa! –Lux corou ao pensar em comentar sobre suas escapadas sexuais com a princesa, se bem que a princesa já havia visto todas as suas antigas aventuras romântica.
-A princesa é antiquada, ela nunca se adaptou direito aos novos tempos depois de voltar do seu banimento na lua e atualmente ela passa a maior parte do tempo nas linhas de frente. Ela ainda é bem antiquada, então se ela ficasse sabendo o que nós fizemos ontem a noite iria pensar que nós estamos comprometidas.
-Nossa, isso já aconteceu antes? –Lux perguntou.
-Sim, com um garanhão nas linhas de frente, eu tentei explicar que éramos apenas amigos, mas ela estava pronta para arranjar nosso casamento e quando eu disse para ela que não iríamos nos casar ela ficou desesperada pensando que eu o havia desonrado! Para minha sorte tivemos de nos mover para outra seção da linha de frente e ela acabou esquecendo o assunto eventualmente. –Numeric explicou um tanto envergonhada.
-Pode deixar, não vou mencionar nada. Honestamente estou aliviada, pensei que havia feito algo de errado na noite passada. –Lux falou um tanto aliviada.
As duas pôneis subiram até o último andar, através das portas lacradas que delimitavam o setor militar e para o topo do setor onde atrás das pesadas portas a princesa e o grifo as esperavam.
-Nós estávamos lhe esperando. –Luna falou em sua voz melodiosa.
-Você pensou sobre a proposta? –O grifo falou secamente.
Lux confirmou com a cabeça. –A necessidade de muitos se sobrepõem a necessidade de poucos.
O grifo anuiu silenciosamente, Luna e Numeric apenas concordaram com um silêncio sóbrio.
-Como que isso vai acontecer? Vai ser algum ritual? –Lux perguntou, usando sua magia para mudar a posição da pena de Nox, ela queria sentir a pena em seus momentos finais.
-Vai ser mais complicado do que isso. – Ailen falou. – Nós passamos os últimos anos aperfeiçoando um método para criar uma estrela e o seu feitiço é o último elemento, se nós conseguíssemos usar o seu feitiço combinado com a nossa tecnologia no coração do sol podemos reiniciar o sol!
Lux quase desmaiou ao ouvir a explicação, isso era muito maior do que qualquer coisa que ela havia sonhado; isso não era apenas sobre salvar uma cidade ou mesmo todas as cidades, isso era sobre salvar todos, era sobre salvar o próprio planeta.
-No entanto, para conjurar esse feitiço você precisa estar bem próxima do alvo. –Luna falou.
Lux olhou para ela com olhos arregalados.
-Nós vamos enviar uma expedição ao sol, para reiniciar ele com um mega-feitiço e salvar todo pon... Mundo em Equus. –Luna resumiu.
Lux riu nervosa.
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