Alicorn Falls [Br]
Allicorns will fall and the dark will rise,
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Eles a levaram para um hangar construído ao lado da cidade, o gigantesco túnel era iluminado por apenas algumas poucas lâmpadas e parecia recém escavado, o frio dentro dele era quase insuportável, bem pouco do calor era bombeado na gigantesca estrutura. Então eles a mostraram o que a principio parecia ser uma gigantesca construção, pelo menos duas vezes maior que o prédio do setor arcano e construído como um encouraçado, feita de aço e com grandes janelas verticais, no topo dela havia o que só poderia ser descrito como um colossal escudo, o que a primeiro ela havia pensado ser o teto da construção era na verdade um escudo dourado maior do que algumas das cidades, diretamente ligado ao escudo havia um bloco retangular tão grande que ela não conseguia pensar em uma maneira de descrevê-los propriamente, toda a estrutura parecia desafiar qualquer descrição que ela pudesse imaginar, era uma construção tão grande que os recursos gastos nela deveriam ser o suficiente para construir duas novas cidades!
-Essa é a Luciferious II. –Luna falou, ela era única que não usava casacos pesados, mas também ela havia sobrevivido por mais de mil anos na lua, provavelmente o frio não a incomodava.
-Ela foi criada usando tecnologia zebra, pônei e grifo. –Ailen completou. –Ela vai levar você e a tripulação para a órbita solar, uma vez em órbita o módulo habitacional vai se desacoplar do escudo primário. O módulo habitacional vai voltar para Equus e o escudo primário vai mergulhar no coração do sol onde o mega-feitiço vai ser ativado.
-Eu vou estar no escudo primário? –Lux perguntou, esfregando os cascos da frente contra o corpo, por mais que aquilo fosse impressionante, o frio estava começando a incomodar.
-Dois pôneis vão estar no escudo primário para garantir a máxima efetividade do mega-feitiço. –Ailen estava contente em explicar, ele parecia ter dedicado muito tempo a esse projeto.
-Dois, mas eu pensei que eu era a única pônei que conseguia lançar o feitiço. –Lux indagou confusa.
-Sim, você vai conjurar seu feitiço de luz, mas para atingir seu potencial máximo é preciso de outra pônei capaz de controlar as equações arcanas, normalmente o computador do escudo primário consegue controlar as equações, mas com uma pônei especializada nós conseguimos aumentar a eficiência do feitiço em 50%.
Lux abriu a boca para perguntar quem seria a outra pônei que iria se sacrificar com ela no coração de uma estrela, mas ela conhecia apenas uma única pônei boa com números. Ela olhou para Numeric e a fêmea confirmou com a cabeça.
-Venha, vamos conhecer o resto da tripulação. –Ailen indicou as saída para ela e Lux estava mais do que feliz em sair daquele lugar.
O prédio em que a tripulação estava sendo treinada era mais bem aquecida, iluminada e suas dimensões faziam sentido para a mente de uma pônei acostumada as restritas dimensões das cidades. Lá ela conheceu a futura tripulação da Luciferious II, vinte pôneis que haviam treinado intensivamente para a missão durante os últimos anos, todos estavam felizes de cumprimentá-la e garantir que haveriam de mantê-la a salvo durante a missão.
Ela sorriu e os cumprimentou, era estranho estar entre pessoas que tinham como dever a escoltar através do vazio do espaço para que então ela pudesse se matar conjurando o que deveria ser uma das mais simples magias.
-Então ela é o novo catalisador primário? –Uma voz subitamente veio de trás dela, ela se virou, esperando ver um pônei, mas se deparou com os olhos dourados de um zebra.
Ele era tão similar a um pônei, as listras eram apenas um pequeno detalhe, na verdade muitos jovens gostavam de fazer listras falsas, a falta de variação de cor era um problema maior, mas ainda havia uma diferença mais fundamental, algo que faltava na zebras, elas não possuíam magia inata como os pôneis, não conseguiam fazer plantas crescerem naturalmente como os pôneis terrestres, mas elas haviam aprendido alquimia, suas poções e elixires eram capazes de produzir efeitos mágicos diversos.
-Esse é Zuralameni ou Zura para ser mais fácil. Ele é o responsável por boa parte do sistema de propulsão da nave. –Numeric o apresentou.
O zebra tinha sua crina longa em dreds amarrados juntos com um pedaço de fio elétrico, ele usava um jaleco impecavelmente branco e sua cauda era cortada curta em ângulo. Ele tinha uma aparência meio doentia, tufos de pêlo faltando em diversas partes.
-Catalisador? –Lux perguntou.
-A nave vai gerar a energia para o feitiço no seu lugar, tudo que você precisa fazer é conjurar a matriz arcana básica. –Zura explicou de modo cansado.
-Você tem que desculpar ele. –Numeric se adiantou. –Passa a maior parte do tempo no próprio laboratório e se esquece de como conversar com pôneis.
-Eu nem mesmo sabia que existiam zebras fora do império. –Lux comentou.
-Não é um império, nós temos uma única cidade e somos liderados por um conselho eleito democraticamente. E você nunca teria visto uma de qualquer forma, até onde eu sei sou a única zebra a abandonar nossa cidade.
-Por que você... –Lux começou.
-Abandonei a cidade? Por que eles nunca teriam como produzir algo como a Luciferious II, nós não temos os recursos suficientes ou mesmo usuários de magia necessários.
-Zura tem sido um dos nossos mais valiosos pesquisadores. –Luna ofereceu. –Sem a ajuda dele essa missão nunca teria sido possível.
O treinamento de Lux começou imediatamente, ela começou a receber treinamento nas operações diárias que seriam necessárias dentro da nave, desde coisas simples como usar o banheiro até noções básicas de primeiros socorros. De noite ela foi colocada em um dos dormitórios que estavam sendo usados pela tripulação, suas poucas posses já haviam sido transferidas e provavelmente uma nova pônei já estava designada para a sua cama no dormitório antigo, os outros provavelmente simplesmente assumiriam que ela havia morrido em um acidente de trabalho e seguiriam com suas vidas.
A ração era basicamente a mesma, a quantidade era apenas levemente maior, mas os soldados ainda recebiam uma pequena ração diária de chocolate, Lux mal podia acreditar no gosto do doce, era diferente de tudo que ela jamais havia provado (O que se resumia a ração comum e algumas poucas vezes alguns muffins que eram na verdade feitos a partir da ração.) e mais do que isso ele era incrivelmente rico em calorias.
A noite ela dormiu facilmente, ela estava exausta dos treinamentos, era incrível como os soldados ainda tinham energia para atividades intimas depois do dia longo.
No dia seguinte ela acordou, o alarme era o mesmo, provavelmente ele seria o mesmo em qualquer outro lugar. O dia de treino começou com exercícios físicos leves, seguidos de um café da manhã e logo a seguir enquanto os soldados continuavam com seu treinamento ela foi levada a outra sala, essa era completamente branca e possuía estranhas linhas arcanas marcadas pelo piso, paredes e teto, estar dentro da sala era estranho, parecia que ela conseguia sentir o fluxo de energia arcana dentro dela mesma.
-Essa é uma sala de amplificação arcana. –Ailen explicou. –Quando você estiver ai dentro vai ser desconfortável, mas você precisa se acostumar, a sensação vai ser muito pior no escudo primário.
Conjurar qualquer magia dentro da sala era complicado, qualquer manipulação arcana era amplificada e o risco de feedback aumentava exponencialmente, se a principio ela se perguntava por que salas como essa não eram usadas nas cidades, logo ela descobriu como seria fácil com um erro simples quebrar seu chifre ou até mesmo exaurir permanentemente sua magia. Ela precisou de um dia inteiro de experimentação até conseguir usar sua levitação de forma adequada.
De noite ela se sentia completamente exausta, ela pegou um copo de água e sua ração habitual e praticamente se arrastou para sua mesa. Luna se sentou ao seu lado com um sorriso malicioso.
-Vejo que está tendo dificuldades com a sala de mega-feitiço. –Ela falou. – No começo eu também tive dificuldades, mas logo você vai pegar o jeito.
-Não tem como reduzir o poder da sala? Talvez diminuir o tamanho dela? –Lux perguntou.
-Não, essa é a mais fraca que conseguimos construir, aparentemente elas funcionam numa escala logarítimica, se quiser eu posso te pedir para Numeric explicar detalhadamente o funcionamento delas, eu tenho certeza que ela não se importaria. –A princesa da noite sorriu e Lux gelou, por que ela viu naqueles grandes olhos que ela queria arranjar muito mais do que apenas aulas entre ela e Numeric.
-Ah, claro, mas agora eu preciso correr! –Lux falou apressadamente, querendo escapar da princesa, ela engoliu o resto da ração e saltou para fora da mesa, correndo para fora do refeitório enquanto sua mente tentava descobrir como ela havia descoberto sobre o que havia acontecido entre ela e Numeric.
Perdida em pensamentos ela nem mesmo percebeu quando uma garra a puxou para um dos quartos que ela nunca havia visto, antes que ela pudesse gritar outra garra forçou seu focinho fechado, um isqueiro se acendeu na penumbra e ela se viu frente a frente com uma grifo, uma fêmea dessa vez, suas penas eram de um roxo profundo, com o peito mais claro que o resto e belos olhos azuis, ela levou uma de suas garras afiadas até seu focinho em sinal de silêncio e apagou a chama do isqueiro que ela manipulava habilmente com sua cauda. Em tenso silêncio Lux olhou ao redor e percebeu Luna caminhando pelo mesmo corredor que ela, ela olhava ao redor, provavelmente procurando por ela.
A grifo sorriu quando a princesa desapareceu em uma esquina e soltou o focinho da pônei.
-Ela está te perseguindo agora é? –A grifo falou enquanto acendia um cigarro.
-Aparentemente ela descobriu que eu dormi com a assistente dela e quer que a gente passe mais tempo juntas agora. –Lux explicou –Obrigada pelo salvamento, mas você não podia ter sido um pouco menos bruta?
-Vocês pôneis são muito delicadas, você é aquela Lux, certo? Eles deram uma explicação detalhada sobre você mais cedo, parece que você é nossa carga preciosa no momento. Eu sou Rita, capitã do segundo destacamento de tropas leves. –Ela bateu uma continência casualmente, o gesto estava basicamente integrado ao seu comportamento natural.
-Prazer em te conhecer, Rita. Eu não me lembro de ter te conhecido antes, você não é parte da tripulação? –Lux falou, espiando do lado de fora procurando por sinais da princesa.
-Nah, a tripulação são apenas de pôneis, aparentemente nós grifos deixamos vocês desconfortáveis. Nós somos seus guardiões, você não consegue construir algo tão grande assim sem chamar a atenção dos outros poderes. Quer um cigarro? –Ela ofereceu a Lux, o maço seguro em sua longa cauda.
Lux rejeitou prontamente, ela já havia tentado fumar antes, mas a mistura de ervas que eles colocavam nos cigarros normalmente parecia deixar sua magia mais fraca, Rita não insistiu, guardando rapidamente o maço de volta em seu bolso.
-A barra está limpa, vou tentar correr para o meu quarto. –Lux falou vendo que a princesa parecia ter desaparecido. –Obrigada de novo pelo salvamento.
-Sem problemas, guria, logo ela vai desistir da idéia. –Rita falou e deu uma longa tragada.
-Isso acontece muito? –Lux perguntou curiosa.
-O bastante para nós sabermos como lidar com isso, alguns dos soldados a chamam de princess of shipping.
Lux correu de volta ao seu quarto, rapidamente tirou suas roupas e se enfiou debaixo das cobertas feliz por não encontrar Numeric com um grande laço vermelho em sua cama, não que a imagem não lhe agradasse, mas ela não estava pronta para algo assim.
No dia seguinte o treinamento na sala continuou dessa vez, no entanto ela encontrou Numeric esperando por ela dentro da sala.
-Ela te mandou me“ajudar”? –Lux perguntou já imaginando o que mais a princesa faria para tentar juntar as duas.
-Não, eu preciso testar como você manipula a matriz arcana para adequar algumas constantes nas minhas equações. Eu tive uma longa conversa com ela ontem à noite e ela me prometeu que vai parar de tentar.
Lux confirmou com a cabeça e as duas começaram o trabalho, Lux dessa vez começando a conjurar luz arcana, o chão vibrava enquanto energia produzida nos andares inferiores era bombeada através das linhas arcanas e amplificava sua magia, criar a luz era mais simples e a luz produzida era mais poderosa do que ela jamais havia produzido sozinha, mas por várias vezes ela quase perdeu o controle da magia.
Na hora do almoço Lux estava feliz pelo descanso, vários pontos do seu pêlo estavam queimados, como ela havia descoberto a luz que ela estava produzindo também gerava considerável calor, na verdade cada vez mais ela se parecia com uma minúscula estrela do que apenas luz. Numeric havia passado praticamente todo o tempo tomando notas em uma pequena caderneta, algo que Lux nunca havia visto antes.
-Você está indo bem, mas precisa tomar mais cuidado, sua matriz ainda está instável.
-É difícil, eu nunca lidei com nada tão poderoso. Quanto tempo eu tenho para treinar?
-Não se preocupe com isso, nós não vamos lançar enquanto você não estiver pronta.
Depois do almoço Lux continuou seu treinamento sozinha, Numeric tinha que analisar os dados que ela havia conseguido e adaptar eles em suas equações. De noite Lux estava esgotada novamente, ela engoliu sua janta quase dormindo em cima do pote e depois se arrastando para seu quarto, mas no meio do caminho ela encontrou Rita.
-Hey, só um aviso, a princesa da noite deixou uma surpresa no seu quarto. –A grifo falou e Lux resmungou um agradecimento, cansada de mais para uma conversa racional.
Ela entrou em seu quarto, tirou suas roupas, Nox estava lá em cima da as cama esperando, mas ela não tinha tempo para pensar sobre isso, ela simplesmente se enfiou embaixo das cobertas e agarrou Nox como se fosse sua boneca de pano, haveria tempo para discussões e reclamações pela manhã.
Quando ela acordou foi com uma dor de cabeça infernal, Numeric havia falado alguma coisa sobre a possibilidade de microfraturas no chifre causadas pelo stress de lidar com tanta energia. Ela lentamente se levantou, usando seus próprios cascos para colocar suas roupas, todos os outros pôneis já haviam saltado da cama e rapidamente colocavam suas roupas, prontos para ir para suas estações de trabalho. Nox acordou mais lentamente, ela parecia bem disposta como sempre, sorrindo ternamente. Lux suspirou pesadamente.
-Você quer conversar? –Nox ofereceu.
-Na verdade não, mas acho que nós precisamos e depois eu preciso conversar com uma certa princesa sobre se manter afastada da minha vida pessoal. –Lux falou irritada, pensando que talvez conseguisse falar com a princesa durante sua hora de almoço, era comum ver ela almoçando junto dos soldados.
-Ela não fez por mal, ela viveu em uma época diferente. –Nox falou.
-Isso não dá direito a ela de se meter na minha vida dessa forma. –Lux retorquiu.
-Na época em que ela viveu pôneis eram diferentes, ela só quer te ajudar a ser feliz.
Lux suspirou. –E o que você está fazendo aqui?
-Ela veio me procurar ontem pela manhã, disse que tinha uma colocação especial para mim no sistema de reciclo atmosférico de uma missão secreta, eu aceitei na hora, você deve saber como é difícil dizer não para ela. Eu nunca imaginei que você estaria aqui, eu juro! Quando eu cheguei aqui ela me disse que havia um problema com o sistema de alojamentos e que eu teria de dividir a cama com outra funcionária por uma noite apenas.
Lux sentia sua dor de cabeça piorando, de onde a princesa havia retirado uma idéia tão absurda, isso parecia algo saído daquelas novelas românticas que estavam na moda.
-Tudo bem, Nox, eu não te culpo é só que eu ando com tanta coisa na minha cabeça que nem se eu quisesse teria como ter um relacionamento.
-Ela me contou tudo, eu não sabia que era você, mas ela me contou tudo sobre a missão. Você vai realmente fazer isso? –Nox perguntou, orelhas baixas, seu sorriso completamente desaparecido.
-Eu preciso, é o único jeito. –Lux falou simplesmente.
Nox a abraçou forte, envolvendo ela em suas asas.
-Eu vou sentir saudades. –A pegasus falou e Lux ficou aliviada dela não pedir para que ela desistisse.
Lux não queria quebrar o abraço, ela sempre se sentia tão confortável aninhada entre as asas de Nox, em momentos assim ela sentia vontade de beijar a pegasus e simplesmente a pedir em namoro, mas ela sabia que não podia, não deveria, mas mesmo assim era tão tentador simplesmente se deixar levar por essas emoções confortantes.
Uma sirene soou subitamente atraindo a atenção de todos, Lux e Nox olharam ao redor preocupadamente, tentando entender o que estava acontecendo, mas o ar parecia respirável ainda, havia calor circulando pelas paredes, todos os sinais de perigo que elas haviam aprendido a reconhecer pelos anos pareciam normais.
-Rápido, venh... –Rita apareceu na porta usando armadura completa e com um pesado rifle nas costas, ela chamou pelas duas, mas parou subitamente ao vê-las abraçadas de forma tão intima.
Lux e Nox se separaram rapidamente e terminaram de colocar suas roupas sob a vigia da grifo.
-Nós temos de correr. –Rita falou enquanto as guiava pelos corredores que agora se enchiam de grifos em armadura e carregando armas pesadas. –Tivemos perturbações nos sensores externos.
-Onde nós estamos indo? –Nox perguntou.
-Vocês estão indo para a Luciferious, ela é provavelmente o lugar mais seguro em toda essa instalação, eu vou ter certeza que vocês estejam seguras e depois retorno para o meu posto.
A grifo apressou as duas pôneis através do complexo e para a nave colossal, Nox que nunca havia visto a nave ainda hesitou um instante ao ver seu tamanho, mas Rita não tinha tempo a perder, cutucando ela para que continuasse a andar mais rápido. Ela levou as duas para dentro e através de diversas estranhamente construídas, para Lux e Nox as salas pareciam estar invertidas em 90º, como se quem havia feito a nave esperasse que elas vivessem nas paredes. Para a grifo e a pegasus manobrar era fácil, mas para a unicórnio era complicado prosseguir pelos corredores subindo rapidamente pelos andares. Uma nova sirene tocou, essa parecia ainda pior que a primeira, Rita parou lívida ao ouvir.
-A Horda está atacando. –Ela falou, e apertou firme seu rifle contra o corpo.
Os primeiros sons de explosões vieram rapidamente e logo depois os urros da Horda.
Changelings uma vez foram criaturas sutis, que trabalhavam nas sombras e sutilmente roubavam o amor de suas vítimas, mas com o decaimento da magia, eles acabaram mudando, evoluindo. Incapazes de beber as emoções de sua vítima ou de se disfarçar, eles começaram a perder força e muitos pensaram que toda a espécie estaria morta em uma geração, mas os changelings famintos acabaram perdendo sua capacidade de raciocínio, ao invés disso devorando a carne dos pôneis, mas mais do que isso eles pareciam infectar cada pônei mordido ou mesmo um pônei que passasse muito tempo perto deles começava a mudar. Eles não eram um inimigo normal, eles eram uma força da natureza que trazia destruição e morte para qualquer nação ou raça que eles tocavam, eles continuavam se multiplicando, aparentemente imunes ao frio, enquanto as raças mortais definhavam, eles cresciam devorando os restos da civilização. Se nada mudasse eles seriam provavelmente a última herança de Equus.
-Vai tudo ficar bem! –Rita falou nervosa, Nox e Lux não acreditavam nela.
As luzes começaram a piscar por toda a base, se apagaram completamente e então voltaram a ligar quando os geradores da Luciferious se ativaram, a nave sentindo o ataque começou o processo de isolamento.
-Droga... –Rita praguejou. –Vocês precisam ir até a cadeira de comando agora.
-O que aconteceu? –Nox perguntou.
-A nave está se isolando do resto do complexo, vocês precisam anular essa ordem ou os outros tripulantes não vão conseguir entrar! Eu vou para a entrada, ter certeza que só os pôneis entrem!
Lux e Nox concordaram e começaram a subir enquanto Rita checava sua munição e mergulhava pelo poço para a entrada principal. Nox subiu rapidamente com suas asas, ela sentia suas asas doendo, ela nunca havia voado por tanto tempo, em geral ela usava sua magia apenas para controlar a corrente de ar e purificar o ar, havia tão pouco espaço para voar nas cidades e muito menos razão. Lux se esforçava com as escadas, era difícil lidar com tantas escadas.
A sala principal de controle estava confortavelmente construída no centro da estrutura, protegida por pesadas paredes de aço ao seu redor, construída usando o ápice da tecnologia de informação de Equestria, no centro da sala estava o trono de comando uma relíquia encantada do passado, algo construído para se ligar ao seu usuário e fornecer a ele informações de qualquer lugar na nave.
Nox se sentou imediatamente na cadeira de comando e quase vomitou quando toda a informação era transmitida diretamente para sua mente através do trono de cristal, a marca da estrela no trono brilhando conforme energia arcana fluía através dele.
Ela via tudo, sentia tudo. A nave era como uma entidade viva como se fosse seu próprio corpo, ela subitamente se sentiu com medo de mexer qualquer parte do seu corpo, talvez um pequeno movimento de suas asas pudesse enviar toda a nave em uma reação em cadeia que ela não teria como controlar. Ela inspirou profundamente e se concentrou nos dados visuais, procurando até encontrar Rita em frente a uma pesada porta de aço, ela pensou em abrir a porta e a porta começou a se abrir.
Rita orava silenciosamente para o Senhor dos Ventos ao mesmo tempo se xingando por acreditar nas velhas tradições, o Senhor do Vento não existia mais, toda a cultura do seu povo estava reduzida a fragmentos e memórias mal-lembradas, tudo que sobrava atualmente era o fervor militar, uma busca incessante por glória em combate e uma quase devoção aos pôneis, seus salvadores.
As portas começaram a se abrir rapidamente e ela se colocou em posição, um joelho no chão e seu rifle seguro em suas duas patas, cobrindo a entrada. Os primeiros pôneis vieram correndo e eles contavam histórias assustadoras do que estava acontecendo com o resto da construção. Pouco depois vieram as primeiras criaturas da Horda, horríveis pôneis insetóides deformados, mas ainda reconhecíveis, sua pelagem colorida meio devorada pela carapaça de quitina, suas faces distorcidas pelos grandes dentes afiados que cresciam em suas bocas, alguns ainda tentavam falar, mas a maior parte simplesmente se resumia a grunhir e rugir.
A primeira lição ao lutar a Horda era nunca tentar imaginar o que eles haviam sido antes, se concentrar no que eles eram agora. Não importa se eles fossem meio grifos ainda usando seus uniformes de combate, não importa se ele se parece com seu pai e está tentando dizer que te ama, você não pode processar nada disso, você simplesmente dispara e continua disparando até eles todos morrerem. A pegadinha era que eles nunca morriam completamente, sempre havia mais deles para preencher o lugar dos mortos.
Rita respirou fundo, a maior parte deles eram pôneis e isso facilitava a coisa. Ela disparou de novo e de novo em rajadas curtas de três tiros, mais pôneis entravam, mas ela se perguntava quantos deles eram realmente necessários para pilotar a nave, qual era o número mínimo que ela precisava alcançar para que a missão tivesse sucesso?
Ela trocou o clipe de munição por um novo e continuou disparando, não havia fim para a Horda, mas havia para a munição dela. Onde estava o resto da sua tropa? Eles deviam estar recuando... Claro! O sistema de propulsão da nave, nenhum deles iria se aproximar da Luciferious e ela própria não tinha como se afastar o suficiente para sobreviver.
Ela trocou seu último pente, um pônei diferente corria para a entrada, caçado de perto por mais criaturas da Horda... Não um pônei, mas uma zebra! Ela se chutou mentalmente por não reconhecer ele de primeira, malditos pôneis tão similares um aos outros! Ele era essencial para o projeto, ela se chutou mentalmente de novo, dessa vez pulando sobre as criaturas, seu rifle disparando em automático, não havia tempo para mirar e de qualquer forma havia criaturas de mais para ela errar.
Ela agarrou o zebra pelo pescoço e o jogou para mais perto da entrada, usando seu rifle como um bastão, quebrando cabeças e dilacerando gargantas com suas garras, mordendo com seu bico para arrancar olhos, usando suas asas para empurrar seus inimigos para longe, mas ela sabia que aquele era o final.
Sonic boom! Pedaços de metal eram acelerados além da velocidade do som, obliterando praticamente tudo em seu caminho, Rita viu as criaturas sendo destroçadas pelos projéteis que choviam sem cessar, ela tentava imaginar que arma poderia ser aquela, nem mesmo os maiores canhões portáteis tinham esse poder de fogo! Foi então que ela viu surgindo do meio das criaturas uma figura azul marinho circundada por um anel de pedras comprimidas com tanta força até que se tornassem como diamantes, seu chifre brilhava intensamente e a todo instante milhares de fragmentos de pedras ultra-densas eram arremessadas a velocidades supersônicas! Naquele momento, Rita entendeu por que os pôneis acreditavam que Luna era uma deusa, mesmo depois de todos esses anos de magia decrépita ela ainda tinha força suficiente para exterminar as criaturas como se fossem nada.
-RECUE, MINHA LEAL SERVA!- Luna falou na voz real de Canterlot, ela se sentia viva como poucas vezes antes, ela sabia que não poderia se manter assim por muito tempo, suas reservas arcanas estavam se esgotando, provavelmente ela só tinha o suficiente para um último truque, mas seria um truque que ninguém iria esquecer tão cedo.
Rita se jogou dentro da estrutura e a porta se fechou atrás dela com força, toda a estrutura estava selada e então um suave brilho azul cobriu a estrutura e de forma impossível ela se ergueu do solo. Dentro da nave todos repetiam as mesmas palavras de incredulidade, aquele era o poder da princesa da noite, erguendo sozinha uma construção que provavelmente pesava mais do que uma cidade inteira.
Luna sorriu, ela ainda conseguia, mesmo depois de todos esses anos, mesmo depois de todas as dificuldades! O teto desabou e ela quase chorou ao ver as estrelas, tantos anos desde que ela havia as vistos pela última vez! Com toda sua força ela arremessou a nave para cima, para longe do centro gravitacional do planeta.
-Vão meus pequenos pôneis, salvem a todos nós! –Ela sussurrou, enquanto deixava seu corpo cair, sem mais energias para lutar contra a gravidade, contra o frio e a falta de ar. Apesar de tudo havia sido uma boa vida, mas agora era hora de descansar.
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Friendship dies and true love lies,
Lux sorriu por um momento quando seu corpo perdeu todo o peso, ela estava flutuando quase como se fosse uma pegasus, com certa dificuldade a principio ela manobrou para cima em direção ao centro de comando. Nox ainda estava sentada na cadeira, seus olhos brilhavam com toda a informação que fluía através de sua mente.
-Eu posso ver tudo. –A pegasus murmurou.
-Você está bem? –Lux perguntou.
-Eu me sinto... menos. –Nox falou lentamente. –É difícil, são muitas informações, muito poder, mas eu preciso lembrar quem eu sou, o que eu sou. Gravidade!
A nave inteira tremeu e gemeu conforme suas seções começaram a rotar em velocidade crescente, Lux se sentiu aos poucos cada vez mais atraída ao chão que antes havia sido as paredes, ela agora entendia a lógica envolvida na construção da nave.
-Nós temos convidados. –Nox murmurou.
A porta da sala de controle se abriu para uma Rita gravemente ferida, sangue escoria de dezenas de cortes grandes e pequenos, metade da sua armadura estava faltando, sangue escorria de seu focinho e sua asa direita estava muito machucada, em vários pontos era possível ver o branco dos ossos.
-Nós temos problemas. –Ela falou.
Alguns minutos mais tardes eles estavam todos reunidos na sala comunal, era incrível como espaço era complicado de se ter a bordo de uma nave tão grande, mas a maior parte de seu espaço era dedicado aos tanques de combustível, motores, jardim hidropônico, sistemas de reciclagem e a oficina que poderia reparar praticamente qualquer peça defeituosa, para a tripulação sobravam um pequeno quarto particular, uma cozinha e sala comunitária e pouco mais. Agora eles se reuniam na sala e cozinha comunitária, o único lugar que poderia abrigar os cerca de quarenta pôneis a bordo da nave.
-Muitos de vocês não deveriam estar aqui. –High Command falou, ela era a pônei de mais alta patente entre os sobreviventes. –A verdade é que nem mesmo eu deveria estar aqui, pessoas que havia treinado por anos para estar aqui não conseguiram chegar e a nossa realidade é que enquanto temos combustível e recursos para cumprir a missão, a verdade é que provavelmente não teremos recursos para retornar para Equestria.
Grunhidos descontentes vieram da tripulação improvisada.
-Se acalmem, nós estamos fazendo o possível para achar uma solução para esse problema. Nós estamos fazendo novas estimativas e possíveis mudanças de rotas, mas eu devo estressar aqui que a missão é mais importante, todos vocês sabiam dos riscos quando se alistaram para essa missão e entendem o que está em jogo aqui. –High continuou apesar dos sons de descontentamento vindos da tripulação.
-Vocês todos terão a oportunidade de enviar mensagens para seus familiares em qualquer uma das cidades. –Numeric falou de seu lugar ao lado de High Command. – No próximo dia vocês também receberão suas tarefas designadas, nós ainda temos muito a descobrir e muitos dados a analisar, mas iremos fazer o melhor que pudermos diante da situação.
Pela tarde as filas se formaram ao redor da pequena sala de comunicação, uma das pôneis, chamada Graveyard Slot, se mostrou capaz de operar e sintonizar o rádio corretamente e logo conseguiu entrar em contato com as cidades.
Lux aproveitou o tempo para conhecer o jardim hidropônico, não havia ninguém em Equus com quem ela desejasse conversar.O jardim era lindo, algo que parecia saído de um conto de fadas, ele era tão verde e as plantas eram tão grandes, não a proteína unicelular em geral produzida nas cidades, mas plantas verdadeiras, o tipo que só se conseguiria no mercado negro. Ela olhou maravilhada para as cenouras e as batatas, foi entre elas que ela encontrou Zura.
-Não vai conversar com a sua família? – O zebra perguntou, ele estava cuidando de uma pequena planta solitária.
-Meus pais morreram há muito tempo e a única pônei que se importa comigo está nessa nave. –Lux explicou.
-A pegasus que Luna colocou em seus aposentos? –Ele perguntou enquanto regava a planta.
-Todo mundo ficou sabendo dessa história? –Lux perguntou envergonhada.
-Luna nunca foi uma princesa sutil. –Ele respondeu com um sorriso. –Qualquer dia eu te conto as histórias de quando ela tentou me arranjar um garanhão ou uma égua.
-E você, não vai conversar com ninguém? –Lux perguntou.
-Minha única família e amigos são zebras, eles nunca iriam aceitar conversar comigo depois de eu ter traído nossa nação dessa forma. Desde que eu vim às cidades pôneis eu tenho gasto a maior parte do meu tempo trabalhando nos motores da Luciferious e depois no escudo primário da Luciferious II.
-Por que você abandonou sua família? Você parece sentir saudades deles.
-É claro que eu sinto, mas eu estou fazendo isso por eles. Tudo começou com plantas como essa, sabia? –Ele apontou para o pequeno vegetal que ele tanto cuidava.
-Como assim?
-No princípio zebras sofriam para tolher o solo e os pôneis conseguiam fazer isso facilmente graças a sua magia inata, mas as zebras aprenderam segredos do solo e das plantas que pôneis nunca nem mesmo iriam imaginar. Nós aprendemos como fazê-las crescer, como fazê-las desabrochar e como produzir frutos mais suculentos, mas fomos, além disso, descobrimos segredos das doenças que nos afligiam e como combater, por fim nós desvendamos os segredos da própria matéria e da magia. Pouco antes da catástrofe nós começamos a experimentar com usinas que transformavam matéria em energia, depois da catástrofe nossa nação toda começou a ser energizada por esse método, algo que nós chamamos de energia nuclear.
-Nuclear? –Lux perguntou, ela nunca havia ouvido essa palavra antes.
-Sim, outra hora eu posso tentar te explicar, mas em resumo essas usinas usam minérios especiais para conseguir gerar quantidades extraordinárias de energia, muito mais que suas usinas a carvão ou diesel. Durante anos depois da catástrofe nós desvendamos os mistérios das estrelas e criamos uma nave teórica que poderia viajar entre elas, foi então que Luna veio a nós, ela precisava da nossa nave, da nossa tecnologia para salvar o nosso mundo.
-E o que aconteceu?
-Nossos líderes concordaram, nós entregamos nossa maior nave em construção, aquela que viria a ser a primeira Luciferious. Infelizmente a missão foi um fracasso, ninguém sabe o que aconteceu com ela, mas os líderes entre as zebras culparam Luna e os pôneis pela falha, quando eles anunciaram que iriam parar completamente com a cooperação eu fugi para as cidades pôneis.
-Você não se arrepende disso? –Lux pensava se ela teria tido coragem de dar as costas às cidades da mesma forma que o zebra havia feito com sua nação.
-Todo dia, mas eu fiz o que era necessário. –Ele olhou para sua planta solitária, Lux olhou para a planta, ela era diferente das outras, tinha pétalas brancas e parecia não produzir nenhum tipo de alimento. – Quer ver uma coisa incrível? –Ele perguntou com um sorriso.
Lux concordou com a cabeça e o zebra a levou através dos corredores e estranhos caminhos da nave, indo em direção ao escudo primário, eles entraram através de uma pequena porta discreta e o zebra mexeu em um painel ao lado da porta.
Eles entraram em uma pequena sala com cadeiras e uma grande janela que cobria toda uma parede, através dela Lux conseguia ver as estrelas e um estranho ponto escuro na noite.
-O que é isso? –Ela perguntou olhando através da janela para o ponto negro, ele parecia chamar por ela.
-Isso é o sol, pelo menos o que resta dele, pelo que nós conseguimos estimar ele ainda está emitindo cerca de 5% de luminosidade, quanto mais nos aproximarmos, mais brilhante ele irá parecer.
Lux andou até a janela e estendeu seu casco, como se querendo tocar a estrela, sentindo apenas o vidro frio sob seus cascos.
-Hmm, eu acho que estão me chamando no jardim! –Zura falou subitamente e saiu correndo.
Lux precisou de alguns instantes para perceber que não apenas o zebra havia saído, mas uma certa pegasus estava na porta.
-Lux... Eu estava te procurando. –Nox falou, ela falou, mas sua visão foi cativada pelas estrelas que brilhavam através da janela.
Silenciosamente as duas ficaram por alguns minutos observando as estrelas e o sol decaído, apreciando a beleza celestial que nunca poderiam ter apreciado nas cidades, ela olharam uma para outra por um momento vendo refletidas em seus olhos a luz celestial, elas sorriram. Alguém limpou a garganta sonoramente para anunciar sua presença, as duas olharam para trás e viram Numeric parada na porta, com uma prancheta segura em seus cascos.
-Certo! Eu precisava falar com você! –Nox falou, quebrando o momento.
-Eu estou fazendo a distribuição de quartos e precisava saber se vocês não se importam de ficarem juntas. –Numeric falou.
-Claro. –Lux falou.
-Não. –Nox falou decidida.
Numeric olhou de uma a outra, Lux olhava um tanto espantada para Nox e a pegasus tinha uma mistura de raiva e tristeza em seu semblante.
-Eu vou deixar vocês duas conversarem e depois volto para resolver isso! –Numeric falou rapidamente e saiu de lá antes que ela fosse envolvida em uma discussão sobre a qual sabia praticamente nada.
-Nox... –Lux começou.
-Não, Lux. –Nox a interrompeu bruscamente. –Não, eu não vou agüentar dividir a cama com você por oito anos se for para sermos apenas amigas com benefícios, se você não quer um relacionamento tudo bem, mas eu quero! Eu nunca te pressionei a nada, sempre te respeitei e fiquei quieta quando você começou a namorar aquele traste do Ruby, então me respeita agora.
Lux rilhou seus dentes enquanto Nox falava. Ela abriu sua boca para responder, mas fechou logo em seguida, não havia o que ela poderia dizer, todos esses anos ela havia tentado preservar Nox, ela tinha certeza que do momento em que ela começasse a namorar, a pegasus iria reparar o engano terrível que ela tinha feito, que a unicórnia não valia tanto esforço... Não, era melhor assim.
-Tudo bem, Nox. –Lux falou forçando um sorriso.
A pegasus encarou Lux por um momento, apenas alguns instantes em que a unicornio acreditou que iria desabar, seu coração parecia ter perdido uma batida, quando a pegasus se retirou, Lux se sentou no chão com as costas contra a parede e deixou suas lagrimas fluírem, ela havia nutrido sentimentos por Nox desde o dia que se conheceram, no começo apenas como amigas, mas a cada namorado ou namorada com que ela terminava apenas lhe mostrava o quanto Nox era especial, a pegasus sempre alegre, sempre carinhosa. As vezes ela fantasiava em como seria namorar com Nox, mas não ela não tinha esse direito, ela só machucaria a outra fêmea, ela tinha certeza disso, se qualquer coisa seu relacionamento com Ruby havia provado que ela não tinha a capacidade de manter um namoro sério... Não, apenas em seus momentos de fraqueza, em geral quando estava embriagada, ela se rendia a pegasus, sempre se sentindo mal, por tantas vezes ela tentou se distanciar de Nox, mas a pegasus tornava isso tão difícil, sempre com seu jeito carinhoso e seus sorrisos, seus abraços quentes que a faziam esquecer o frio do mundo.
Não, ela já havia feito de mais pela pegasus, era melhor que ela mantivesse sua distância.
Numeric apareceu na porta, um tempo indefinido depois.
-Você está bem? –Ela perguntou a Lux.
-Foi melhor assim. –Lux falou timidamente entre suas lágrimas. –Eu só ia acabar machucando ela.
Numeric a socou com seu casco, Lux caiu no chão olhando incrédula para a pônei terrestre.
-O... O q –Lux começou, sua voz tremulante.
-Você está sendo idiota! Sério, você vai ficar ai dizendo que está poupando ela, mas a verdade é que você está com medo! Será que você não vê o quanto está machucando ela desse jeito?
-Você não entende, Numeric! –Lux protestou.
-Você realmente acha que eu não entendo? Que eu nunca morri de amores por alguém que eu nunca poderia ter? A diferença é que pelo menos ela retribui seus sentimentos, a única coisa impedindo vocês de serem felizes é sua insegurança! E a propósito você vai dividir o quarto comigo.
Numeric se virou nervosa para sair, mas antes que ela chegasse à porta Lux falou.
-Quem era?-Ela se levantou, ainda tremula. –A pônei que você amava?
Numeric suspirou pesadamente, lágrimas escorrendo dos cantos dos seus olhos.
-Luna. - Ela falou em um quase sussurro.
Numeric saiu andando cabisbaixa, Lux esperou mais um tempo na sala de observação.
Rita entrou desesperada, ela não usava mais sua armadura, mas tinha sua pistola segura entre suas garras, ela tinha várias bandagens cobrindo seu corpo e especialmente suas asas.
-Nós temos uma emergência! Tem um changeling a bordo! –Ela falou desesperada.
-Como você sabe? –Lux perguntou assustada.
-Eu consigo ouvir ele, ele está dentro da minha mente! –Ela falou, seus olhos estavam extremamente dilatados.
-Rita, por favor, você precisa descansar! Devem ser os medicamentos. –Lux olhou para arma, pensando se ela conseguiria arrancar ela da pata de Rita antes que ela disparasse.
-Não, você não entende. Eu já tomei analgésico o suficiente para saber como são os efeitos, isso é diferente, ele está entrando na minha mente, me devorando por dentro, mas antes disso eu vou achar ele e matá-lo! Eu preciso da sua ajuda, agora! –Ela falou freneticamente.
Antes que pudesse entender o que estava acontecendo as duas estavam correndo em direção aos motores, Lux pensando que se pelo menos Rita perdesse a razão completamente, ela estaria por perto para impedir ela de machucar algum pônei inocente. Volta e meia Rita simplesmente parava e ficava olhando ao redor, como que farejando o ar por rastros da criatura.
-Rita, você conhecia a princesa por muito tempo? –Lux perguntou, tentando quebrar a tensão da situação.
-Sim, forças especiais missões por toda parte respondendo diretamente a princesa. –Ela falou rapidamente e sem pausas, havia algo de sério com ela, aquela não era mais a Rita calma e focada de antes, ela estava correndo contra o tempo, algo a estava consumindo, olhando através de uma esquina enquanto elas entravam na sala de máquina, os gigantescos motores retumbando violentamente.
-Como ela era? –Lux perguntou.
-Agradável solitária impiedosa. Lado ruim e lado bom, maior parte do tempo lado bom. –Rita respondeu quase antes de Lux terminar a pergunta. –Sente falta da irmã.
Lux abriu a boca para responder algo, quando um outro pônei apareceu.
-Ei senhoras, vocês precisam sair daqui. Sem pessoal não autorizado nessa área. –O pônei engenheiro falou.
-Ali! – Rita gritou e apontou para trás do engenheiro, ele tentou se virar para ver o que era, mas era tarde de mais, o changeling mutante aterrissou sobre ele com garras e dentes, arrancando um belo naco da carne do pescoço do pônei e comendo com muito gosto.
Rita atirou duas vezes com a pistola antes mesmo que sua mente consciente pudesse entender o que estava acontecendo, a criatura cambaleou, mas rugiu e pulou sobre a grifo. Lux fez seu chifre brilhar com toda sua força, disparando um raio ardente contra a criatura, apenas uma variação de sua magia habitual de luz, algo que ela havia pensado durante suas seções na sala de mega-feitiço.
O changeling guinchou horrivelmente enquanto sua carne queimava, Rita não perdeu pulando em cima dele com suas garras, dilacerando sua armadura de quitina e a carne aberrante por baixo, a criatura revidou, suas garras afiadas retalhando cegamente contra Rita. A grifo em um impulso primitivo usou seu bico contra o olho multifacetado da criatura, pus explodiu da órbita.
Rita se levantou com um urro vitorioso, a cabeça da aberração em suas patas, ela arfava e sangrava, quase todas as suas feridas haviam se reaberto e agora ela tinha ainda mais, sua asa esquerda pendia presa apenas por músculo.
-Rita, nós precisamos ir para a médica, rápido! –Lux falou apressadamente.
-Não... Não, ainda tem mais um e foi para isso que eu te trouxe. –Rita jogou a cabeça junto dos restos da criatura e puxou sua pistola, se certificando de que ainda tinha munição.
-Vamos trazer outros aqui para te ajudar. –Lux falou.
-Não, eu consigo cuidar da última criatura sozinha... Lux, por favor, se lembre disso. –Ela ergue a pistola contra sua cabeça e puxa o gatilho.
Lux quase caiu ao ver a grifo morrer tão... estupidamente. Não, ela não podia estar morta! Lux correu para a grifo, tentando acordar ela entre suas lágrimas.
-Por favor, acorda! Acorda! A gente precisa de você! –Lux gritou enquanto a chacoalhava futilmente.
Eles a encontraram algumas horas depois, chorando em meio a carnificina, Numeric e uma unicórnio chamada Copper Pattern levaram Lux para se lavar enquanto outros cuidavam dos restos mortais, uma das pegasus, Mirk Whispers, recitou uma prece pela alma de Rita, do engenheiro que havia se chamado Golden Spanner e de quem quer que a criatura tivesse sido um dia, para que ambos encontrassem seu descanso eterno ao lado de Celestia. Os restos mortais dos três foram alimentados ao motor, vaporizados em um instante nas chamas, seus corpos reduzidos a poeira galáctica que quem sabe um dia não poderia vir a se tornar uma nova estrela.
Naquela noite Mirk Whispers veio conversar com Lux, a unicórnia ainda estava abalada da experiência e Numeric precisava correr para seu posto de trabalho.
-Ela me pediu para nunca esquecer. –Lux murmurou.
-Ela não vai ser esquecida, quando puder eu mesma vou transmitir sobre a bravura dela defendendo a nave até o final para as cidades. –Mirk a assegurou.
-Não... Não é isso, ela sabia o que eu ia ter que fazer no final da missão, vocês ainda tem uma chance de voltar, mas eu nunca vou ver o sol brilhando em toda sua glória. Eu vou ter que puxar o gatilho da mesma forma, eu vou ter que morrer da mesma forma.
Mirk a abraçou forte, ela queria dizer alguma coisa, confortar ela de alguma forma, mas aquilo de certa forma era verdade, todo o ponto da missão era aquilo, ela e todos os outros só estavam ali para assegurar que ela chegasse segura ao seu destino.
Lux chorou no ombro dela subitamente todo o peso da missão vinha caindo sobre seus ombros, ela não queria morrer, ela queria ter uma vida longa e ter muitos filhotes ainda. Mirk a consolou silenciosamente, completamente perdida por palavras ela se se resumiu a confortar com seu calor. Lux chorou silenciosamente, sua mente rodando em circulos sobre seu dever para com todo mundo, seu medo da morte e a morte de Rita, tão estúpida, mas ao mesmo tão inevitável.
No dia seguinte Zura a acordou cedo, insistindo que ela o acompanhasse para alguns testes no escudo primário, eles andaram rapidamente toda a extensão da nave, Lux se cansando rapidamente, apesar da noite de sono ela não havia realmente descansado, seus sonhos haviam sido agitados e tensos, cheios com cenas de morte e sangue.
Por dentro do escudo primário tudo parecia apenas uma gigantesca sala que se estendia além do que seus olhos podiam perceber, apenas uns pequenos corredores estavam realmente pressurizados, apenas quando ela olhou mais de perto para o chão de metal cinza ela percebeu as intricadas linhas arcanas correndo por toda a superfície.
Ela tentou calcular o tamanho daquilo, mas toda vez ela acabava em números que não faziam sentido, se aquilo tudo era uma sala de mega-feitiço ela era provavelmente maior que toda a cidade! Ela começou a hiper-ventilar pensando em como ela poderia controlar tudo aquilo se ela mal conseguia utilizar a sala de treinamento! Subitamente as palavras de Luna voltaram a sua mente, aquelas salas funcionavam em uma escala logarítimica! Ela parou subitamente, a idéia do poder contido dentro dessas paredes a assustava, não era possível, não podia ser real!
-Você está bem? –Zura perguntou, colocando um casco sobre seu ombro.
-Eu não vou conseguir! –Lux gritou. –Eu não vou conseguir! Desculpa, mas eu não vou está bem! Isso é grande de mais para mim! Nenhum pônei vivo conseguiria controlar isso tudo!
-Respira fundo, eu sei que isso pode assustar a princípio, você vai se acostumar.
-Qual é o tamanho dela? –Lux perguntou respirando fundo.
-A sala de mega feitiços tem uma área de 60 quilômetros quadrados. Ela é energizada por 6000 detonações nucleares simultâneas, cada detonação liberando aproximadamente 5x1017 joules de energia que serão convertidos com 75% de eficiência em pura energia arcana.
-Não... Isso é muito grande, tem de ter outro jeito! A gente tem que voltar, não tem como isso dar certo! –Lux falou desesperada.
-É impossível voltar, a nave não foi feita para reentrar na atmosfera e não existe nenhum outro veículo no planeta capaz de atingir vôo espacial. Esse é o único plano que nos resta desde que nós perdemos a primeira nave.
-A primeira nave?
-Sim, a Luciferious I tinha um escudo primário menor, ele usava bem menos energia, mas nós tínhamos um catalisador melhor.
-Como assim? –Lux perguntou curiosa, sua respiração se regularizando.
-Na Luciferious I nós usamos os elementos da harmonia como catalisadores secundários, elas diminuíam incrivelmente a necessidade de energia.
-Mas elas não estão mortas?
-Ah claro, mas aparentemente a interação com a energia dos elementos modificou suas portadoras permanentemente, mesmo seus esqueletos eram incríveis catalisadores arcanos, nós tentamos recuperar o esqueleto da princesa Celestia também, mas foi impossível, Canterlot desabou e estava mergulhada em um mar de nitrogênio líquido.
Lux olhou para ele por um instante, como que desafiando ele a dizer que aquilo era tudo uma piada de mau gosto, a idéia de que alguém poderia tão facilmente profanar os corpos das seis portadoras dos elementos dessa forma era impensável e ainda mais mencionar casualmente os restos mortais da princesa! Não, aquilo tudo deveria ser uma piada...
O zebra a levou até o perfeito centro da estrutura onde havia uma pequena alcova construída com duas cápsulas. Lux examinou o lugar minuciosamente, examinando as cápsulas, uma delas era feita para unicórnios, com estranha maquinaria que ela deveria acoplar ao seu chifre provavelmente, de certa forma aquilo lembrava a ela os aparatos usados no setor arcano, mas ao mesmo tempo eram diferentes. A segunda cápsula era ligada a diversos computadores enormes e o capacete parecia cobrir a visão do pônei que o usasse.
Ela engoliu a seco pensando que aquele seria seu caixão, mas também que ela não estaria sozinha, a visão da segunda cápsula a fez se lembrar que outra pônei estava destinada ao mesmo fim que ela.
-Como vai acontecer? –Ela perguntou tentativa, talvez sabendo como acontecesse a daria mais confiança.
-Nossas melhores predições calculam que do momento que nós nos separássemos do escudo primário vocês vão começar uma queda em direção ao centro da estrela, atravessar a nuvem de magia negra que o envolve e em treze minutos e dezessete segundos vocês estarão no ponto ótimo para detonação. O problema é que ninguém sabe como o sol está por baixo da cobertura de magia negra, eu vou precisar ajustar os meus cálculos quando estivermos mais próximos.
-Vai doer? –Lux se deitou na cápsula que estava destinada a ela, tentando se acostumar à sensação.
Zura engoliu a seco. –Não, vai ser instantâneo. Nós vamos saber se a missão deu certo praticamente ao mesmo tempo e oito minutos depois a população de Equestria. –Ele respondeu incerto, tudo era mais fácil quando ele se limitava as suas equações e teorias.
Lux respirou fundo, aquela era uma cripta adequada, silenciosa e de certa forma bela, se ela tivesse que morrer certamente seria um bom lugar. Sua mente se enchia de pensamente sobre seu fim certo, será que ela deveria escrever um testamento? Besteira, quem iria querer seu casaco velho e sua meia dúzia de itens pessoais. Talvez escrever algo grandioso para ser transmitido de volta as cidades depois que ela morresse? Ela afundava cada vez mais, pensando nas preparações que faria para seu próprio enterro, mas como que sentindo sua depressão uma voz irrompeu através do sistema de rádio.
-Bom dia, Luciferious! –Nox declarou com toda sua energia habitual. –Eu venho até vocês através das graças de nosso capitão Vapor Trail! Ele me deu permissão para usar o sistema de rádio interno para transmitir notícias e músicas! Então para começar desfrutem de “Let the Sunshine in”.
Música encheu o ambiente e Lux teve de rir para si mesma, mesmo agora aquela pegasus ainda a fazia sorrir. Ela se levantou da cápsula, ainda faltavam muito tempo até sua morte, ela precisava se recompor e lidar com isso. Ela respirou fundo e começou a andar de volta para o corpo principal da nave.
Nox sorria em sua pequena sala, o lugar havia sido rapidamente convertido em uma estação de rádio interno com a ajuda de Copper Pattern e agora ela a unicórnio reviravam os velhos discos que haviam sido estocados a bordo da nave, eles haviam preparado uma boa seleção para a tripulação, originalmente era esperado que eles devessem ser ouvidos apenas na sala comum, mas com um pouco de trabalho as duas conseguiam transmitir para praticamente toda a nave, até mesmo conseguindo escolher para que áreas específicas elas estavam transmitindo, permitindo assim que pudessem respeitar os turnos de descanso dos pôneis. Enquanto as músicas tocavam, Nox examinava a lista de notícias que ela tinha para transmitir, poucas delas eram boas notícias e ela tentava imaginar como falar sobre elas de maneira mais positiva possível.
Três batidas na porta a arrancaram de sua lista, ela pulou animada para ver quem poderia ser, será que ela já tinha alguma fã louca querendo seu autógrafo? Ela riu de si mesma e abriu a porta apenas para ser surpreendida por um beijo longo e apaixonada em sua boca.
Ela arregalou seus olhos surpresa, olhando para Lux, ela nunca a havia beijado dessa forma, mesmo em seus momentos mais bêbados, ela sempre havia evitado qualquer coisa do tipo.
-Nox eu te amo! – Lux falou rapidamente antes que perdesse a coragem.
-O que? –A pegasus perguntou espantada.
-Eu te amo! – Lux falou de novo, mais certa dessa vez.
-Copper, você pode cuidar da rádio um momentinho?- A pegasus falou para a unicórnio que confirmou com a cabeça.
As duas fizeram seu caminho até a sala de observação onde poderiam ficar sozinhas.
-O que aconteceu, Lux, por que você mudou de idéia? –Nox perguntou.
-Eu vou morrer, Nox, no final dessa jornada eu vou morrer e nada pode mudar isso. Todos esses anos eu pensava que não era boa o bastante para você, que ia acabar te machucando, mas se isso for ser minha última chance de ser feliz, eu quero que ela seja com você, eu quero tentar ser a melhor égua que eu puder para você!
Naquele momento começou a tocar “Mares Just want to have fun” e Nox sorriu e beijou Lux apaixonadamente.
-Sua boba, você já é a melhor égua para mim!. –Nox falou quando seus lábios se separaram.
Elas se beijaram por um longo tempo e depois ficaram olhando as estrelas, despreocupadamente até que Nox teve que se levantar.
-Eu preciso ir cuidar do rádio! A Copper não tem as notícias. –Ela explicou ao se levantar.
-Eu vou falar com a Numeric sobre os nossos quartos, te encontro durante o almoço?
Nox concordou e beijou uma última vez antes de se virar para ir embora.
-Nox! O seu flanco! –Lux falou surpresa ao notar a imagem de uma nota musical branca que havia aprecido no flanco da pegasus.
A pegasus olhou admirada para seu próprio flanco, admirando sua marca.
-Nós temos de comemorar isso hoje a noite! Me encontra no meu quarto mais tarde? –Nox perguntou.
-Claro, eu vou tentar arranjar algo especial para nós! –Lux confirmou.
Lux caminhou até a sala comunal onde Numeric e outras duas pôneis estavam enfurnadas entre placas de bronze e folhas de papel, perdidas em suas equações e calculos.
-Numeric, eu precisava te pedir um favor. –Lux falou tentando chamar a atenção da pônei terrestre.
-Você e a Nox querem dividir um quarto? Já arranjei isso umas duas horas atrás. –Ela respondeu sem parar de analisar atentamente uma folha de bronze.
Lux levantou uma sombrancelha um tanto incrédula e Numeric abaixou a sua folha de bronze.
-Era lógico o que iria acontecer, então eu já adiantei a burocracia, pode se mudar para lá a qualquer momento, depois se você puder vir me ajudar eu agradeço, precisamos reorganizar nossos suprimentos e detalhar um plano para conservar comida.
Lux correu até o quarto que ela estava dividindo com Numeric e pegou suas possessões que na verdade se resumiam ao seu segundo casaco e colocou ele no quarto de Nox, depois foi se juntar a equipe de Numeric, repassando os dados de produção de alimentos, música suave tocando através do sistema de rádio.
-Meus queridos! –Nox interrompeu a música com sua voz suave.- Vocês não vão acreditar na coisa mais incrível que aconteceu comigo hoje, sua dj é a mais nova portadora de uma real cutie mark! Eu sei! Incrivel, não acham? Mas vamos para as notícias agora!
Ela limpou sua garganta e se ouviu o barulho dela mexendo com folhas de bronze.
-Primeiro nós recebemos os parabéns e boa sorte com a nossa missão diretamente do Conselho Municipal! Todas as cidades estão torcendo por nós! Pelo que soubemos também três encouraçados se moveram rapidamente para conter as forças da Horda e apesar da nossa cidade ter sofrido danos consideráveis durante a batalha ela ainda está completamente funcional! As zebras já ficaram sabendo do lançamento da nave e mandaram uma mensagem para o criminoso Zuralameni, eles disseram que caso ele retorne vivo terá perdão completo pelos seus crimes! Isso sim são boas notícias, parabéns Zura, nós sempre soubemos que você estava fazendo a coisa certa!
Lux balançou a cabeça, era tão facil se deixar perder na voz dela, ela tinha realmente um talento para ser locutora, mas depois ela pensaria nisso, agora ela já conseguia ver um olhar de canto de olho de Numeric que dizia a ela para se concentrar.
Numeric suspirou pesadamente, os números não mentiam, qualquer tipo de racionamento que eles fizessem que fosse tornar a viagem de volta possível também iria deixar os pôneis sem energia suficiente para realizar suas funções adequadamente. Errado, tinha de haver um jeito. Qualquer equação poderia ser alterada, modificada, ela sempre havia conseguido espremer os números que ela precisava, eles nunca mentiam, mas ela sabia como faze-los dizer o que ela queria, mas agora não importavam o quanto ela tentasse, sempre vinha o mesmo resultado: Falha.
Ela respirou fundo e voltou aos calculos, talvez se ela ajustasse as rações dos cargos não vitais, será que teria como colocar alguns pôneis em coma induzido? Não, isso não funcionaria e ainda precisariam de pôneis para cuidar deles, muitas complicações. Talvez…
Ela passou as horas seguintes perdida em seus pensamentos procurando saídas, novas formas de ampliar a produção de alimentos, os sistemas de reciclo eram eficientes, mas não perfeitos, com o tempo eles simplesmente ficariam sem matéria orgânica suficiente para manter a população. As pôneis sob seu comando foram almoçar e voltaram e ela mal se mexeu, calculando mentalmente o consumo de matéria orgânica por indivíduo com uma dieta parcial e oferecendo refeições completas antes de tarefas complexas. Não, não funcionaria, o corpo não se recuperaria a tempo...
Era tarde já e Numeric ainda trabalhava, talvez se ela conseguisse derivar matéria orgânica de alguma outra parte, existiam meteoritos e outros corpos celestes do lado de fora, mas será que eles poderiam ser macerados e usados como solo? Ela tinha certeza que as oficinas teriam como fazer isso, mas e quanto a capturar esses corpos? Será que eles teriam como usar alguma das couraças encantadas? Talvez, elas haviam sido criadas para isso, mas nunca haviam sido realmente testadas de verdade.
-Éguas e garanhões. –A voz de Nox interrompeu a música suave que vinha tocando a algum tempo, Numeric torceu seus lábios, ela estava gostando da música, mesmo que não estivesse realemtne prestando a tenção. –Nós acabamos de receber notícias urgentes do Conselho, os encouraçados conseguiram repelir completamente as forças da Horda! Infelizmente... –Ela hesitou. –A princesa da noite não resistiu, ela foi encontrada gravemente ferida e faleceu a apenas algumas horas atrás. O Conselho delcarou um período oficial de luto de uma semana.
O rádio ficou em silêncio, Numeric olhava para ele fixamente esperando que ele voltasse a vida, que aquilo tivesse sido uma piada de mal gosto, não podia ser assim!
-Vamos! Diz que é mentira! Diz que ela sobreviveu! –Ela gritou para o rádio e arremessou a placa de bronze que ela segurava o mais forte que conseguia contra ele.
Ela saiu correndo para a sala de observação, mas de lá ela não conseguia enxergar a lua, apenas o sol moribundo e as estrelas, não, aquilo não era o que ela queria. Ela correu até o jardim e depois até as oficinas, mas não conseguia ver a lua de nenhuma forma, as janelas mostravam apenas o espaço vazio e as estrelas. Não, ela precisava dizer adeus.
Ela correu até uma das airlocks, trancando a porta atrás dela. A couraça encantada estava, enorme e pesada, os fracos encantamentos que os unicórnios conseguiam produzir atualmente precisavam de várias camadas para produzir um efeito protetor suficiente, ela provavelmente mal conseguiria se mexer com essa armadura em gravidade normal.
Ela arrancou sua roupa e colocou a armadura rapidamente, checando os fechos, conectando a mangueira de ar e então abrindo a comporta para o espaço, ela foi arrancada de dentro da nave quando o ar foi sugado para fora da nave.
-Quem está ai? –O pequeno rádio da armadura falou com uma voz rispida que ela reconheceu como comandante Vapor Trail. –Você não tem autorização para atividade extra-veicular, volte imediatamente!
Ela não tinha tempo para isso, desligou o rádio, depois se preocuparia com isso, agora ela rodava com dificuldade, a armadura era equipada com talismãs de levitação para ajudar pôneis terrestres e unicórnios que viessem a usá-la a navegar no vácuo, com dificuldade ela se moveu até conseguir ver a lua através da fresta minúscula do elmo, lágrimas correndo dos seus olhos tornavam ainda mais difícil ver o ponto quase invisível que era a lua, no passado ela havia brilhado com o reflexo da luz do sol, mas agora ela era mais uma pedra praticamente invisível no espaço, não muito diferente de Equus para falar a verdade. Ela achou o ponto, pelo menos o que ela acreditava ser o ponto, não havia como ter certeza, mas ela queria que fosse.
-Você não pode estar morta! –Ela estendeu seu casco tentando tocar a lua. –Você prometeu que iria me proteger quando a gente se conheceu, eu preciso de você, Luna!
Ela gritou e gritou em sua armadura, dois pegasus de couraça a puxaram pelos braços de volta para dentro, e ela se sentia cansada de mais para lutar, mas ela continuou olhando para a lua, lágrimas silenciosas correndo de seus olhos.
Eles gritaram com ela, alguma coisa sobre riscos desnecessários e violação de regras, mas ela não se importava, eles a colocaram trancada em seu quarto e ela ficou feliz de estar sozinha. Ela se deitou em sua cama e ficou olhando o teto, ela sabia que todos estavam de lutos pela morte de uma princesa, mas ela era provavelmente uma das poucas pôneis que havia conhecido a verdadeira Luna, não a fabulosa princesa da noite, mas a égua sonhadora e que retinha a esperança, que tomava tempo ainda para tentar confortar seus súditos, que conseguiria destruir nações inteiras com seu poder, mas se esforçava para alcançar soluções pacíficas, a maravilhosa égua que ainda sentia falta da irmã, não por que ela era uma princesa, mas por que ela havia sido sua irmã. A égua que parecia imortal, que havia surgido vitoriosa das piores batalhas, que havia sobrevivido aos piores ferimentos.
Como ela poderia não se apaixonar por ela? Todos viam apenas a perfeita princesa da noite, que segurava as cidades em suas costas, mas Numeric havia conhecido a verdadeira égua, com todo seu carinho, sua paixão, seus sonhos. Ela que era uma figura maior que a própria vida, que havia sobrevivido por milhares de anos, que havia prometido a Numeric que haveria de mantê-la segura.
No dia seguinte Nox e Lux passaram para ver como ela estava, pelo olhar da pegasus, a unicórnio havia partilhado do segredo de Numeric, não que isso importasse mais, provavelmente todo mundo a bordo já sabia da estúpida paixão que ela havia sentido por uma deusa. As duas tentaram conversar, animá-la, mas Numeric simplesmente não estava com vontade suficiente para essas coisas. Mais tarde Lux veio lhe trazer o almoço, apesar do prato ser o mais verde e suculento que ela jamais havia visto ela só conseguiu comer algumas bocadas da salada, seu estômago ainda estava se revirando.
Mais de tarde Lux voltou, Nox estaria ocupada na rádio até de noite e afinal ela ainda era tecnicamente uma das assistentes de Numeric, a unicórnio tentou conversar a princípio, mas vendo que a pônei terrestre não estava interessada em conversar ela se limitou a limpar e ajeitar o quarto.
Sua colega de quarto, uma pegasus chamada Lumina Nimbus apareceu mais tarde, ela tentou sorrir e ser gentil. Naquela noite Numeric a abraçou e chorou em suas asas até adormecer, se Lumina percebeu alguma coisa ela não falou nada. Na manhã seguinte ela acordou com o despertador, cansada de mais para seguir adiante, mas ela precisava, era o que Luna desejaria.
Ela ainda não conseguiu comer seu café da manhã, mas felizmente não havia falta de pôneis que queria um pouco mais de comida, depois disso, ela se forçou a trabalhar, apesar de as mente dispersa e da completa falta de disposição e energia. Havia números e dados vindos de todos os lugares da nave, desde a taxa de reciclo da matéria orgânica e atmosfera até o consumo de combustível, ela fez seu trabalho quase que mecanicamente, deixando que os seus instintos tomassem conta, ela fazia esse tipo de trabalho desde pequena.
No marco de duas semanas dentro da missão a nave passou próxima da lua, em uma manobra delicada eles usariam o campo gravitacional para realizar uma manobra de estilingue em direção ao sol. Numeric foi até o jardim hidropônico para se despedir da lua uma última vez, ela se sentia melhor, já havia voltado a comer, mas o buraco em seu peito ainda doía toda vez que ela tentava pensar em Luna, ela suspirou pesadamente pensando que precisaria conversar com Lumina o mais breve possível, ela se envergonhava de ter usado ela de tal forma por mais de uma vez, mesmo que ela nunca tivesse feito nada além de se abraçar com a égua a noite ela sentia que devia a outra uma explicação.
-Numeric. –Uma voz masculina a chamou e ela virou para ver Zura com dois alforjes leves em suas costas. –Você pode vir comigo, acho que vou precisar da sua ajuda com uma coisa.
Ela confirmou com a cabeça e seguiu o zebra, eles caminharam para fora do jardim e para uma das airlocks que no momento estava voltada para a lua, com cuidado Zura tirou de seu alforje um vasinho com uma bela flor de pétalas brancas.
-Essa flor se chama dama-da-noite. –Ele falou. –Eu roubei essa muda da casa dos meus pais antes de fugir, ela é tudo que me resta da minha casa.
-Ela é muito bonita. –Numeric falou.
-Poucas pessoas apreciam a beleza dela, pois ela só floresce á noite. Eu sempre admirei a princesa, ela sempre apoiou minha pesquisa e tentou me ajudar a me sentir melhor entre os pôneis. Eu não amei ela da mesma forma que você, mas eu também vou sentir profundamente a falta dela.
Ele apertou o botão de abertura da airlock e a planta foi ejetada em direção ao solo lunar, a pequena flor que havia sido a única planta ornamental a bordo da nave, provavelmente uma das últimas plantas ornamentais em toda Equus, se tornou uma oferenda aquela que dedicou sua vida não apenas aos pôneis, mas todos os habitantes de Equus.
-Obrigada. –Numeric falou contendo suas lágrimas. – Isso foi muito bonito de sua parte, sacrificar algo tão precioso por ela.
-Foi graças a ela que hoje eu tenho a chance de voltar para minha casa quando tudo isso acabar, eu nunca vou esquecer-me da beleza da noite. –Zura sorriu, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Numeric concordou, lágrimas também correndo de seus olhos, ela se sentia aliviada, aquela era uma maneira mais apropriada de se despedir da princesa da noite, lembrando tudo que ela fez de bom. Numeric enxugou suas lágrimas e respirou aliviada ao perceber que não sentia mais um vazio em seu peito, Luna poderia estar morta, mas ela se lembraria dela como a sorridente e bela pônei que ela havia sido.
Zura e ela ainda ficaram lá por mais uns momentos e logo se despediram, cada um de volta as suas funções. Zura estava tentando ajudar no jardim hidropônico usando técnicas zebras para aumentar a produção de alimentos, Numeric havia sugerido há alguns dias tentar aumentar a produção ao máximo e enlatar qualquer produto possível para tentar criar uma reserva para a viagem de volta.
Dias se tornaram em semanas e meses e logo anos, juntos eles se tornaram uma comunidade, não tão diferente da que havia nas cidades, apenas menor. Casais se formaram e quebraram durante a viagem, Numeric sempre parecia um passo a frente deles, sempre mantendo os quartos devidamente organizados para causar o menor número de problemas. Nos quase oito anos de viagem seis pôneis morreram em acidentes diversos pela nave, a cada vez Mirk Whisper recitou preces em seus funerais, eventualmente ganhando sua Cutie Mark na forma de um fantasma, ela se tornou aquela que fala pelos mortos, que conforta os vivos depois de perdas terríveis.
Quem mais ganhou sua marca foi Copper Pattern, a unicórnio descobriu um talento improvisando soluções para os problemas do dia a dia, depois de ajudar a montar a rádio ela ainda conseguiu criar uma pequena usina de álcool a partir de peças sobressalentes, a marca de uma engrenagem feita de ferro velho surgiu no flanco dela, que estava tão sujo de graxa que ela só foi perceber depois de se limpar.
Uma pônei terrestre chamada Ground Solution também ganhou sua cutie mark na forma de um pedaço de céu estrelado enquanto ela ajudava a traçar o curso da nave, durante a rápida celebração que eles tiveram ela acabou mudando seu nome para Sky Watcher para combinar melhor com o seu talento.
A moral estava alta na nave apesar de todos os problemas que eles enfrentavam diariamente para manter ela em perfeito funcionamento, a sala de observação principal se tornou o grande atrativo, pois quanto mais eles se aproximavam do sol, mais sua fraca forma trazia calor e luz, pôneis começaram a passar mais e mais tempo se banhando em sua luz a ponto que Numeric começou a organizar um sistema de rodízio para que todos pudessem ter seu momento ao sol e não perturbar o funcionamento da nave, Lux especialmente adorava seus momentos ao sol, cada instante que ela passava na sala trazia lhe mais confiança e determinação de que conseguiria cumprir sua missão, mas as sombras de duvida e desconfiança ainda pairavam sobre sua cabeça.
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