Chapters Night will fall and drown the sun,
Night will fall and drown the sun,
Celestia saldou o sol da manhã com prazer, mesmo após todos esses milênios a primeira luz do dia ainda a fazia se sentir cheia de energia e vida, a luz a preenchia. Ela estendeu suas asas completamente, se espreguiçando e banhando na luz enquanto sua magia alcançava o sol, gentilmente o tocando, impulsionado o em sua órbita antes de voltar para dentro do castelo onde seus deveres de realeza a esperavam.
Kibitz a esperava silenciosamente, consultando em seu relógio o tempo constantemente, ela imaginava que provavelmente estaria sete segundos atrasadas para algum compromisso importante.
-Bom dia, princesa, nós temos um dia lotado a frente. – O pônei disse com sua voz rouca.
Celestia sorriu gentilmente, é claro que eles tinham um dia lotado, todos os dias eram lotados quando se era governante de um império.
-Qual nosso primeiro dever? – Celestia perguntou.
-Hoje você tem encontros com delegados do Império de Cristal para discutir a situação dos próximos jogos de Equestria, uma reunião com os generais do EUP para discutir orçamento e depois o príncipe das Cinco Montanhas demanda uma audiência, mas ele se recusa a dizer sobre o que se trata. Depois disso, nós teremos o café da manhã. – Ele recitou diligente.
Celestia apenas confirmou com a cabeça enquanto andavam até a sala do trono, as duas primeiras reuniões eram esperadas, mas ela desejaria poder mandar o príncipe embora logo, cães-diamante sempre a deixavam desconfortáveis, eles traziam muitas lembranças do passado, de quando Equestria era um lugar menos civilizado.
Ela se sentou no trono e os primeiros delegados chegaram como era de esperar os delegados do império de Cristal desejavam realizar os jogos de Equestria novamente na terra deles e ela não se importaria normalmente, mas vários nobres de Equestria continuavam a demandar que os próximos jogos acontecessem em Canterlot. Ela os ouviu e prometeu pensar sobre o assunto enquanto pensava no que poderia fazer para deixar ambos os lados contentes.
Os generais vieram preparados com uma longa apresentação quase teatral e um número de dança sobre todos os perigos que esperavam nas fronteiras de Equestria. Eles cantaram sobre a ameaça das hordas de grifos e do império das zebras e por fim eles mostraram uma projeção dos custos para modernizar completamente as forças armadas.
Celestia gentilmente negou, apesar de ter sido um número de canto e dança espetacular ela ainda via pouca necessidade, ela e Luna sempre poderiam intervir caso alguma situação escalasse, com seus poderes elas poderiam resolver qualquer situação de forma mais rápida e limpa que qualquer exército. Não, era melhor que pôneis esquecessem tudo sobre guerra, ela ainda era assombrada pelos pesadelos do passado turbulento.
Por fim o príncipe das Cinco Montanhas entrou, Celestia se esforçou para manter o sorriso diante do carnívoro, se forçando a lembrar sempre que ele não tinha culpa pelo crime de seus antepassados, chances eram de que ele nem mesmo sabia dos crimes dos seus antepassados.
Ele se curvou e então se levantou, puxando algo de entre suas elaboradas vestes, os guardas pularam para ação, mas ele foi mais rápido o dispositivo simples explodiu em fumaça e trovão duas vezes antes que os guardas pudessem o imobilizar.
-Sic semper tyrannis!!– Ele gritou enquanto os guardas o imobilizavam.
-Sic semper tyrannis!! –Ele gritou enquanto os guardas horrorizados viram a forma caída de Celestia, sangue escorrendo das duas feridas, desacordada.
O choque e terror apenas se tornariam pior oito minutos depois quando uma população horrorizada viu o sol ser engolfado por trevas frias.
The light will die and the moon will rise
The light will die and the moon will rise
Lux acordou com o estridente despertador da casa coletiva, ela e mais trinta e um pôneis se levantaram de uma vez, alguns animados, alguns reclamando como sempre acontecia a cada manhã. A unicórnio de pelos brancos e crina amarelo ouro esmaecido puxou seu casaco com sua magia, o esforço a fazendo suar sobre as cobertas.
-Alguém viu meu sapato? –Mine Strip perguntou.
-Deve estar na cama do Clover. –Sweet Protein disse enquanto vestia seu casaco, os dois machos coraram imediatamente, eles vinham tentando manter o relacionamento em segredo, mas quando se dormia com mais trinta e um pôneis no mesmo quarto era raro você conseguir manter qualquer relação íntima em segredo.
Lux colocou seu casaco e suas botas enquanto o dormitório ao redor cercava Mine Strip e Clover para saber de mais detalhes. Logo estavam todos descendo as escadas para a cozinha e o principal tema de conversas agora eram os encontros românticos de cada pônei, quem estava dormindo com quem só por um pouco de calor e quem estava dormindo com quem por que realmente queria. Lux estava contente de apenas ouvir, ela mesma não tinha muitas histórias próprias para contar, ela tinha acabado de terminar um longo relacionamento com Ruby Cogs e no momento não queria nenhum relacionamento sério, havia sempre Nox, no entanto.
Os pôneis se serviram cada um com uma porção da ração diária de proteína unicelular que o dormitório deles recebia das fazendas industriais nos níveis inferiores. Apesar de tecnicamente a ração ter gosto de maçã, Lux sempre se perguntou se isso era verdade, a única pônei viva que ainda poderia se lembrar do que realmente era o gosto de uma maçã era princesa Luna e ela provavelmente deveria ter coisas mais importantes em mente do que o gosto da ração.
Depois da refeição eles limparam os seus pratos e copos e cada um iria para suas tarefas diárias. Lux se despediu dos seus colegas e se colocou a caminho do seu trabalho no centro de energia arcana. Assim que ela abriu a porta ela foi atingida pela lufada de ar gelado, ela subiu pelo caminho que levava do setor habitacional para o setor arcano.
Equestria havia mudado para sobreviver à catástrofe, com o decaimento do sol a superfície do planeta rapidamente se tornou completamente inabitável, alguns pôneis contavam histórias de grandes dragões anciões que ainda conseguiam sobreviver na superfície do planeta, mas para pôneis e praticamente todas as criaturas vivas a superfície era mortal. Nos primeiros dias após a catástrofe, a temperatura caiu rapidamente, nas primeiras semanas ainda era possível se aventurar do lado de fora, mas logo até mesmo pôneis em armaduras encantadas não conseguiam mais sobreviver ao frio, os últimos exploradores contavam histórias de colossais oceanos de oxigênio e nitrogênio líquido cobrindo as cidades, depois disso as entradas haviam sido seladas e já faziam duas gerações que nenhum pônei se aventurava fora das cidades subterrâneas.
Lux passava pelas grandes usinas de calor em seu caminho para seu trabalho todo dia, ela sempre teve inveja dos pôneis que trabalhavam nelas, as grandes usinas que queimavam petróleo, carvão e gás natural eram a força vital da nova Equestria, sem o constante calor que elas emitiam constantemente as cidades subterrâneas já teriam congelado como a superficie. As primeiras cidades eram aquecidas com a magia de unicórnios, mas a cada geração a magia parecia enfraquecer, logo eles não conseguiam mais manter as cidades aquecidas e as primeiras usinas a carvão surgiram, logo escavadeiras movida a vapor estavam abrindo caminho em meio a rocha e quando os primeiros poços de petróleo foram encontrados pôneis rapidamente descobriram como refinar a substância e criar combustível a partir dela, não fosse pelos pesados encouraçados movidos a diesel eles provavelmente teriam perdido bem mais do que duas cidades durante a última incursão da Horda.
Nox apareceu como ela sempre aparecia, de surpresa e sem nenhum respeito pelo espaço pessoal de Lux, a pegasus de pêlo azul escuro e crina azul celeste, parecia ter sempre energia de sobra, mesmo usando dois casacos pesados ela ainda conseguia se mover rapidamente e diferente dos outros pôneis ela sempre parecia feliz, não importa que eles vivessem em um buraco na terra, no meio de um inferno congelado.
-Lux! Eu estava com tantas saudades. –A pegasus falou enquanto abraçava fortemente.
-A gente se viu ontem, Nox. – Lux respondeu, sorrindo apesar de si mesma.
-Ah, mas aquilo não contou, a gente nem se viu direito... Eu estava pensando se você não queria passar a noite comigo. Eu consegui uma lata de aguardente que a gente podia dividir. –A pegasus roçou seu casco contra o pouco de pêlo do pescoço que escapava do casaco pesado de Lux.
-Acho melhor não, hoje eu provavelmente vou chegar cansada de mais para qualquer coisa. –Lux respondeu, a proposta era tentadora, não apenas o calor de outro pônei, mas todas as calorias de uma lata de aguardente eram coisas valiosas, mas a unicórnio não iria conseguir pagar o preço que Nox iria querer, por mais tentador que fosse. Ruby ainda era uma memória fresca em sua mente.
-Se mudar de idéia você sabe onde me encontrar. –Nox sorriu e beijou carinhosamente a bochecha de Lux antes de seguir sem eu caminho, Nox como quase todos os pegasi trabalhava nos sistemas de purificação de ar, usando sua magia de pegasus para manter o ar respirável nas cidades subterrânea.
O setor arcano era um gigante decrépito, no passado ele servia como um pilar da sociedade em todas as doze cidades, unicórnios geravam luz e calor do alto da torre, usando cristais e circuitos arcanos para distribuir luz e calor por toda a cidade, mas agora essas eram apenas lembranças de um passado glorioso, de quando ainda existia ainda alguma esperança para os pôneis. Atualmente a maior parte do setor servia como uma base para as operações militares e um abrigo temporário para os pôneis doentes ou velhos de mais para trabalhar. Pelas leis, qualquer pessoa que não contribuísse para a sociedade não teria direito a comida ou abrigo, os membros do setor arcano ofereciam uma escapatória, eles ofereciam dois meses de abrigo a qualquer pônei. Depois de dois meses o pônei estaria por conta própria, a maior parte acabava escolhendo se juntar as fazendas industriais como matéria orgânica.
Ela subiu três andares para o seu posto de trabalho, Lux sempre havia se considerado abençoada pelo seu trabalho, mesmo com toda a desolação do mundo de fora dentro daquelas paredes ainda havia a esperança de uma nova geração. Ela retirou um dos seus casacos e colocou por cima o jaleco branco que era tradicionalmente usado, depois ela foi até a sala especial construída no centro do pilar que era o setor arcano, no passado ela era ocupada por pelo menos vinte unicórnios a todo tempo e através dela era fornecido calor e luz para a cidade, atualmente a sala havia sido convertida, agora a luz e calor eram focados dentro da própria. Lux se sentou em seu lugar, uma cadeira atrás de um espelho falso, uma série de cabos conectados ao seu chifre, outros unicórnios iam se sentando nas outras cadeiras, apenas uma pequena parte dos unicórnios era abençoado com esse tipo de trabalho, a maior parte eram usados nos setores de reciclagem de dejetos, purificação de água ou militar.
Luz solar mágica era provavelmente uma das comodidades mais valiosas nas dez cidades, algo pelo que os barões militares, arcanos, industriais ou das fazendas pagariam milhares de quilo calorias por apenas algumas horas, mas essas salas não eram para eles, essas salas serviam a uma clientela mais exclusiva. Lux fechou seus olhos e começou a se concentrar na sua magia, conjurando a magia que todo unicórnio aprendia: luz arcana.
Vinte unicórnios conjuraram ao mesmo tempo através do maquinário arcano, cada um individualmente produzindo uma luz pouco mais poderosa que uma vela, mas os vinte em sincronia conseguiam criar uma imitação decente de um dia ensolarado, ou pelo menos era isso que as medições diziam, nenhum deles nunca havia visto um dia ensolarado.
As portas da sala se abriram e vários pequenos pôneis correram felizes para dentro, os filhotes receberiam duas horas de luz solar simulada por dia até eles completarem onze anos. Essa pequena dose de energia solar seria o suficiente para ajudar os pôneis a desenvolverem seus dons mágicos, pôneis privados da luz arcana acabavam nunca desenvolvendo seus poderes, eles se tornavam inúteis, pegasi incapazes de controlar correntes de ar, unicórnios incapazes de qualquer magia, pôneis terrestres incapazes de fazer matéria vegetal se desenvolver.
Lux estava transpirando, se esforçando para manter os padrões arcanos em sua mente, a energia arcana fluindo através da máquina, no passado isso era uma tarefa simples para unicórnios, mas para a geração de Lux era necessário um esforço constante, ela não gostava de pensar no que a próxima geração precisaria fazer, haviam rumores terríveis vindos das cidades da Horda, de unicórnios tendo seus membros decepados, ligados permanentemente a máquinas como essas e injetados com drogas estimulantes para produzirem energia arcana até finalmente morrerem algumas semanas depois. Os grifos em geral serviam as cidades pôneis como mercenários, as zebras eram o verdadeiro mistério, elas sempre haviam sido misteriosas, mas nos dias atuais elas evitavam qualquer contato com o mundo externo, até mesmo quando elas faziam negócios com as cidades pôneis era através de pôneis mediadores contratados para representar seus interesses.
Ao fim das duas horas do primeiro grupo, Lux se desconectou da máquina e levantou de sua cadeira lentamente, não era incomum o esforço constante da magia a deixar tonta ao final de uma sessão, eles teriam um descanso de duas horas antes de precisarem receber um novo grupo. O grupo de moveu silenciosamente até a sala de descanso enquanto um novo grupo de unicórnios entrava para tratar de mais um grupo de filhotes. Ela e os unicórnios foram para a pequena sala de descanso, a maior parte deles simplesmente despencava em algum canto para cochilar, Lux era uma das poucas que conseguia se manter de pé por pelo menos duas sessões antes de precisar disso, ela pegou uma garrafa de água do armário com seus cascos, seu chifre estava quente de mais com magia residual para ela arriscar qualquer magia adicional por algum tempo. Ela bebeu, sentindo o líquido revitalizar seu corpo e acalmar a dor de cabeça latejante que ela sentia.
-Operária Lux Rivet, a administradora gostaria de vê-la. –Uma voz soou através do sistema de interfone, alguns dos unicórnios que estavam dormindo até então amaldiçoando o sistema de comunicação interno, mas ao mesmo tempo felizes de que não seriam eles a terem de perder tempo de descanso com o que provavelmente seria mais algum problema burocrático idiota.
Lux suspirou, guardou a garrafa de água de volta no armário e foi ao seu encontro com a administração, seguindo as placas esmaecidas que permeavam o lugar não foi difícil encontrar a administradora do andar, ela parou diante de uma pesada porta de metal, no passado quando o setor arcano ainda era de grande importância tática, eles haviam sido construídos para resistirem ataques externos ou internos, atualmente a maior parte dos sistemas haviam sido desativados e reutilizados em lugares mais vitais das cidades. A porta se abriu lentamente, provavelmente usando um antigo motor a vapor para ativar uma bomba hidráulica e fazer mover a porta.
A sala era espartana, apenas uma mesa de pedra, quase tudo era feito de pedra atualmente, toda a madeira de Equestria havia sido queimada nos primeiros dias, florestas inteiras foram consumidas para calor e luz.
Lux esperou pacientemente até a administradora chegar, a pônei terrestre estava com grandes olheiras, provavelmente não tinha uma boa noite de sono nas últimas semanas. Ela se sentou em sua cadeira de pedra e pegou uma folha de papel, nos dias de hoje o material era sintetizado nas fazendas industriais.
-Funcionária Lux Rivet? –Ela perguntou.
-Apenas Lux, identificação 04529-7, atualmente trabalhando providenciando banhos de luz solar para filhotes. –Lux respondeu.
-Sim, você está sendo transferida para o sétimo andar, pegue essa nova identificação e se dirija para lá imediatamente. –Ela estendeu uma pequena chapa de bronze marcada com a nova identificação que a daria acesso aos andares superiores.
Lux pegou a identificação e colocou em um dos bolsos do seu casaco, bronze era um material muito usado, era mais fácil fazer folhas de bronze do que folhas de papel, metais preciosos e gemas preciosas não estavam mais em falta, mas também não tinham mais valor algum.
-Senhora, eu posso me esforçar mais, eu sei que devo conseguir mais uns vinte por cento de potência, você não precisa me transferir para os andares superiores! –Lux tentou sabendo que os andares superiores eram controlados pelo militares.
-Sinto muito, não tem nada que eu possa fazer. – A administradora falou cansada, ela já havia cumprido esse ritual inúmeras vezes, unicórnios eram escolhidos, muitas vezes os que produziam menos luz, mas as vezes simplesmente alguém aparentemente aleatório, algumas vezes ela havia tentado recorrer, mas uma vez que os militares escolhiam alguém não havia nada a fazer.
Lux suspirou pesadamente, ela olhou para a administradora, procurando por qualquer saída, mas ela podia ver nos olhos da outra pônei que não haveria forma, resignada ela se retirou, andando lentamente para as escadas, tomando seu tempo para subir as escadas e por fim confirmando duas vezes que ela estava diante da porta correta antes de inserir seu cartão de identidade na ranhura correta diante da porta que bloqueava a entrada aos andares controlados pelos militares.
Uma vez dentro ela viu como as coisas eram diferentes dos andares inferiores, aqui todos usavam uniformes, todos pareciam sempre apressados para chegar onde quer que eles estejam indo, tudo parecia mais organizado e papel era usado aos montes por toda parte.
Ela continuou subindo, do quinto para o sexto e do sexto para o sétimo e último andar, ela atravessou uma porta guardada por dois grandes pôneis, pelo menos tão grande quanto pôneis conseguiam crescer com a dieta extremamente restrita que eles possuíam hoje em dia. Eles confirmaram a identidade dela silenciosamente e permitiram a entrada dela na sala.
Assim que Lux atravessou a porta ela quase desmaiou ao se encontrar olho a olho com um grifo, ela já havia fotos e até mesmo vídeos deles, mas ver um deles pessoalmente era diferente, havia algo que nenhuma foto ou filme de propaganda conseguia capturar, um espírito de predador habitava aquelas criaturas, elas no passado haviam se alimentado da carne de pôneis e algo enterrado em seu código genético dizia a Lux que ela deveria correr, que aquilo que estava a frente dela era morte.
-Pare de assustar nossa convidada, general Ailen, você a está deixando desconfortável. –Uma voz falou em um quase sussurro de trás da sala.
Lux desviou seu olhar lentamente para ver a origem da voz e seu coração quase parou quando seus olhos se encontraram com os profundos olhos cianos da princesa da noite. Ela respirou fundo e deu um passo para trás, quase desmaiando, ela não podia acreditar no que estava acontecendo, a princesa nunca aparecia a menos que fosse incrivelmente importante, ela estava sempre ocupada com os assuntos das dez cidades e a constante guerra com os rebeldes, a Horda e os dragões selvagens.
-Se acalme querida, ninguém vai te machucar. –A princesa falou, sua voz era serena, confortante, como o grifo havia algo nela que trazia uma memória ancestral em Lux, mas essa era uma memória prazerosa, como rever uma amiga perdida ou como quando ela era apenas um filhote e adormecia no abraço de sua mãe.Uma memória que trazia um calor gostoso.
-Sim, vossa majestade! – Lux respondeu prontamente e se curvou como ela havia visto nos filmes mudos que de vez em quando passavam no teatro.
Luna sorriu e se aproximou, horrorizada Lux percebeu que a princesa não era perfeita como nos vídeos de propaganda, sua crina e cauda estavam cortadas curtas, diferente da longa e esvoaçante que ela usava nos pôster, ela tinha cicatrizes, várias pequenas por todo seu corpo e três longas e sinuosas que começavam no lado esquerdo do seu pescoço e desciam até quase a ponta do seu casco, Lux não podia parar de pensar em que tipo de criatura havia sido capaz de machucar a princesa.
-Apenas Luna, por favor. Deixe essas formalidades para o corpo político. –Luna falou e ofereceu a Lux seu casco para que ela se levantasse.
Lux aceitou, seu coração pulando quando ela encostou na princesa, ela não podia acreditar que estava tocando na última alicornia viva.
-Vossa Ma... Você me chamou aqui? –Lux perguntou, sua mente correndo tentando encontrar qualquer razão pela qual a princesa poderia querer falar com uma simples pônei como ela.
-Sim, minha assistente estava revisando as quotas de produção dessa cidade e chamou minha atenção para algumas inconsistências. –Luna falou, sua voz trazia algo raro em Equestria, algo que Lux só havia ouvido na voz de uma outra égua, a voz da princesa estava cheia de esperança.
-Inconsistências? Não, por favor, eu sei que minha produção de luz arcana não é a melhor de todas, mas eu posso melhorar, por favor, não me envie para as linhas de frente. –Lux implorou para a princesa.
-Eu acho melhor minha assistente te explicar direito. –Luna apontou para uma pequena pônei terrestre ao fundo, ela usava pesados óculos e trazia consigo dois pesados alforjes. – Numeric Variable, pode explicar tudo a ela?
-Claro, princesa. –A pônei falou com uma voz um tanto rouca. –Eu notei uma variação de 0,34% na força arcana média nos filhotes dessa cidade acima dos filhotes de outras cidades. A maior parte dos pôneis consideraria isso apenas um erro estatístico, e ele esta bem dentro da zona de erro, mas eu tive um instinto de querer saber mais sobre essa anomalia. Quando eu considerei apenas os pôneis dessa cidade eu notei que a diferença aumentava bruscamente, alguns filhotes possuíam uma força arcana média cerca de 4,78% acima da média. Você entende o conceito de entropia arcana, certo?
-Sim, em um sistema fechado a entropia tende a aumentar com o tempo, se aproximando de um valor máximo. –Lux citou, as leis básicas da magia era algo que todos os filhotes aprendiam.
-Sim, e você entende o que isso significa na prática? –Numeric perguntou.
-A energia arcana potencial total de um sistema fechado tende a diminuir com o tempo. Isso quer dizer que cada nova geração sem acesso a uma fonte externa de energia arcana é mais fraca que a anterior.
-Exato, então você deve entender como eu fiquei interessada em um aumento médio no potencial arcano, algo esta injetando nova magia no sistema. –Numeric falou e puxou algo de seu alforje com seus cascos, uma longa e detalhada lista dos filhotes da cidade, alguns dos filhotes estavam marcados.
-Isso não poderia ser um erro? –Lux perguntou.
-Claro, mas quanto mais fundo eu pesquisava mais certa eu fiquei de que não era um erro, essa variação vinha se mantendo constante. Esse ano a variação foi de 4,78% acima da média, ano passado foi de 3,98%, no ano anterior de 4,52% e assim por diante. Eu comecei a checar os pôneis em questão, o que eles tinham em comum, talvez algo na comida ou na água. Eu gastei os últimos dois meses checando cada possível variável.
Numeric entregou as folhas para Lux que começou a checar os pôneis marcados, cada nome era seguido de uma longa lista de informações, onde eles dormiam, onde eles comiam, gênero, orientação sexual, unidade de ensino, setor de trabalho e no final da lista uma coluna havia sido adicionada, rabiscado ao final da tabela estava a equipe que gerou luz solar para eles quando filhotes, todos os marcados haviam sido energizados pelo grupo 217, o grupo que Lux fazia parte. Sem acreditar no que ela estava lendo, Lux olhou para Numeric, esperando que ela explicasse o que aquilo significava, a única conclusão que seu cérebro chegava não poderia estar correta.
-Eu tracei de volta a anomalia por dez anos. –Numeric disse e Lux arregalou os olhos. –Exatamente o ano em que você começou a trabalhar produzindo luz arcana.
-Não, isso deve ser um engano, eu não faço nada de mais, eu sou só uma funcionária comum. –Lux falou, isso devia ser um sonho, desde seus onze anos ela havia trabalhado sem parar no setor, ela não podia ser especial, ela era só mais uma pônei contribuindo para a cidade.
-Não é nenhum engano, Lux. –Luna falou. –Se Numeric está dizendo que você é a anomalia eu acredito nela, por que essa é a Cutie Mark dela.
Lux olhou subitamente para a assistente da princesa, a questão clara em seus olhos, Numeric se virou e abaixou suas calças levemente apenas o suficiente para que Lux pudesse ver a marca no flanco dela na forma de um símbolo de porcentagem.
-Eu acredito que você tenha uma também. –Numeric disse enquanto ela levantava sua calça. –Eu te mostrei a minha, nada mais justo do que você me mostrar a sua.
Lux ofegou espantada, ela nunca havia conhecido outro pônei com uma Cutie Mark! Timidamente ela se virou e abaixou suas calças apenas o suficiente para que Numeric pudesse ver a imagem de um sol nascente no flanco de Lux, rapidamente erguendo suas calças de novo. Numeric e a princesa sorriram.
Ela não podia acreditar no que estava acontecendo, era tão surreal que ela chegava a pensar que estava em um sonho alucinatório, talvez ela tivesse se exaustado de mais produzindo luz e agora estava na enfermaria, tendo sonhos sobre a princesa e Cutie Marks.
-Nós precisamos da sua ajuda, Lux Rivet. –Princesa Luna disse e Lux soube naquele momento que seria impossível dizer não a princesa, perto dela ela se sentia motivada a fazer seu melhor, ela queria impressionar a princesa, mostrar que ela era uma boa pônei.
-Eu vou me esforçar, princesa! Eu vou trabalhar mais, gerar tanta luz quanto eu puder, talvez eu pudesse tentar ensinar outros unicórnios como fazer magia como eu. –Lux falou, não importa se era um sonho ou não, ela iria ajudar a princesa de qualquer forma que ela pudesse.
-Não, isso não iria funcionar. –Luna começou, havia um pouco de tristeza se infiltrando em sua voz.
-Princesa. –O grifo falou do seu canto, chamando atenção para si mesmo pela primeira vez. –Antes de ela saber mais, seria bom ter certeza das afiliações dela.
Luna confirmou com a cabeça. –Desculpe, Lux, mas o general está correto. Antes de prosseguirmos, precisamos ter certeza de que você é realmente é uma cidadã leal.
Lux engoliu a seco. –Cla... Claro, princesa.
O chifre de Luna começou a brilhar e Lux sentiu um alívio imediato, nenhum unicórnio conseguiria fazer esse tipo de magia, por isso em geral os testes de lealdade eram feitos... de forma desagradável. Luna encostou seu chifre no de Lux, a pequena unicórnio se contendo para não gritar de excitação, todos os outros unicórnios da cidade provavelmente morreriam de inveja dela ter encostado no chifre da princesa.
A magia era gentil, carinhosa, ela levou Lux a um estado similar ao sono e quando ela abriu os olhos estava em um longo corredor escuro, estrelas brilhavam ao redor dela e uma a uma grandes projeções de toda sua vida começaram a aparecer como pinturas nas paredes do corredor, Luna apareceu pouco depois.
-Onde nós estamos? –Lux perguntou.
-Esse é um lugar especial, um dos poucos lugares mágicos que ainda sobraram. Aqui toda a sua vida está exposta, se tem algo que você não quer que eu veja, eu peço desculpas e te prometo não fazer julgamentos. –Luna falou enquanto começava a andar em frente, observando os flashes dos primeiros anos de vida de Lux, brincando com outros filhotes na sala de luz.
-Quem é a pegasus azul? –Luna perguntou, ela estava em quase todas as memórias.
-Nox, ela é minha melhor amiga. –Lux falou e imediatamente corou quando elas passaram em frente a uma memória em que ela e Nox pintavam cutie marks falsas em seus flancos.
Luna sorriu ternamente vendo as duas brincarem juntas, logo as duas não eram mais filhotes, elas estavam na escola, treinando para suas futuras carreiras, mas ainda juntas, rindo e se divertindo sempre que podiam apesar do mundo congelado que as cercava. Ela viu Lux se esforçando para conjurar a magia de luz pela primeira vez.
-No começo era mais difícil fazer magia, não? –Luna perguntou.
-Sim, depois que a minha marca apareceu se tornou mais fácil.
-Quando ela apareceu? –Luna perguntou e viu a unicórnio abaixar suas orelhas e apontar para uma memória.
Luna observou atentamente e viu uma jovem unicórnio chorando em frente a uma pequena placa de bronze marcada, ela não precisava perguntar para saber o que aquela placa dizia, ela mesma já havia visto inúmeras como aquelas.
-Sua mãe? –Luna perguntou.
-Sim, ela morreu nas linhas de frente. Foi o momento mais triste da minha vida, ela era a minha heroína e um dia eu recebo uma simples placa de bronze dizendo que a primeira tenente Steel Rivet morreu defendendo a cidade de Nova Baltimare.
Luna suspirou pesadamente, essa era uma realidade comum nos dias atuais, pôneis morriam em combate ou em acidentes industriais praticamente todos os dias, filhotes sem pais estavam se tornando a norma.
-Eu decidi acender uma luz para a minha mãe aquela noite, para que o espírito dela achasse o caminho para a luz, eu me sentei em frente a janela e fiz me chifre brilhar até eu não agüentar mais, até meu corpo inteiro doer e foi então que eu descobri como alterar a matriz arcana, apenas uma pequena modificação e minha luz brilhou mais forte, eu continuei brilhando até não conseguir mais ficar consciente. Quando eu recuperei a consciência a marca tinha aparecido no meu flanco.
Luna viu em outra memória a jovem desesperada pelo aparecimento da marca, tentando cobrir ela com roupas, com medo de que outras pessoas a vissem. Luna as vezes não podia acreditar em como as coisas haviam mudado, pôneis atualmente viviam para trabalhar, para manter a cidade, para sobreviver mais um dia, havia pouquíssimo tempo para se divertirem, descobrirem seus talentos, e como conseqüência cada vez menos pôneis ganhavam suas marcas e como resultado, pôneis com Cutie Marks acabavam se envergonhando das suas, escondendo elas para não chamarem a atenção.
A juventude de Lux passou brevemente, praticamente todos os dias na mesma rotina de trabalho e depois de volta para o dormitório, alguns machos com quem ela dividiu a cama, mas nenhum deles durava muito até que apareceu um macho de pêlo vermelho e crina preta, o pônei terrestre e Lux passaram anos juntos, mas no final ele também foi embora, a única pônei constante em sua vida era Nox, ela também havia dividido a cama com Lux, mas nunca com freqüência, em geral quando Lux estava bêbada. Lux corou profundamente, ela não podia acreditar que a princesa estava vendo toda a sua vida amorosa dessa maneira.
-É o bastante, você parece ser um pônei leal. –Ela falou e em um momento elas estavam de volta à sala no topo do setor arcano, Numeric e o grifo olhando para a as duas.
-Ela é leal. –Luna proclamou e o grifo apenas confirmou com a cabeça. – Lux, você disse que faria qualquer coisa para nos ajudar, você esta disposta a dar sua vida para isso?
-Dar a minha vida? Como assim? –Lux perguntou rapidamente, dando um passo para trás.
-Nós já passamos do ponto sem volta. –Numeric falou como se fosse uma sentença. –Nós temos no máximo mais duas gerações antes que o potencial mágico das cidades se torne insuficiente para manter as necessidades dos pôneis. Antes disso a sociedade vai entrar em colapso, a maior possibilidade é de que em dezesseis anos as cidades iniciem uma guerra civil pelos poucos recursos, uma vez iniciada esse conflito deve eliminar pôneis e recursos o suficiente para tornar a sobrevivência em longo prazo impossível.
-No entanto nós temos uma alternativa, uma última chance. –O grifo falou subitamente, caminhando para perto de Lux. –Eu passei os últimos doze anos trabalhando em um projeto particular, no entanto eu serei completamente honesto, você não irá sobreviver.
-Você não precisa decidir isso agora. –Luna falou. –Se você desejar algum tempo para pensar é compreensível.
-Eu... Eu vou pensar a respeito. –Lux falou, era muita coisa para ela processar de uma só vez. Ela caminhou para fora do escritório, tentando pensar no que deveria fazer, a resposta deveria ser óbvia, não? As cidades dependiam dela, mas a partir do momento que ela dissesse sim para o plano ela estaria praticamente morta.
Ela andou para fora do setor arcano, era provavelmente a primeira vez em toda a sua vida que ela saía mais cedo do trabalho, as ruas estavam vazias, praticamente todos os pôneis estavam em seus trabalhos, ela sentia vontade de uma bebida, mas Nox não iria sair do turno dela por mais algumas horas. Ela simplesmente vagou, andando aleatoriamente pelas ruas sem saber exatamente para onde ir. Morrer era uma constante da vida, todos os pôneis sabiam que a qualquer momento um acidente industrial poderia acontecer ou até mesmo a qualquer momento a Horda poderia atacar ou ataques terroristas das cidades rebeldes, morrer não era o problema, mas escolher isso voluntariamente era outra questão.
Sem perceber ela acabou indo de encontro as grandes portas de ferro encantado que separavam a cidade da superfície, no passado elas abriam e fechavam, grupos de exploradores vasculhavam a superfície para tentar resgatar os tesouros de Equestria, mas logo até mesmo isso havia se tornado impossível, um oceano de oxigênio e nitrogênio líquido recobriam a superfície do planeta. Ela estendeu seu casco e tocou a porta, mesmo usando pesadas botas ela ainda conseguia sentir o frio do lado de fora, isso era tudo que existia além dessas paredes o frio da morte e decaimento.
Quantos milhões de pôneis haviam se sacrificado para que eles pudessem continuar vivendo, ela havia ouvido as histórias antes, de como os elementos da harmonia haviam se sacrificado na defesa de Equestria durante os primeiros dias da existência subterrânea, como Rainbow Dash morreu de hipotermia repelindo um ataque da Horda tentando tomar as cidades pela superfície. Applejack, que trabalhou até morrer na criação das fazendas industriais. Twilight Sparkle e sua filha que morreram na segunda invasão da Horda, elas criaram um escudo ao redor da cidade inteira e agüentaram por três dias até que os encouraçados conseguiram resgatar a cidade e conter o avanço da Horda antes que eles destruíssem mais cidades. Rarity que cavalgou Spike em batalha contra as zebras durante a guerra dos três poços, ambos morreram alguns meses depois com algum tipo de veneno que nenhum pônei havia visto antes. Fluttershy, a médica dedicada que foi morta por cães-diamante durante a invasão das Cinco Montanhas. Pinkie Pie que sobreviveu as suas amigas, que se esforçava a cada dia para trazer divertimento às vidas dos pôneis condenados, andando de cidade a cidade para trazer um brilho de esperança aos pôneis, mesmo que dia após dia ela se sentisse mais sozinha, ela simplesmente empurrava a própria tristeza para o fundo e sorria, até o dia em que ela não agüentou mais.
Lux suspirou, nas histórias era sempre tão fácil para a heroína sacrificar sua vida ou felicidade pelo bem comum, deixar tudo de lado para fazer o que é certo. Ela sentia medo, como algum pônei poderia escolher a morte, quando desde pequenos eles eram ensinados que tudo que importava era sobreviver um dia após o outro.
-Você está bem, pequenina? –Uma velha pônei perguntou atrás dela.
Lux se virou, subitamente notando a velha pônei olhando para ela, sua crina e cauda eram cinzas e seu pêlo um rosa esmaecido pelos anos.
-Eu estou sim, só pensando. –Lux falou.
-Eu sempre gostei de vir aqui para pensar, aqui é um bom lugar, cheio de memórias. Eu fui uma exploradora no passado, você sabia? –A velha pônei tocou a porta com seu casco e respirou profundamente.
-Nossa, eu não sabia que existiam mais exploradores. –Lux respondeu um tanto surpresa.
-Eu devo ser a última, pelo menos nessa cidade. –Ela falou com uma voz cheio de pesar, tirando uma vela de dentro do seu casaco e encaixando ela no chão, ela pegou em seguida uma caixa de fósforos, mas Lux acendeu a vela para ela com sua magia. –Obrigada, querida.
-Como era o lado de fora? –Lux perguntou curiosa.
-Eu não vi muito dele, quando nós saímos a atmosfera já estava liquefazendo, mas eu vi as cidades de antes. Fillydelphia, Baltimare, Canterlot, todas elas eram tão grandes e tão abertas, aqui embaixo tudo é pequeno e apertado. E havia cores por todo lado, esmaecidas pelos anos, mas ainda havia cor por todo lado. –Ela pegou uma pequena foto, um artefato antigo que provavelmente atualmente custaria uma pequena fortuna em calorias, nela Lux conseguiu ver quatro jovens pôneis usando as pesadas armaduras encantadas contra o frio.
-Esses eram vocês? Lux perguntou curiosa.
-Sim, eu e o meu time, todos eles estão mortos agora. Snow Flake - Ela apontou para o pônei mais a direita, um jovem macho todo branco com a crina de um azul suave. – Foi o primeiro, ele morreu em um acidente, escorregou em um lago de nitrogênio líquido, nós ainda recuperamos o corpo, mas era tarde de mais, Northern Lights – Ela apontou para uma grande fêmea ao lado do outro pônei. – Perdeu uma perna tentando resgatar ele, colocaram uma prótese nela, mas ela acabou morrendo alguns meses depois quando uma nevasca nos separou e a gente nunca encontrou o corpo. Poucodepois eles decidiram parar com as explorações, não havia mais nada que a gente pudesse recuperar de qualquer forma. Eu e Ice Sheet fomos trabalhar em uma das fazendas industriais. Ontem Ice Sheet morreu. –Ela suspirou pesadamente, contendo as lágrimas.
-Meus pêsames. –Lux respondeu quase automaticamente.
-Foi uma boa vida pelo menos, poucos pôneis hoje em dia podem dizer o mesmo. –Ela colocou a foto ao pé da vela.
-Você não devia colocar ai, vai acabar queimando a foto. –Lux advertiu.
-Eu sei. –A velha sorriu. –Você já viu as estrelas, garota?
Lux balançou a cabeça.
-Eu sinto falta delas, quando a gente estava lá fora e olhava para cima havia milhares delas brilhando ao nosso redor. –Ela falou com seu olhar intento na chama que se aproximava cada vez mais da foto.
Lux olhou em silencio a velha pônei, ela parecia perdida em suas memórias, olhando enquanto a chama da vela lentamente devorava a foto, um pequeno sorriso em seu rosto.
-Acho que tudo acaba um dia. –A velha pônei falou. –Se cuide, jovenzinha.
Ela foi descendo o caminho até a cidade, deixando Lux sozinha, a unicórnio ficou observando a vela queimando. O fogo consumia a cera, eventualmente a chama morreria sem cera para consumir, assim como as cidades que consumiam pôneis para se manterem vivas. Ela não seria diferente de sua mãe.
Cansada dos próprios pensamentos, Lux voltou á cidade, ainda levariam algumas horas para o turno acabar, o tempo demorava a passar sem nada para fazer, ela nunca havia passado um dia que fosse sem trabalhar desde que havia começado seu trabalho no setor arcano.
Ela caminhou até o museu, a velha construção não era conservada a anos, todos os recursos disponíveis eram enviados para setores mais importantes, fora que ninguém mais parecia ter tempo para o passado e não gostavam de pensar sobre o futuro. Tudo que pôneis tinham atualmente era o presente e o presente era uma droga.
O museu guardava as últimas relíquias do passado, atualmente a maior parte eram pinturas, fotografias e uns poucos artefatos, nos primeiros dias haviam dezenas de orbes de memórias, mas sem magia ambiente eles esmaeceram até se tornarem pedras comuns. Ela caminhou pelos corredores escuros, vendo as antigas fotos e pinturas das cidades, das arvores, do sol. Em um patamar no centro de uma sala estava um livro, provavelmente o último livro do mundo de antes, atrás de uma barreira de vidro reforçado estava o “Elementos da Harmonia: Um guia de referência”, o mesmo livro que havia pertencido a princesa Twilight Sparkle.
Lux tocou o vidro e olhou para o livro, Celéstia em pessoa havia encomendado o livro, ele era um das dezenas de livros similares que ela havia escrito para que ninguém realmente soubesse o que havia acontecido com Luna, ela temia que nobres gananciosos ou poderes externos tentassem libertar sua irmã ensandecida. A história no final se tornou pouco mais que uma fábula, uma lenda para assustar crianças, a noite dos pesadelos que no passado havia sido uma celebração da vitória de Luna contra os espíritos do pesadelo se tornou sobre o medo de Nightmare Moon. Atualmente você conseguia cópias do livro em folhas de bronze, muitos rebeldes criavam suas próprias cópias incluindo a história de como Nightmare Moon tentou trazer noite eterna e usavam isso como prova contra Luna, acusavam ela de ter arranjado o assassinato da própria irmã para trazer a noite eterna que ela tanto desejava.
Ao redor do livro nas paredes estavam os retratos das seis pôneis que carregaram os elementos por último, todos conheciam suas histórias, seus feitos. Ela olhou para as grandes heroínas.
-Por favor, me dêem forças para fazer o que é certo. –Ela sussurrou para as seis
A seguir havia uma exposição do assassinato de Celestia, réplicas da arma e da munição usada estavam em exibição. A arma era uma versão rudimentar de uma arma de fogo, elas haviam se tornado comum conforme a magia dos unicórnios enfraquecia, atualmente existiam modelos muitos mais avançados, criados para combater os inimigos de Equestria. A bala era mais intrigante, apesar de parecer normal, nenhum cientista conseguia determinar o mineral usado em sua confecção, era algo diferente de tudo que eles já haviam visto, ele parecia ser completamente impermeável a magia, conseguiu atravessar os escudos de Celestia que normalmente seriam capazes de parar a fusão solar e quando os médicos unicórnios tentaram operar para retirar a bala descobriram tarde de mais que sua magia também não conseguia tocar a bala, eles precisaram trazer médicos pôneis terrestres com ferramentas especializadas para conseguir remover o projétil, mas infelizmente já era tarde de mais, a bala parecia ter drenado a magia de Celestia e por fim, apesar dos esforços dos melhores médicos da nação Celestia entrou em coma e morreu alguns dias depois.
Se os cães diamante sabiam do que a munição era feita eles nunca falaram e aparentemente nunca haviam usado ela novamente.
A última exposição mostrava os primeiros dias, as seis heroínas guiando os pôneis para as grandes cavernas subterrâneas, Cadence e o Império de Cristal desaparecendo, as primeiras guerras contra a nascente Horda ainda na superfície.
E era isso, no começo havia planos para ampliar o museu, adicionar novas exposições, mas ninguém parecia ter tempo ou recursos para isso. Ela se sentou em uma mesinha onde no passado eram servidos cafés e comidas, mas não mais, atualmente toda a comida vinha na forma da mesma ração, cada pônei era atribuído um número de rações diárias suficiente para seu organismo continuar funcionando e executando seu trabalho de forma eficaz.
Numeric Variable se sentou a sua frente.
-Você está bem? –A outra fêmea perguntou.
-Muita coisa na minha cabeça, se importa se não falarmos sobre isso? –Lux respondeu cabisbaixa.
-Claro. Sobre o que você quer conversar? –Numeric perguntou.
-Como você sabia que eu estaria aqui? –Lux perguntou.
-Era estatisticamente o lugar mais provável, um dos poucos lugares públicos que permanece aberto durante o ciclo primário de trabalho. –Numeric respondeu.
-Com você é tudo números e estatísticas, não? –Lux falou irritada.
Numeric deu de ombros. –Desde pequena eu sempre gostei de números, meus dois pais sempre me deram total apoio. Eles me adotaram quando eu era pequena ainda, mas sempre foram super gentis comigo. Um deles trabalhava no setor arcano e conseguia me trazer folhas de cobre de matemática avançada o outro trabalhava nas fazendas industriais, ele aprendeu a ler e escrever só para me ajudar nos meus estudos. Quando minha marca apareceu, eles até mesmo me deram uma pequena cutiecenera, eles eram os melhores.
-Eram? –Lux perguntou.
-Sim. –Numeric respondeu brevemente.
Um silêncio pesado se estendeu entre as duas.
-Vamos beber algo. –Numeric falou bruscamente. –Eu quero esquecer o passado.
-Mas a essa hora? Eu sei onde conseguir uma lata de bebida, mas só daqui algumas horas. –Lux respondeu.
-Venha, eu vou te mostrar alguns dos privilégios de trabalhar para a princesa. –Numerica sorriu ardilosamente.
Alguns momentos depois Numeric havia trocado algumas unidades de ração por uma garrafa pequena de aguardente forte, duas garrafas de água e um frasco de flavorizante sabor de limão.
Lux acordou com uma terrível dor de cabeça, o despertador tocando com toda força como a cada manhã, ela tentou levantar seu casco esquerdo para desligar o despertador, mas sentiu ele preso embaixo de algo pesado, irritada ela usou sua magia para desligar o despertador, o esforço fazendo sua cabeça parecer que iria explodir. Os outros pôneis acordavam e as luzes se acendiam subitamente, Lux grunhiu sem querer sair da cama, ela estava tão quente e confortável. Os outros pôneis do dormitório estavam rindo, comentando algo, mas ela não fazia esforço para entender, apenas mais cinco minutos não iriam lhe matar, sua memória voltava aos poucos do dia passado, ela nem mesmo precisaria ir trabalhar, ela só precisava ir se encontrar com a princesa.
Algo molhado tocou sua orelha, ela abriu seus olhos repentinamente e olhou para sua direita e viu a forma azulada de Nox aninhada contra ela, ela respirou aliviada, então era disso que os outros estavam comentando pela manhã, ela suspirou aliviada até olhar para sua esquerda e ver Numeric aninhada a sua esquerda. Ela olhou para os outros pôneis que já estavam terminando de colocar seus casacos, sempre que seu olhar se encontrava com algum deles ela viu um risinho contido. Então era isso que tinha acontecido noite passada, ela pensou engolindo a seco, ela conseguia sentir suas bochechas corando subitamente.
Com cuidado ela acordou as duas, Nox estava sorrindo alegremente e Numeric parecia um tanto constrangida, especialmente por conta de todos os outros pôneis ao redor.
-Eu... Eu te encontro no setor arcano! –Numeric falou apressada e saiu correndo, colocando seu casaco às pressas.
-O que deu nela? –Nox perguntou, se espreguiçando sem a menor pressa e aproveitando o momento de nudez para cutucar Lux com suas penas.
Lux estremeceu com a sensação das penas delicadas delineando sua coluna. -Nox! –Lux falou com um sorriso gostoso, aquela sensação era boa de mais, mas elas tinham de se aprontar para o trabalho. –Vai colocar seu casaco! –Ela falou para Nox, dessa forma as duas já estariam atrasadas.
Subitamente Nox a abraçou. –Eu não quero que você vá hoje. –Ela falou envolvendo Lux com suas asas.
-Não seja boba, você sabe qu... –Lux começou, mas foi interrompida pelo olhar de Nox, ela estava à beira de lágrimas.
-Você não pode morrer, Lux! Por favor não me abandona! –Nox falou, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Lux sentiu seu coração bater em falso, ela estava pronta para se oferecer ao trabalho, mas agora ouvindo Nox ela sentia sua determinação falhando. Nox parecia sempre complicar as coisas.
-Você me contou tudo ontem à noite. –Nox falou. – Eu não quero que você morra.
-Eu preciso ir, é importante. –Lux respondeu. –Por favor, não torne isso mais difícil.
Nox a soltou de seu abraço relutantemente, pegando seu próprio casaco em silêncio.
-Lux, por que nós nunca namoramos? –Nox perguntou com um demorado suspiro.
-Nox... Agora você me pergunta isso? Não importa mais. –Lux respondeu, se fechando no próprio casaco.
Nox mordeu a própria asa com força, estremecendo ao arrancar uma de suas próprias penas, ela estendeu a pena a Lux que a pegou em sua telecinese.
-Leva isso com você, lembre de mim no final. –Nox falou e saiu correndo, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Lux a deixou ir, era melhor assim. Ela olhou para a pena escura e a guardou dentro do seu casaco antes de ir para o refeitório pegar sua refeição, todos os pôneis olhando para ela assim que ela chegou, cochichando sobre tudo que havia acontecido na noite anterior, Lux se sentou e logo começaram as perguntas sobre quem era a outra pônei com Cutie Mark, se Nox não havia ficado com ciúmes e provavelmente o que para eles era mais importante: Onde ela havia arranjado aquela bebida.
Ela respondeu o melhor que podia, mas sem querer comprometer Numeric, ela não parecia ter ficado muito confortável com o que havia acontecido e Lux não queria constranger ela ainda mais, Lux comeu o mais rápido que podia para não ter mais que responder perguntas e saiu correndo para o setor arcano.
A cada movimento ela sentia a pena de Nox roçando contra seu pescoço, ela sentia seu coração pesado, ela amava Nox, isso já havia se tornado claro para ela a muito tempo, mas ela não poderia ter nada sério com a pegasus, simplesmente não era para ser entre as duas e de qualquer forma agora não importava mais. Ela mudou a pena de posição rapidamente, para algum lugar em que ela não a sentisse e continuou correndo, em frente ao setor arcano ela se encontrou com Numeric, a égua parecia ainda um tanto desconfortável e envergonhada.
-Lux, eu sei que nós não somos amigas realmente, mas eu precisava te pedir um favor. –Numeric falou, alternando seu peso de um casco para o outro.
-Claro, olha ontem à noite nós estávamos muito bêbadas, não precisa se envergonhar do que aconteceu. –Lux ofereceu enquanto as duas caminhavam para dentro do setor.
-Obrigada, mas não é isso. Só te peço, por favor, que não mencione o que aconteceu próximo a Luna. –Ela falou rapidamente.
-Com a princesa Luna? Eu nunca poderia mencionar esse tipo de coisa com a princesa! –Lux corou ao pensar em comentar sobre suas escapadas sexuais com a princesa, se bem que a princesa já havia visto todas as suas antigas aventuras romântica.
-A princesa é antiquada, ela nunca se adaptou direito aos novos tempos depois de voltar do seu banimento na lua e atualmente ela passa a maior parte do tempo nas linhas de frente. Ela ainda é bem antiquada, então se ela ficasse sabendo o que nós fizemos ontem a noite iria pensar que nós estamos comprometidas.
-Nossa, isso já aconteceu antes? –Lux perguntou.
-Sim, com um garanhão nas linhas de frente, eu tentei explicar que éramos apenas amigos, mas ela estava pronta para arranjar nosso casamento e quando eu disse para ela que não iríamos nos casar ela ficou desesperada pensando que eu o havia desonrado! Para minha sorte tivemos de nos mover para outra seção da linha de frente e ela acabou esquecendo o assunto eventualmente. –Numeric explicou um tanto envergonhada.
-Pode deixar, não vou mencionar nada. Honestamente estou aliviada, pensei que havia feito algo de errado na noite passada. –Lux falou um tanto aliviada.
As duas pôneis subiram até o último andar, através das portas lacradas que delimitavam o setor militar e para o topo do setor onde atrás das pesadas portas a princesa e o grifo as esperavam.
-Nós estávamos lhe esperando. –Luna falou em sua voz melodiosa.
-Você pensou sobre a proposta? –O grifo falou secamente.
Lux confirmou com a cabeça. –A necessidade de muitos se sobrepõem a necessidade de poucos.
O grifo anuiu silenciosamente, Luna e Numeric apenas concordaram com um silêncio sóbrio.
-Como que isso vai acontecer? Vai ser algum ritual? –Lux perguntou, usando sua magia para mudar a posição da pena de Nox, ela queria sentir a pena em seus momentos finais.
-Vai ser mais complicado do que isso. – Ailen falou. – Nós passamos os últimos anos aperfeiçoando um método para criar uma estrela e o seu feitiço é o último elemento, se nós conseguíssemos usar o seu feitiço combinado com a nossa tecnologia no coração do sol podemos reiniciar o sol!
Lux quase desmaiou ao ouvir a explicação, isso era muito maior do que qualquer coisa que ela havia sonhado; isso não era apenas sobre salvar uma cidade ou mesmo todas as cidades, isso era sobre salvar todos, era sobre salvar o próprio planeta.
-No entanto, para conjurar esse feitiço você precisa estar bem próxima do alvo. –Luna falou.
Lux olhou para ela com olhos arregalados.
-Nós vamos enviar uma expedição ao sol, para reiniciar ele com um mega-feitiço e salvar todo pon... Mundo em Equus. –Luna resumiu.
Lux riu nervosa.
Allicorns will fall and the dark will rise,
Allicorns will fall and the dark will rise,
Eles a levaram para um hangar construído ao lado da cidade, o gigantesco túnel era iluminado por apenas algumas poucas lâmpadas e parecia recém escavado, o frio dentro dele era quase insuportável, bem pouco do calor era bombeado na gigantesca estrutura. Então eles a mostraram o que a principio parecia ser uma gigantesca construção, pelo menos duas vezes maior que o prédio do setor arcano e construído como um encouraçado, feita de aço e com grandes janelas verticais, no topo dela havia o que só poderia ser descrito como um colossal escudo, o que a primeiro ela havia pensado ser o teto da construção era na verdade um escudo dourado maior do que algumas das cidades, diretamente ligado ao escudo havia um bloco retangular tão grande que ela não conseguia pensar em uma maneira de descrevê-los propriamente, toda a estrutura parecia desafiar qualquer descrição que ela pudesse imaginar, era uma construção tão grande que os recursos gastos nela deveriam ser o suficiente para construir duas novas cidades!
-Essa é a Luciferious II. –Luna falou, ela era única que não usava casacos pesados, mas também ela havia sobrevivido por mais de mil anos na lua, provavelmente o frio não a incomodava.
-Ela foi criada usando tecnologia zebra, pônei e grifo. –Ailen completou. –Ela vai levar você e a tripulação para a órbita solar, uma vez em órbita o módulo habitacional vai se desacoplar do escudo primário. O módulo habitacional vai voltar para Equus e o escudo primário vai mergulhar no coração do sol onde o mega-feitiço vai ser ativado.
-Eu vou estar no escudo primário? –Lux perguntou, esfregando os cascos da frente contra o corpo, por mais que aquilo fosse impressionante, o frio estava começando a incomodar.
-Dois pôneis vão estar no escudo primário para garantir a máxima efetividade do mega-feitiço. –Ailen estava contente em explicar, ele parecia ter dedicado muito tempo a esse projeto.
-Dois, mas eu pensei que eu era a única pônei que conseguia lançar o feitiço. –Lux indagou confusa.
-Sim, você vai conjurar seu feitiço de luz, mas para atingir seu potencial máximo é preciso de outra pônei capaz de controlar as equações arcanas, normalmente o computador do escudo primário consegue controlar as equações, mas com uma pônei especializada nós conseguimos aumentar a eficiência do feitiço em 50%.
Lux abriu a boca para perguntar quem seria a outra pônei que iria se sacrificar com ela no coração de uma estrela, mas ela conhecia apenas uma única pônei boa com números. Ela olhou para Numeric e a fêmea confirmou com a cabeça.
-Venha, vamos conhecer o resto da tripulação. –Ailen indicou as saída para ela e Lux estava mais do que feliz em sair daquele lugar.
O prédio em que a tripulação estava sendo treinada era mais bem aquecida, iluminada e suas dimensões faziam sentido para a mente de uma pônei acostumada as restritas dimensões das cidades. Lá ela conheceu a futura tripulação da Luciferious II, vinte pôneis que haviam treinado intensivamente para a missão durante os últimos anos, todos estavam felizes de cumprimentá-la e garantir que haveriam de mantê-la a salvo durante a missão.
Ela sorriu e os cumprimentou, era estranho estar entre pessoas que tinham como dever a escoltar através do vazio do espaço para que então ela pudesse se matar conjurando o que deveria ser uma das mais simples magias.
-Então ela é o novo catalisador primário? –Uma voz subitamente veio de trás dela, ela se virou, esperando ver um pônei, mas se deparou com os olhos dourados de um zebra.
Ele era tão similar a um pônei, as listras eram apenas um pequeno detalhe, na verdade muitos jovens gostavam de fazer listras falsas, a falta de variação de cor era um problema maior, mas ainda havia uma diferença mais fundamental, algo que faltava na zebras, elas não possuíam magia inata como os pôneis, não conseguiam fazer plantas crescerem naturalmente como os pôneis terrestres, mas elas haviam aprendido alquimia, suas poções e elixires eram capazes de produzir efeitos mágicos diversos.
-Esse é Zuralameni ou Zura para ser mais fácil. Ele é o responsável por boa parte do sistema de propulsão da nave. –Numeric o apresentou.
O zebra tinha sua crina longa em dreds amarrados juntos com um pedaço de fio elétrico, ele usava um jaleco impecavelmente branco e sua cauda era cortada curta em ângulo. Ele tinha uma aparência meio doentia, tufos de pêlo faltando em diversas partes.
-Catalisador? –Lux perguntou.
-A nave vai gerar a energia para o feitiço no seu lugar, tudo que você precisa fazer é conjurar a matriz arcana básica. –Zura explicou de modo cansado.
-Você tem que desculpar ele. –Numeric se adiantou. –Passa a maior parte do tempo no próprio laboratório e se esquece de como conversar com pôneis.
-Eu nem mesmo sabia que existiam zebras fora do império. –Lux comentou.
-Não é um império, nós temos uma única cidade e somos liderados por um conselho eleito democraticamente. E você nunca teria visto uma de qualquer forma, até onde eu sei sou a única zebra a abandonar nossa cidade.
-Por que você... –Lux começou.
-Abandonei a cidade? Por que eles nunca teriam como produzir algo como a Luciferious II, nós não temos os recursos suficientes ou mesmo usuários de magia necessários.
-Zura tem sido um dos nossos mais valiosos pesquisadores. –Luna ofereceu. –Sem a ajuda dele essa missão nunca teria sido possível.
O treinamento de Lux começou imediatamente, ela começou a receber treinamento nas operações diárias que seriam necessárias dentro da nave, desde coisas simples como usar o banheiro até noções básicas de primeiros socorros. De noite ela foi colocada em um dos dormitórios que estavam sendo usados pela tripulação, suas poucas posses já haviam sido transferidas e provavelmente uma nova pônei já estava designada para a sua cama no dormitório antigo, os outros provavelmente simplesmente assumiriam que ela havia morrido em um acidente de trabalho e seguiriam com suas vidas.
A ração era basicamente a mesma, a quantidade era apenas levemente maior, mas os soldados ainda recebiam uma pequena ração diária de chocolate, Lux mal podia acreditar no gosto do doce, era diferente de tudo que ela jamais havia provado (O que se resumia a ração comum e algumas poucas vezes alguns muffins que eram na verdade feitos a partir da ração.) e mais do que isso ele era incrivelmente rico em calorias.
A noite ela dormiu facilmente, ela estava exausta dos treinamentos, era incrível como os soldados ainda tinham energia para atividades intimas depois do dia longo.
No dia seguinte ela acordou, o alarme era o mesmo, provavelmente ele seria o mesmo em qualquer outro lugar. O dia de treino começou com exercícios físicos leves, seguidos de um café da manhã e logo a seguir enquanto os soldados continuavam com seu treinamento ela foi levada a outra sala, essa era completamente branca e possuía estranhas linhas arcanas marcadas pelo piso, paredes e teto, estar dentro da sala era estranho, parecia que ela conseguia sentir o fluxo de energia arcana dentro dela mesma.
-Essa é uma sala de amplificação arcana. –Ailen explicou. –Quando você estiver ai dentro vai ser desconfortável, mas você precisa se acostumar, a sensação vai ser muito pior no escudo primário.
Conjurar qualquer magia dentro da sala era complicado, qualquer manipulação arcana era amplificada e o risco de feedback aumentava exponencialmente, se a principio ela se perguntava por que salas como essa não eram usadas nas cidades, logo ela descobriu como seria fácil com um erro simples quebrar seu chifre ou até mesmo exaurir permanentemente sua magia. Ela precisou de um dia inteiro de experimentação até conseguir usar sua levitação de forma adequada.
De noite ela se sentia completamente exausta, ela pegou um copo de água e sua ração habitual e praticamente se arrastou para sua mesa. Luna se sentou ao seu lado com um sorriso malicioso.
-Vejo que está tendo dificuldades com a sala de mega-feitiço. –Ela falou. – No começo eu também tive dificuldades, mas logo você vai pegar o jeito.
-Não tem como reduzir o poder da sala? Talvez diminuir o tamanho dela? –Lux perguntou.
-Não, essa é a mais fraca que conseguimos construir, aparentemente elas funcionam numa escala logarítimica, se quiser eu posso te pedir para Numeric explicar detalhadamente o funcionamento delas, eu tenho certeza que ela não se importaria. –A princesa da noite sorriu e Lux gelou, por que ela viu naqueles grandes olhos que ela queria arranjar muito mais do que apenas aulas entre ela e Numeric.
-Ah, claro, mas agora eu preciso correr! –Lux falou apressadamente, querendo escapar da princesa, ela engoliu o resto da ração e saltou para fora da mesa, correndo para fora do refeitório enquanto sua mente tentava descobrir como ela havia descoberto sobre o que havia acontecido entre ela e Numeric.
Perdida em pensamentos ela nem mesmo percebeu quando uma garra a puxou para um dos quartos que ela nunca havia visto, antes que ela pudesse gritar outra garra forçou seu focinho fechado, um isqueiro se acendeu na penumbra e ela se viu frente a frente com uma grifo, uma fêmea dessa vez, suas penas eram de um roxo profundo, com o peito mais claro que o resto e belos olhos azuis, ela levou uma de suas garras afiadas até seu focinho em sinal de silêncio e apagou a chama do isqueiro que ela manipulava habilmente com sua cauda. Em tenso silêncio Lux olhou ao redor e percebeu Luna caminhando pelo mesmo corredor que ela, ela olhava ao redor, provavelmente procurando por ela.
A grifo sorriu quando a princesa desapareceu em uma esquina e soltou o focinho da pônei.
-Ela está te perseguindo agora é? –A grifo falou enquanto acendia um cigarro.
-Aparentemente ela descobriu que eu dormi com a assistente dela e quer que a gente passe mais tempo juntas agora. –Lux explicou –Obrigada pelo salvamento, mas você não podia ter sido um pouco menos bruta?
-Vocês pôneis são muito delicadas, você é aquela Lux, certo? Eles deram uma explicação detalhada sobre você mais cedo, parece que você é nossa carga preciosa no momento. Eu sou Rita, capitã do segundo destacamento de tropas leves. –Ela bateu uma continência casualmente, o gesto estava basicamente integrado ao seu comportamento natural.
-Prazer em te conhecer, Rita. Eu não me lembro de ter te conhecido antes, você não é parte da tripulação? –Lux falou, espiando do lado de fora procurando por sinais da princesa.
-Nah, a tripulação são apenas de pôneis, aparentemente nós grifos deixamos vocês desconfortáveis. Nós somos seus guardiões, você não consegue construir algo tão grande assim sem chamar a atenção dos outros poderes. Quer um cigarro? –Ela ofereceu a Lux, o maço seguro em sua longa cauda.
Lux rejeitou prontamente, ela já havia tentado fumar antes, mas a mistura de ervas que eles colocavam nos cigarros normalmente parecia deixar sua magia mais fraca, Rita não insistiu, guardando rapidamente o maço de volta em seu bolso.
-A barra está limpa, vou tentar correr para o meu quarto. –Lux falou vendo que a princesa parecia ter desaparecido. –Obrigada de novo pelo salvamento.
-Sem problemas, guria, logo ela vai desistir da idéia. –Rita falou e deu uma longa tragada.
-Isso acontece muito? –Lux perguntou curiosa.
-O bastante para nós sabermos como lidar com isso, alguns dos soldados a chamam de princess of shipping.
Lux correu de volta ao seu quarto, rapidamente tirou suas roupas e se enfiou debaixo das cobertas feliz por não encontrar Numeric com um grande laço vermelho em sua cama, não que a imagem não lhe agradasse, mas ela não estava pronta para algo assim.
No dia seguinte o treinamento na sala continuou dessa vez, no entanto ela encontrou Numeric esperando por ela dentro da sala.
-Ela te mandou me“ajudar”? –Lux perguntou já imaginando o que mais a princesa faria para tentar juntar as duas.
-Não, eu preciso testar como você manipula a matriz arcana para adequar algumas constantes nas minhas equações. Eu tive uma longa conversa com ela ontem à noite e ela me prometeu que vai parar de tentar.
Lux confirmou com a cabeça e as duas começaram o trabalho, Lux dessa vez começando a conjurar luz arcana, o chão vibrava enquanto energia produzida nos andares inferiores era bombeada através das linhas arcanas e amplificava sua magia, criar a luz era mais simples e a luz produzida era mais poderosa do que ela jamais havia produzido sozinha, mas por várias vezes ela quase perdeu o controle da magia.
Na hora do almoço Lux estava feliz pelo descanso, vários pontos do seu pêlo estavam queimados, como ela havia descoberto a luz que ela estava produzindo também gerava considerável calor, na verdade cada vez mais ela se parecia com uma minúscula estrela do que apenas luz. Numeric havia passado praticamente todo o tempo tomando notas em uma pequena caderneta, algo que Lux nunca havia visto antes.
-Você está indo bem, mas precisa tomar mais cuidado, sua matriz ainda está instável.
-É difícil, eu nunca lidei com nada tão poderoso. Quanto tempo eu tenho para treinar?
-Não se preocupe com isso, nós não vamos lançar enquanto você não estiver pronta.
Depois do almoço Lux continuou seu treinamento sozinha, Numeric tinha que analisar os dados que ela havia conseguido e adaptar eles em suas equações. De noite Lux estava esgotada novamente, ela engoliu sua janta quase dormindo em cima do pote e depois se arrastando para seu quarto, mas no meio do caminho ela encontrou Rita.
-Hey, só um aviso, a princesa da noite deixou uma surpresa no seu quarto. –A grifo falou e Lux resmungou um agradecimento, cansada de mais para uma conversa racional.
Ela entrou em seu quarto, tirou suas roupas, Nox estava lá em cima da as cama esperando, mas ela não tinha tempo para pensar sobre isso, ela simplesmente se enfiou embaixo das cobertas e agarrou Nox como se fosse sua boneca de pano, haveria tempo para discussões e reclamações pela manhã.
Quando ela acordou foi com uma dor de cabeça infernal, Numeric havia falado alguma coisa sobre a possibilidade de microfraturas no chifre causadas pelo stress de lidar com tanta energia. Ela lentamente se levantou, usando seus próprios cascos para colocar suas roupas, todos os outros pôneis já haviam saltado da cama e rapidamente colocavam suas roupas, prontos para ir para suas estações de trabalho. Nox acordou mais lentamente, ela parecia bem disposta como sempre, sorrindo ternamente. Lux suspirou pesadamente.
-Você quer conversar? –Nox ofereceu.
-Na verdade não, mas acho que nós precisamos e depois eu preciso conversar com uma certa princesa sobre se manter afastada da minha vida pessoal. –Lux falou irritada, pensando que talvez conseguisse falar com a princesa durante sua hora de almoço, era comum ver ela almoçando junto dos soldados.
-Ela não fez por mal, ela viveu em uma época diferente. –Nox falou.
-Isso não dá direito a ela de se meter na minha vida dessa forma. –Lux retorquiu.
-Na época em que ela viveu pôneis eram diferentes, ela só quer te ajudar a ser feliz.
Lux suspirou. –E o que você está fazendo aqui?
-Ela veio me procurar ontem pela manhã, disse que tinha uma colocação especial para mim no sistema de reciclo atmosférico de uma missão secreta, eu aceitei na hora, você deve saber como é difícil dizer não para ela. Eu nunca imaginei que você estaria aqui, eu juro! Quando eu cheguei aqui ela me disse que havia um problema com o sistema de alojamentos e que eu teria de dividir a cama com outra funcionária por uma noite apenas.
Lux sentia sua dor de cabeça piorando, de onde a princesa havia retirado uma idéia tão absurda, isso parecia algo saído daquelas novelas românticas que estavam na moda.
-Tudo bem, Nox, eu não te culpo é só que eu ando com tanta coisa na minha cabeça que nem se eu quisesse teria como ter um relacionamento.
-Ela me contou tudo, eu não sabia que era você, mas ela me contou tudo sobre a missão. Você vai realmente fazer isso? –Nox perguntou, orelhas baixas, seu sorriso completamente desaparecido.
-Eu preciso, é o único jeito. –Lux falou simplesmente.
Nox a abraçou forte, envolvendo ela em suas asas.
-Eu vou sentir saudades. –A pegasus falou e Lux ficou aliviada dela não pedir para que ela desistisse.
Lux não queria quebrar o abraço, ela sempre se sentia tão confortável aninhada entre as asas de Nox, em momentos assim ela sentia vontade de beijar a pegasus e simplesmente a pedir em namoro, mas ela sabia que não podia, não deveria, mas mesmo assim era tão tentador simplesmente se deixar levar por essas emoções confortantes.
Uma sirene soou subitamente atraindo a atenção de todos, Lux e Nox olharam ao redor preocupadamente, tentando entender o que estava acontecendo, mas o ar parecia respirável ainda, havia calor circulando pelas paredes, todos os sinais de perigo que elas haviam aprendido a reconhecer pelos anos pareciam normais.
-Rápido, venh... –Rita apareceu na porta usando armadura completa e com um pesado rifle nas costas, ela chamou pelas duas, mas parou subitamente ao vê-las abraçadas de forma tão intima.
Lux e Nox se separaram rapidamente e terminaram de colocar suas roupas sob a vigia da grifo.
-Nós temos de correr. –Rita falou enquanto as guiava pelos corredores que agora se enchiam de grifos em armadura e carregando armas pesadas. –Tivemos perturbações nos sensores externos.
-Onde nós estamos indo? –Nox perguntou.
-Vocês estão indo para a Luciferious, ela é provavelmente o lugar mais seguro em toda essa instalação, eu vou ter certeza que vocês estejam seguras e depois retorno para o meu posto.
A grifo apressou as duas pôneis através do complexo e para a nave colossal, Nox que nunca havia visto a nave ainda hesitou um instante ao ver seu tamanho, mas Rita não tinha tempo a perder, cutucando ela para que continuasse a andar mais rápido. Ela levou as duas para dentro e através de diversas estranhamente construídas, para Lux e Nox as salas pareciam estar invertidas em 90º, como se quem havia feito a nave esperasse que elas vivessem nas paredes. Para a grifo e a pegasus manobrar era fácil, mas para a unicórnio era complicado prosseguir pelos corredores subindo rapidamente pelos andares. Uma nova sirene tocou, essa parecia ainda pior que a primeira, Rita parou lívida ao ouvir.
-A Horda está atacando. –Ela falou, e apertou firme seu rifle contra o corpo.
Os primeiros sons de explosões vieram rapidamente e logo depois os urros da Horda.
Changelings uma vez foram criaturas sutis, que trabalhavam nas sombras e sutilmente roubavam o amor de suas vítimas, mas com o decaimento da magia, eles acabaram mudando, evoluindo. Incapazes de beber as emoções de sua vítima ou de se disfarçar, eles começaram a perder força e muitos pensaram que toda a espécie estaria morta em uma geração, mas os changelings famintos acabaram perdendo sua capacidade de raciocínio, ao invés disso devorando a carne dos pôneis, mas mais do que isso eles pareciam infectar cada pônei mordido ou mesmo um pônei que passasse muito tempo perto deles começava a mudar. Eles não eram um inimigo normal, eles eram uma força da natureza que trazia destruição e morte para qualquer nação ou raça que eles tocavam, eles continuavam se multiplicando, aparentemente imunes ao frio, enquanto as raças mortais definhavam, eles cresciam devorando os restos da civilização. Se nada mudasse eles seriam provavelmente a última herança de Equus.
-Vai tudo ficar bem! –Rita falou nervosa, Nox e Lux não acreditavam nela.
As luzes começaram a piscar por toda a base, se apagaram completamente e então voltaram a ligar quando os geradores da Luciferious se ativaram, a nave sentindo o ataque começou o processo de isolamento.
-Droga... –Rita praguejou. –Vocês precisam ir até a cadeira de comando agora.
-O que aconteceu? –Nox perguntou.
-A nave está se isolando do resto do complexo, vocês precisam anular essa ordem ou os outros tripulantes não vão conseguir entrar! Eu vou para a entrada, ter certeza que só os pôneis entrem!
Lux e Nox concordaram e começaram a subir enquanto Rita checava sua munição e mergulhava pelo poço para a entrada principal. Nox subiu rapidamente com suas asas, ela sentia suas asas doendo, ela nunca havia voado por tanto tempo, em geral ela usava sua magia apenas para controlar a corrente de ar e purificar o ar, havia tão pouco espaço para voar nas cidades e muito menos razão. Lux se esforçava com as escadas, era difícil lidar com tantas escadas.
A sala principal de controle estava confortavelmente construída no centro da estrutura, protegida por pesadas paredes de aço ao seu redor, construída usando o ápice da tecnologia de informação de Equestria, no centro da sala estava o trono de comando uma relíquia encantada do passado, algo construído para se ligar ao seu usuário e fornecer a ele informações de qualquer lugar na nave.
Nox se sentou imediatamente na cadeira de comando e quase vomitou quando toda a informação era transmitida diretamente para sua mente através do trono de cristal, a marca da estrela no trono brilhando conforme energia arcana fluía através dele.
Ela via tudo, sentia tudo. A nave era como uma entidade viva como se fosse seu próprio corpo, ela subitamente se sentiu com medo de mexer qualquer parte do seu corpo, talvez um pequeno movimento de suas asas pudesse enviar toda a nave em uma reação em cadeia que ela não teria como controlar. Ela inspirou profundamente e se concentrou nos dados visuais, procurando até encontrar Rita em frente a uma pesada porta de aço, ela pensou em abrir a porta e a porta começou a se abrir.
Rita orava silenciosamente para o Senhor dos Ventos ao mesmo tempo se xingando por acreditar nas velhas tradições, o Senhor do Vento não existia mais, toda a cultura do seu povo estava reduzida a fragmentos e memórias mal-lembradas, tudo que sobrava atualmente era o fervor militar, uma busca incessante por glória em combate e uma quase devoção aos pôneis, seus salvadores.
As portas começaram a se abrir rapidamente e ela se colocou em posição, um joelho no chão e seu rifle seguro em suas duas patas, cobrindo a entrada. Os primeiros pôneis vieram correndo e eles contavam histórias assustadoras do que estava acontecendo com o resto da construção. Pouco depois vieram as primeiras criaturas da Horda, horríveis pôneis insetóides deformados, mas ainda reconhecíveis, sua pelagem colorida meio devorada pela carapaça de quitina, suas faces distorcidas pelos grandes dentes afiados que cresciam em suas bocas, alguns ainda tentavam falar, mas a maior parte simplesmente se resumia a grunhir e rugir.
A primeira lição ao lutar a Horda era nunca tentar imaginar o que eles haviam sido antes, se concentrar no que eles eram agora. Não importa se eles fossem meio grifos ainda usando seus uniformes de combate, não importa se ele se parece com seu pai e está tentando dizer que te ama, você não pode processar nada disso, você simplesmente dispara e continua disparando até eles todos morrerem. A pegadinha era que eles nunca morriam completamente, sempre havia mais deles para preencher o lugar dos mortos.
Rita respirou fundo, a maior parte deles eram pôneis e isso facilitava a coisa. Ela disparou de novo e de novo em rajadas curtas de três tiros, mais pôneis entravam, mas ela se perguntava quantos deles eram realmente necessários para pilotar a nave, qual era o número mínimo que ela precisava alcançar para que a missão tivesse sucesso?
Ela trocou o clipe de munição por um novo e continuou disparando, não havia fim para a Horda, mas havia para a munição dela. Onde estava o resto da sua tropa? Eles deviam estar recuando... Claro! O sistema de propulsão da nave, nenhum deles iria se aproximar da Luciferious e ela própria não tinha como se afastar o suficiente para sobreviver.
Ela trocou seu último pente, um pônei diferente corria para a entrada, caçado de perto por mais criaturas da Horda... Não um pônei, mas uma zebra! Ela se chutou mentalmente por não reconhecer ele de primeira, malditos pôneis tão similares um aos outros! Ele era essencial para o projeto, ela se chutou mentalmente de novo, dessa vez pulando sobre as criaturas, seu rifle disparando em automático, não havia tempo para mirar e de qualquer forma havia criaturas de mais para ela errar.
Ela agarrou o zebra pelo pescoço e o jogou para mais perto da entrada, usando seu rifle como um bastão, quebrando cabeças e dilacerando gargantas com suas garras, mordendo com seu bico para arrancar olhos, usando suas asas para empurrar seus inimigos para longe, mas ela sabia que aquele era o final.
Sonic boom! Pedaços de metal eram acelerados além da velocidade do som, obliterando praticamente tudo em seu caminho, Rita viu as criaturas sendo destroçadas pelos projéteis que choviam sem cessar, ela tentava imaginar que arma poderia ser aquela, nem mesmo os maiores canhões portáteis tinham esse poder de fogo! Foi então que ela viu surgindo do meio das criaturas uma figura azul marinho circundada por um anel de pedras comprimidas com tanta força até que se tornassem como diamantes, seu chifre brilhava intensamente e a todo instante milhares de fragmentos de pedras ultra-densas eram arremessadas a velocidades supersônicas! Naquele momento, Rita entendeu por que os pôneis acreditavam que Luna era uma deusa, mesmo depois de todos esses anos de magia decrépita ela ainda tinha força suficiente para exterminar as criaturas como se fossem nada.
-RECUE, MINHA LEAL SERVA!- Luna falou na voz real de Canterlot, ela se sentia viva como poucas vezes antes, ela sabia que não poderia se manter assim por muito tempo, suas reservas arcanas estavam se esgotando, provavelmente ela só tinha o suficiente para um último truque, mas seria um truque que ninguém iria esquecer tão cedo.
Rita se jogou dentro da estrutura e a porta se fechou atrás dela com força, toda a estrutura estava selada e então um suave brilho azul cobriu a estrutura e de forma impossível ela se ergueu do solo. Dentro da nave todos repetiam as mesmas palavras de incredulidade, aquele era o poder da princesa da noite, erguendo sozinha uma construção que provavelmente pesava mais do que uma cidade inteira.
Luna sorriu, ela ainda conseguia, mesmo depois de todos esses anos, mesmo depois de todas as dificuldades! O teto desabou e ela quase chorou ao ver as estrelas, tantos anos desde que ela havia as vistos pela última vez! Com toda sua força ela arremessou a nave para cima, para longe do centro gravitacional do planeta.
-Vão meus pequenos pôneis, salvem a todos nós! –Ela sussurrou, enquanto deixava seu corpo cair, sem mais energias para lutar contra a gravidade, contra o frio e a falta de ar. Apesar de tudo havia sido uma boa vida, mas agora era hora de descansar.
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Friendship dies and true love lies,
Lux sorriu por um momento quando seu corpo perdeu todo o peso, ela estava flutuando quase como se fosse uma pegasus, com certa dificuldade a principio ela manobrou para cima em direção ao centro de comando. Nox ainda estava sentada na cadeira, seus olhos brilhavam com toda a informação que fluía através de sua mente.
-Eu posso ver tudo. –A pegasus murmurou.
-Você está bem? –Lux perguntou.
-Eu me sinto... menos. –Nox falou lentamente. –É difícil, são muitas informações, muito poder, mas eu preciso lembrar quem eu sou, o que eu sou. Gravidade!
A nave inteira tremeu e gemeu conforme suas seções começaram a rotar em velocidade crescente, Lux se sentiu aos poucos cada vez mais atraída ao chão que antes havia sido as paredes, ela agora entendia a lógica envolvida na construção da nave.
-Nós temos convidados. –Nox murmurou.
A porta da sala de controle se abriu para uma Rita gravemente ferida, sangue escoria de dezenas de cortes grandes e pequenos, metade da sua armadura estava faltando, sangue escorria de seu focinho e sua asa direita estava muito machucada, em vários pontos era possível ver o branco dos ossos.
-Nós temos problemas. –Ela falou.
Alguns minutos mais tardes eles estavam todos reunidos na sala comunal, era incrível como espaço era complicado de se ter a bordo de uma nave tão grande, mas a maior parte de seu espaço era dedicado aos tanques de combustível, motores, jardim hidropônico, sistemas de reciclagem e a oficina que poderia reparar praticamente qualquer peça defeituosa, para a tripulação sobravam um pequeno quarto particular, uma cozinha e sala comunitária e pouco mais. Agora eles se reuniam na sala e cozinha comunitária, o único lugar que poderia abrigar os cerca de quarenta pôneis a bordo da nave.
-Muitos de vocês não deveriam estar aqui. –High Command falou, ela era a pônei de mais alta patente entre os sobreviventes. –A verdade é que nem mesmo eu deveria estar aqui, pessoas que havia treinado por anos para estar aqui não conseguiram chegar e a nossa realidade é que enquanto temos combustível e recursos para cumprir a missão, a verdade é que provavelmente não teremos recursos para retornar para Equestria.
Grunhidos descontentes vieram da tripulação improvisada.
-Se acalmem, nós estamos fazendo o possível para achar uma solução para esse problema. Nós estamos fazendo novas estimativas e possíveis mudanças de rotas, mas eu devo estressar aqui que a missão é mais importante, todos vocês sabiam dos riscos quando se alistaram para essa missão e entendem o que está em jogo aqui. –High continuou apesar dos sons de descontentamento vindos da tripulação.
-Vocês todos terão a oportunidade de enviar mensagens para seus familiares em qualquer uma das cidades. –Numeric falou de seu lugar ao lado de High Command. – No próximo dia vocês também receberão suas tarefas designadas, nós ainda temos muito a descobrir e muitos dados a analisar, mas iremos fazer o melhor que pudermos diante da situação.
Pela tarde as filas se formaram ao redor da pequena sala de comunicação, uma das pôneis, chamada Graveyard Slot, se mostrou capaz de operar e sintonizar o rádio corretamente e logo conseguiu entrar em contato com as cidades.
Lux aproveitou o tempo para conhecer o jardim hidropônico, não havia ninguém em Equus com quem ela desejasse conversar.O jardim era lindo, algo que parecia saído de um conto de fadas, ele era tão verde e as plantas eram tão grandes, não a proteína unicelular em geral produzida nas cidades, mas plantas verdadeiras, o tipo que só se conseguiria no mercado negro. Ela olhou maravilhada para as cenouras e as batatas, foi entre elas que ela encontrou Zura.
-Não vai conversar com a sua família? – O zebra perguntou, ele estava cuidando de uma pequena planta solitária.
-Meus pais morreram há muito tempo e a única pônei que se importa comigo está nessa nave. –Lux explicou.
-A pegasus que Luna colocou em seus aposentos? –Ele perguntou enquanto regava a planta.
-Todo mundo ficou sabendo dessa história? –Lux perguntou envergonhada.
-Luna nunca foi uma princesa sutil. –Ele respondeu com um sorriso. –Qualquer dia eu te conto as histórias de quando ela tentou me arranjar um garanhão ou uma égua.
-E você, não vai conversar com ninguém? –Lux perguntou.
-Minha única família e amigos são zebras, eles nunca iriam aceitar conversar comigo depois de eu ter traído nossa nação dessa forma. Desde que eu vim às cidades pôneis eu tenho gasto a maior parte do meu tempo trabalhando nos motores da Luciferious e depois no escudo primário da Luciferious II.
-Por que você abandonou sua família? Você parece sentir saudades deles.
-É claro que eu sinto, mas eu estou fazendo isso por eles. Tudo começou com plantas como essa, sabia? –Ele apontou para o pequeno vegetal que ele tanto cuidava.
-Como assim?
-No princípio zebras sofriam para tolher o solo e os pôneis conseguiam fazer isso facilmente graças a sua magia inata, mas as zebras aprenderam segredos do solo e das plantas que pôneis nunca nem mesmo iriam imaginar. Nós aprendemos como fazê-las crescer, como fazê-las desabrochar e como produzir frutos mais suculentos, mas fomos, além disso, descobrimos segredos das doenças que nos afligiam e como combater, por fim nós desvendamos os segredos da própria matéria e da magia. Pouco antes da catástrofe nós começamos a experimentar com usinas que transformavam matéria em energia, depois da catástrofe nossa nação toda começou a ser energizada por esse método, algo que nós chamamos de energia nuclear.
-Nuclear? –Lux perguntou, ela nunca havia ouvido essa palavra antes.
-Sim, outra hora eu posso tentar te explicar, mas em resumo essas usinas usam minérios especiais para conseguir gerar quantidades extraordinárias de energia, muito mais que suas usinas a carvão ou diesel. Durante anos depois da catástrofe nós desvendamos os mistérios das estrelas e criamos uma nave teórica que poderia viajar entre elas, foi então que Luna veio a nós, ela precisava da nossa nave, da nossa tecnologia para salvar o nosso mundo.
-E o que aconteceu?
-Nossos líderes concordaram, nós entregamos nossa maior nave em construção, aquela que viria a ser a primeira Luciferious. Infelizmente a missão foi um fracasso, ninguém sabe o que aconteceu com ela, mas os líderes entre as zebras culparam Luna e os pôneis pela falha, quando eles anunciaram que iriam parar completamente com a cooperação eu fugi para as cidades pôneis.
-Você não se arrepende disso? –Lux pensava se ela teria tido coragem de dar as costas às cidades da mesma forma que o zebra havia feito com sua nação.
-Todo dia, mas eu fiz o que era necessário. –Ele olhou para sua planta solitária, Lux olhou para a planta, ela era diferente das outras, tinha pétalas brancas e parecia não produzir nenhum tipo de alimento. – Quer ver uma coisa incrível? –Ele perguntou com um sorriso.
Lux concordou com a cabeça e o zebra a levou através dos corredores e estranhos caminhos da nave, indo em direção ao escudo primário, eles entraram através de uma pequena porta discreta e o zebra mexeu em um painel ao lado da porta.
Eles entraram em uma pequena sala com cadeiras e uma grande janela que cobria toda uma parede, através dela Lux conseguia ver as estrelas e um estranho ponto escuro na noite.
-O que é isso? –Ela perguntou olhando através da janela para o ponto negro, ele parecia chamar por ela.
-Isso é o sol, pelo menos o que resta dele, pelo que nós conseguimos estimar ele ainda está emitindo cerca de 5% de luminosidade, quanto mais nos aproximarmos, mais brilhante ele irá parecer.
Lux andou até a janela e estendeu seu casco, como se querendo tocar a estrela, sentindo apenas o vidro frio sob seus cascos.
-Hmm, eu acho que estão me chamando no jardim! –Zura falou subitamente e saiu correndo.
Lux precisou de alguns instantes para perceber que não apenas o zebra havia saído, mas uma certa pegasus estava na porta.
-Lux... Eu estava te procurando. –Nox falou, ela falou, mas sua visão foi cativada pelas estrelas que brilhavam através da janela.
Silenciosamente as duas ficaram por alguns minutos observando as estrelas e o sol decaído, apreciando a beleza celestial que nunca poderiam ter apreciado nas cidades, ela olharam uma para outra por um momento vendo refletidas em seus olhos a luz celestial, elas sorriram. Alguém limpou a garganta sonoramente para anunciar sua presença, as duas olharam para trás e viram Numeric parada na porta, com uma prancheta segura em seus cascos.
-Certo! Eu precisava falar com você! –Nox falou, quebrando o momento.
-Eu estou fazendo a distribuição de quartos e precisava saber se vocês não se importam de ficarem juntas. –Numeric falou.
-Claro. –Lux falou.
-Não. –Nox falou decidida.
Numeric olhou de uma a outra, Lux olhava um tanto espantada para Nox e a pegasus tinha uma mistura de raiva e tristeza em seu semblante.
-Eu vou deixar vocês duas conversarem e depois volto para resolver isso! –Numeric falou rapidamente e saiu de lá antes que ela fosse envolvida em uma discussão sobre a qual sabia praticamente nada.
-Nox... –Lux começou.
-Não, Lux. –Nox a interrompeu bruscamente. –Não, eu não vou agüentar dividir a cama com você por oito anos se for para sermos apenas amigas com benefícios, se você não quer um relacionamento tudo bem, mas eu quero! Eu nunca te pressionei a nada, sempre te respeitei e fiquei quieta quando você começou a namorar aquele traste do Ruby, então me respeita agora.
Lux rilhou seus dentes enquanto Nox falava. Ela abriu sua boca para responder, mas fechou logo em seguida, não havia o que ela poderia dizer, todos esses anos ela havia tentado preservar Nox, ela tinha certeza que do momento em que ela começasse a namorar, a pegasus iria reparar o engano terrível que ela tinha feito, que a unicórnia não valia tanto esforço... Não, era melhor assim.
-Tudo bem, Nox. –Lux falou forçando um sorriso.
A pegasus encarou Lux por um momento, apenas alguns instantes em que a unicornio acreditou que iria desabar, seu coração parecia ter perdido uma batida, quando a pegasus se retirou, Lux se sentou no chão com as costas contra a parede e deixou suas lagrimas fluírem, ela havia nutrido sentimentos por Nox desde o dia que se conheceram, no começo apenas como amigas, mas a cada namorado ou namorada com que ela terminava apenas lhe mostrava o quanto Nox era especial, a pegasus sempre alegre, sempre carinhosa. As vezes ela fantasiava em como seria namorar com Nox, mas não ela não tinha esse direito, ela só machucaria a outra fêmea, ela tinha certeza disso, se qualquer coisa seu relacionamento com Ruby havia provado que ela não tinha a capacidade de manter um namoro sério... Não, apenas em seus momentos de fraqueza, em geral quando estava embriagada, ela se rendia a pegasus, sempre se sentindo mal, por tantas vezes ela tentou se distanciar de Nox, mas a pegasus tornava isso tão difícil, sempre com seu jeito carinhoso e seus sorrisos, seus abraços quentes que a faziam esquecer o frio do mundo.
Não, ela já havia feito de mais pela pegasus, era melhor que ela mantivesse sua distância.
Numeric apareceu na porta, um tempo indefinido depois.
-Você está bem? –Ela perguntou a Lux.
-Foi melhor assim. –Lux falou timidamente entre suas lágrimas. –Eu só ia acabar machucando ela.
Numeric a socou com seu casco, Lux caiu no chão olhando incrédula para a pônei terrestre.
-O... O q –Lux começou, sua voz tremulante.
-Você está sendo idiota! Sério, você vai ficar ai dizendo que está poupando ela, mas a verdade é que você está com medo! Será que você não vê o quanto está machucando ela desse jeito?
-Você não entende, Numeric! –Lux protestou.
-Você realmente acha que eu não entendo? Que eu nunca morri de amores por alguém que eu nunca poderia ter? A diferença é que pelo menos ela retribui seus sentimentos, a única coisa impedindo vocês de serem felizes é sua insegurança! E a propósito você vai dividir o quarto comigo.
Numeric se virou nervosa para sair, mas antes que ela chegasse à porta Lux falou.
-Quem era?-Ela se levantou, ainda tremula. –A pônei que você amava?
Numeric suspirou pesadamente, lágrimas escorrendo dos cantos dos seus olhos.
-Luna. - Ela falou em um quase sussurro.
Numeric saiu andando cabisbaixa, Lux esperou mais um tempo na sala de observação.
Rita entrou desesperada, ela não usava mais sua armadura, mas tinha sua pistola segura entre suas garras, ela tinha várias bandagens cobrindo seu corpo e especialmente suas asas.
-Nós temos uma emergência! Tem um changeling a bordo! –Ela falou desesperada.
-Como você sabe? –Lux perguntou assustada.
-Eu consigo ouvir ele, ele está dentro da minha mente! –Ela falou, seus olhos estavam extremamente dilatados.
-Rita, por favor, você precisa descansar! Devem ser os medicamentos. –Lux olhou para arma, pensando se ela conseguiria arrancar ela da pata de Rita antes que ela disparasse.
-Não, você não entende. Eu já tomei analgésico o suficiente para saber como são os efeitos, isso é diferente, ele está entrando na minha mente, me devorando por dentro, mas antes disso eu vou achar ele e matá-lo! Eu preciso da sua ajuda, agora! –Ela falou freneticamente.
Antes que pudesse entender o que estava acontecendo as duas estavam correndo em direção aos motores, Lux pensando que se pelo menos Rita perdesse a razão completamente, ela estaria por perto para impedir ela de machucar algum pônei inocente. Volta e meia Rita simplesmente parava e ficava olhando ao redor, como que farejando o ar por rastros da criatura.
-Rita, você conhecia a princesa por muito tempo? –Lux perguntou, tentando quebrar a tensão da situação.
-Sim, forças especiais missões por toda parte respondendo diretamente a princesa. –Ela falou rapidamente e sem pausas, havia algo de sério com ela, aquela não era mais a Rita calma e focada de antes, ela estava correndo contra o tempo, algo a estava consumindo, olhando através de uma esquina enquanto elas entravam na sala de máquina, os gigantescos motores retumbando violentamente.
-Como ela era? –Lux perguntou.
-Agradável solitária impiedosa. Lado ruim e lado bom, maior parte do tempo lado bom. –Rita respondeu quase antes de Lux terminar a pergunta. –Sente falta da irmã.
Lux abriu a boca para responder algo, quando um outro pônei apareceu.
-Ei senhoras, vocês precisam sair daqui. Sem pessoal não autorizado nessa área. –O pônei engenheiro falou.
-Ali! – Rita gritou e apontou para trás do engenheiro, ele tentou se virar para ver o que era, mas era tarde de mais, o changeling mutante aterrissou sobre ele com garras e dentes, arrancando um belo naco da carne do pescoço do pônei e comendo com muito gosto.
Rita atirou duas vezes com a pistola antes mesmo que sua mente consciente pudesse entender o que estava acontecendo, a criatura cambaleou, mas rugiu e pulou sobre a grifo. Lux fez seu chifre brilhar com toda sua força, disparando um raio ardente contra a criatura, apenas uma variação de sua magia habitual de luz, algo que ela havia pensado durante suas seções na sala de mega-feitiço.
O changeling guinchou horrivelmente enquanto sua carne queimava, Rita não perdeu pulando em cima dele com suas garras, dilacerando sua armadura de quitina e a carne aberrante por baixo, a criatura revidou, suas garras afiadas retalhando cegamente contra Rita. A grifo em um impulso primitivo usou seu bico contra o olho multifacetado da criatura, pus explodiu da órbita.
Rita se levantou com um urro vitorioso, a cabeça da aberração em suas patas, ela arfava e sangrava, quase todas as suas feridas haviam se reaberto e agora ela tinha ainda mais, sua asa esquerda pendia presa apenas por músculo.
-Rita, nós precisamos ir para a médica, rápido! –Lux falou apressadamente.
-Não... Não, ainda tem mais um e foi para isso que eu te trouxe. –Rita jogou a cabeça junto dos restos da criatura e puxou sua pistola, se certificando de que ainda tinha munição.
-Vamos trazer outros aqui para te ajudar. –Lux falou.
-Não, eu consigo cuidar da última criatura sozinha... Lux, por favor, se lembre disso. –Ela ergue a pistola contra sua cabeça e puxa o gatilho.
Lux quase caiu ao ver a grifo morrer tão... estupidamente. Não, ela não podia estar morta! Lux correu para a grifo, tentando acordar ela entre suas lágrimas.
-Por favor, acorda! Acorda! A gente precisa de você! –Lux gritou enquanto a chacoalhava futilmente.
Eles a encontraram algumas horas depois, chorando em meio a carnificina, Numeric e uma unicórnio chamada Copper Pattern levaram Lux para se lavar enquanto outros cuidavam dos restos mortais, uma das pegasus, Mirk Whispers, recitou uma prece pela alma de Rita, do engenheiro que havia se chamado Golden Spanner e de quem quer que a criatura tivesse sido um dia, para que ambos encontrassem seu descanso eterno ao lado de Celestia. Os restos mortais dos três foram alimentados ao motor, vaporizados em um instante nas chamas, seus corpos reduzidos a poeira galáctica que quem sabe um dia não poderia vir a se tornar uma nova estrela.
Naquela noite Mirk Whispers veio conversar com Lux, a unicórnia ainda estava abalada da experiência e Numeric precisava correr para seu posto de trabalho.
-Ela me pediu para nunca esquecer. –Lux murmurou.
-Ela não vai ser esquecida, quando puder eu mesma vou transmitir sobre a bravura dela defendendo a nave até o final para as cidades. –Mirk a assegurou.
-Não... Não é isso, ela sabia o que eu ia ter que fazer no final da missão, vocês ainda tem uma chance de voltar, mas eu nunca vou ver o sol brilhando em toda sua glória. Eu vou ter que puxar o gatilho da mesma forma, eu vou ter que morrer da mesma forma.
Mirk a abraçou forte, ela queria dizer alguma coisa, confortar ela de alguma forma, mas aquilo de certa forma era verdade, todo o ponto da missão era aquilo, ela e todos os outros só estavam ali para assegurar que ela chegasse segura ao seu destino.
Lux chorou no ombro dela subitamente todo o peso da missão vinha caindo sobre seus ombros, ela não queria morrer, ela queria ter uma vida longa e ter muitos filhotes ainda. Mirk a consolou silenciosamente, completamente perdida por palavras ela se se resumiu a confortar com seu calor. Lux chorou silenciosamente, sua mente rodando em circulos sobre seu dever para com todo mundo, seu medo da morte e a morte de Rita, tão estúpida, mas ao mesmo tão inevitável.
No dia seguinte Zura a acordou cedo, insistindo que ela o acompanhasse para alguns testes no escudo primário, eles andaram rapidamente toda a extensão da nave, Lux se cansando rapidamente, apesar da noite de sono ela não havia realmente descansado, seus sonhos haviam sido agitados e tensos, cheios com cenas de morte e sangue.
Por dentro do escudo primário tudo parecia apenas uma gigantesca sala que se estendia além do que seus olhos podiam perceber, apenas uns pequenos corredores estavam realmente pressurizados, apenas quando ela olhou mais de perto para o chão de metal cinza ela percebeu as intricadas linhas arcanas correndo por toda a superfície.
Ela tentou calcular o tamanho daquilo, mas toda vez ela acabava em números que não faziam sentido, se aquilo tudo era uma sala de mega-feitiço ela era provavelmente maior que toda a cidade! Ela começou a hiper-ventilar pensando em como ela poderia controlar tudo aquilo se ela mal conseguia utilizar a sala de treinamento! Subitamente as palavras de Luna voltaram a sua mente, aquelas salas funcionavam em uma escala logarítimica! Ela parou subitamente, a idéia do poder contido dentro dessas paredes a assustava, não era possível, não podia ser real!
-Você está bem? –Zura perguntou, colocando um casco sobre seu ombro.
-Eu não vou conseguir! –Lux gritou. –Eu não vou conseguir! Desculpa, mas eu não vou está bem! Isso é grande de mais para mim! Nenhum pônei vivo conseguiria controlar isso tudo!
-Respira fundo, eu sei que isso pode assustar a princípio, você vai se acostumar.
-Qual é o tamanho dela? –Lux perguntou respirando fundo.
-A sala de mega feitiços tem uma área de 60 quilômetros quadrados. Ela é energizada por 6000 detonações nucleares simultâneas, cada detonação liberando aproximadamente 5x1017 joules de energia que serão convertidos com 75% de eficiência em pura energia arcana.
-Não... Isso é muito grande, tem de ter outro jeito! A gente tem que voltar, não tem como isso dar certo! –Lux falou desesperada.
-É impossível voltar, a nave não foi feita para reentrar na atmosfera e não existe nenhum outro veículo no planeta capaz de atingir vôo espacial. Esse é o único plano que nos resta desde que nós perdemos a primeira nave.
-A primeira nave?
-Sim, a Luciferious I tinha um escudo primário menor, ele usava bem menos energia, mas nós tínhamos um catalisador melhor.
-Como assim? –Lux perguntou curiosa, sua respiração se regularizando.
-Na Luciferious I nós usamos os elementos da harmonia como catalisadores secundários, elas diminuíam incrivelmente a necessidade de energia.
-Mas elas não estão mortas?
-Ah claro, mas aparentemente a interação com a energia dos elementos modificou suas portadoras permanentemente, mesmo seus esqueletos eram incríveis catalisadores arcanos, nós tentamos recuperar o esqueleto da princesa Celestia também, mas foi impossível, Canterlot desabou e estava mergulhada em um mar de nitrogênio líquido.
Lux olhou para ele por um instante, como que desafiando ele a dizer que aquilo era tudo uma piada de mau gosto, a idéia de que alguém poderia tão facilmente profanar os corpos das seis portadoras dos elementos dessa forma era impensável e ainda mais mencionar casualmente os restos mortais da princesa! Não, aquilo tudo deveria ser uma piada...
O zebra a levou até o perfeito centro da estrutura onde havia uma pequena alcova construída com duas cápsulas. Lux examinou o lugar minuciosamente, examinando as cápsulas, uma delas era feita para unicórnios, com estranha maquinaria que ela deveria acoplar ao seu chifre provavelmente, de certa forma aquilo lembrava a ela os aparatos usados no setor arcano, mas ao mesmo tempo eram diferentes. A segunda cápsula era ligada a diversos computadores enormes e o capacete parecia cobrir a visão do pônei que o usasse.
Ela engoliu a seco pensando que aquele seria seu caixão, mas também que ela não estaria sozinha, a visão da segunda cápsula a fez se lembrar que outra pônei estava destinada ao mesmo fim que ela.
-Como vai acontecer? –Ela perguntou tentativa, talvez sabendo como acontecesse a daria mais confiança.
-Nossas melhores predições calculam que do momento que nós nos separássemos do escudo primário vocês vão começar uma queda em direção ao centro da estrela, atravessar a nuvem de magia negra que o envolve e em treze minutos e dezessete segundos vocês estarão no ponto ótimo para detonação. O problema é que ninguém sabe como o sol está por baixo da cobertura de magia negra, eu vou precisar ajustar os meus cálculos quando estivermos mais próximos.
-Vai doer? –Lux se deitou na cápsula que estava destinada a ela, tentando se acostumar à sensação.
Zura engoliu a seco. –Não, vai ser instantâneo. Nós vamos saber se a missão deu certo praticamente ao mesmo tempo e oito minutos depois a população de Equestria. –Ele respondeu incerto, tudo era mais fácil quando ele se limitava as suas equações e teorias.
Lux respirou fundo, aquela era uma cripta adequada, silenciosa e de certa forma bela, se ela tivesse que morrer certamente seria um bom lugar. Sua mente se enchia de pensamente sobre seu fim certo, será que ela deveria escrever um testamento? Besteira, quem iria querer seu casaco velho e sua meia dúzia de itens pessoais. Talvez escrever algo grandioso para ser transmitido de volta as cidades depois que ela morresse? Ela afundava cada vez mais, pensando nas preparações que faria para seu próprio enterro, mas como que sentindo sua depressão uma voz irrompeu através do sistema de rádio.
-Bom dia, Luciferious! –Nox declarou com toda sua energia habitual. –Eu venho até vocês através das graças de nosso capitão Vapor Trail! Ele me deu permissão para usar o sistema de rádio interno para transmitir notícias e músicas! Então para começar desfrutem de “Let the Sunshine in”.
Música encheu o ambiente e Lux teve de rir para si mesma, mesmo agora aquela pegasus ainda a fazia sorrir. Ela se levantou da cápsula, ainda faltavam muito tempo até sua morte, ela precisava se recompor e lidar com isso. Ela respirou fundo e começou a andar de volta para o corpo principal da nave.
Nox sorria em sua pequena sala, o lugar havia sido rapidamente convertido em uma estação de rádio interno com a ajuda de Copper Pattern e agora ela a unicórnio reviravam os velhos discos que haviam sido estocados a bordo da nave, eles haviam preparado uma boa seleção para a tripulação, originalmente era esperado que eles devessem ser ouvidos apenas na sala comum, mas com um pouco de trabalho as duas conseguiam transmitir para praticamente toda a nave, até mesmo conseguindo escolher para que áreas específicas elas estavam transmitindo, permitindo assim que pudessem respeitar os turnos de descanso dos pôneis. Enquanto as músicas tocavam, Nox examinava a lista de notícias que ela tinha para transmitir, poucas delas eram boas notícias e ela tentava imaginar como falar sobre elas de maneira mais positiva possível.
Três batidas na porta a arrancaram de sua lista, ela pulou animada para ver quem poderia ser, será que ela já tinha alguma fã louca querendo seu autógrafo? Ela riu de si mesma e abriu a porta apenas para ser surpreendida por um beijo longo e apaixonada em sua boca.
Ela arregalou seus olhos surpresa, olhando para Lux, ela nunca a havia beijado dessa forma, mesmo em seus momentos mais bêbados, ela sempre havia evitado qualquer coisa do tipo.
-Nox eu te amo! – Lux falou rapidamente antes que perdesse a coragem.
-O que? –A pegasus perguntou espantada.
-Eu te amo! – Lux falou de novo, mais certa dessa vez.
-Copper, você pode cuidar da rádio um momentinho?- A pegasus falou para a unicórnio que confirmou com a cabeça.
As duas fizeram seu caminho até a sala de observação onde poderiam ficar sozinhas.
-O que aconteceu, Lux, por que você mudou de idéia? –Nox perguntou.
-Eu vou morrer, Nox, no final dessa jornada eu vou morrer e nada pode mudar isso. Todos esses anos eu pensava que não era boa o bastante para você, que ia acabar te machucando, mas se isso for ser minha última chance de ser feliz, eu quero que ela seja com você, eu quero tentar ser a melhor égua que eu puder para você!
Naquele momento começou a tocar “Mares Just want to have fun” e Nox sorriu e beijou Lux apaixonadamente.
-Sua boba, você já é a melhor égua para mim!. –Nox falou quando seus lábios se separaram.
Elas se beijaram por um longo tempo e depois ficaram olhando as estrelas, despreocupadamente até que Nox teve que se levantar.
-Eu preciso ir cuidar do rádio! A Copper não tem as notícias. –Ela explicou ao se levantar.
-Eu vou falar com a Numeric sobre os nossos quartos, te encontro durante o almoço?
Nox concordou e beijou uma última vez antes de se virar para ir embora.
-Nox! O seu flanco! –Lux falou surpresa ao notar a imagem de uma nota musical branca que havia aprecido no flanco da pegasus.
A pegasus olhou admirada para seu próprio flanco, admirando sua marca.
-Nós temos de comemorar isso hoje a noite! Me encontra no meu quarto mais tarde? –Nox perguntou.
-Claro, eu vou tentar arranjar algo especial para nós! –Lux confirmou.
Lux caminhou até a sala comunal onde Numeric e outras duas pôneis estavam enfurnadas entre placas de bronze e folhas de papel, perdidas em suas equações e calculos.
-Numeric, eu precisava te pedir um favor. –Lux falou tentando chamar a atenção da pônei terrestre.
-Você e a Nox querem dividir um quarto? Já arranjei isso umas duas horas atrás. –Ela respondeu sem parar de analisar atentamente uma folha de bronze.
Lux levantou uma sombrancelha um tanto incrédula e Numeric abaixou a sua folha de bronze.
-Era lógico o que iria acontecer, então eu já adiantei a burocracia, pode se mudar para lá a qualquer momento, depois se você puder vir me ajudar eu agradeço, precisamos reorganizar nossos suprimentos e detalhar um plano para conservar comida.
Lux correu até o quarto que ela estava dividindo com Numeric e pegou suas possessões que na verdade se resumiam ao seu segundo casaco e colocou ele no quarto de Nox, depois foi se juntar a equipe de Numeric, repassando os dados de produção de alimentos, música suave tocando através do sistema de rádio.
-Meus queridos! –Nox interrompeu a música com sua voz suave.- Vocês não vão acreditar na coisa mais incrível que aconteceu comigo hoje, sua dj é a mais nova portadora de uma real cutie mark! Eu sei! Incrivel, não acham? Mas vamos para as notícias agora!
Ela limpou sua garganta e se ouviu o barulho dela mexendo com folhas de bronze.
-Primeiro nós recebemos os parabéns e boa sorte com a nossa missão diretamente do Conselho Municipal! Todas as cidades estão torcendo por nós! Pelo que soubemos também três encouraçados se moveram rapidamente para conter as forças da Horda e apesar da nossa cidade ter sofrido danos consideráveis durante a batalha ela ainda está completamente funcional! As zebras já ficaram sabendo do lançamento da nave e mandaram uma mensagem para o criminoso Zuralameni, eles disseram que caso ele retorne vivo terá perdão completo pelos seus crimes! Isso sim são boas notícias, parabéns Zura, nós sempre soubemos que você estava fazendo a coisa certa!
Lux balançou a cabeça, era tão facil se deixar perder na voz dela, ela tinha realmente um talento para ser locutora, mas depois ela pensaria nisso, agora ela já conseguia ver um olhar de canto de olho de Numeric que dizia a ela para se concentrar.
Numeric suspirou pesadamente, os números não mentiam, qualquer tipo de racionamento que eles fizessem que fosse tornar a viagem de volta possível também iria deixar os pôneis sem energia suficiente para realizar suas funções adequadamente. Errado, tinha de haver um jeito. Qualquer equação poderia ser alterada, modificada, ela sempre havia conseguido espremer os números que ela precisava, eles nunca mentiam, mas ela sabia como faze-los dizer o que ela queria, mas agora não importavam o quanto ela tentasse, sempre vinha o mesmo resultado: Falha.
Ela respirou fundo e voltou aos calculos, talvez se ela ajustasse as rações dos cargos não vitais, será que teria como colocar alguns pôneis em coma induzido? Não, isso não funcionaria e ainda precisariam de pôneis para cuidar deles, muitas complicações. Talvez…
Ela passou as horas seguintes perdida em seus pensamentos procurando saídas, novas formas de ampliar a produção de alimentos, os sistemas de reciclo eram eficientes, mas não perfeitos, com o tempo eles simplesmente ficariam sem matéria orgânica suficiente para manter a população. As pôneis sob seu comando foram almoçar e voltaram e ela mal se mexeu, calculando mentalmente o consumo de matéria orgânica por indivíduo com uma dieta parcial e oferecendo refeições completas antes de tarefas complexas. Não, não funcionaria, o corpo não se recuperaria a tempo...
Era tarde já e Numeric ainda trabalhava, talvez se ela conseguisse derivar matéria orgânica de alguma outra parte, existiam meteoritos e outros corpos celestes do lado de fora, mas será que eles poderiam ser macerados e usados como solo? Ela tinha certeza que as oficinas teriam como fazer isso, mas e quanto a capturar esses corpos? Será que eles teriam como usar alguma das couraças encantadas? Talvez, elas haviam sido criadas para isso, mas nunca haviam sido realmente testadas de verdade.
-Éguas e garanhões. –A voz de Nox interrompeu a música suave que vinha tocando a algum tempo, Numeric torceu seus lábios, ela estava gostando da música, mesmo que não estivesse realemtne prestando a tenção. –Nós acabamos de receber notícias urgentes do Conselho, os encouraçados conseguiram repelir completamente as forças da Horda! Infelizmente... –Ela hesitou. –A princesa da noite não resistiu, ela foi encontrada gravemente ferida e faleceu a apenas algumas horas atrás. O Conselho delcarou um período oficial de luto de uma semana.
O rádio ficou em silêncio, Numeric olhava para ele fixamente esperando que ele voltasse a vida, que aquilo tivesse sido uma piada de mal gosto, não podia ser assim!
-Vamos! Diz que é mentira! Diz que ela sobreviveu! –Ela gritou para o rádio e arremessou a placa de bronze que ela segurava o mais forte que conseguia contra ele.
Ela saiu correndo para a sala de observação, mas de lá ela não conseguia enxergar a lua, apenas o sol moribundo e as estrelas, não, aquilo não era o que ela queria. Ela correu até o jardim e depois até as oficinas, mas não conseguia ver a lua de nenhuma forma, as janelas mostravam apenas o espaço vazio e as estrelas. Não, ela precisava dizer adeus.
Ela correu até uma das airlocks, trancando a porta atrás dela. A couraça encantada estava, enorme e pesada, os fracos encantamentos que os unicórnios conseguiam produzir atualmente precisavam de várias camadas para produzir um efeito protetor suficiente, ela provavelmente mal conseguiria se mexer com essa armadura em gravidade normal.
Ela arrancou sua roupa e colocou a armadura rapidamente, checando os fechos, conectando a mangueira de ar e então abrindo a comporta para o espaço, ela foi arrancada de dentro da nave quando o ar foi sugado para fora da nave.
-Quem está ai? –O pequeno rádio da armadura falou com uma voz rispida que ela reconheceu como comandante Vapor Trail. –Você não tem autorização para atividade extra-veicular, volte imediatamente!
Ela não tinha tempo para isso, desligou o rádio, depois se preocuparia com isso, agora ela rodava com dificuldade, a armadura era equipada com talismãs de levitação para ajudar pôneis terrestres e unicórnios que viessem a usá-la a navegar no vácuo, com dificuldade ela se moveu até conseguir ver a lua através da fresta minúscula do elmo, lágrimas correndo dos seus olhos tornavam ainda mais difícil ver o ponto quase invisível que era a lua, no passado ela havia brilhado com o reflexo da luz do sol, mas agora ela era mais uma pedra praticamente invisível no espaço, não muito diferente de Equus para falar a verdade. Ela achou o ponto, pelo menos o que ela acreditava ser o ponto, não havia como ter certeza, mas ela queria que fosse.
-Você não pode estar morta! –Ela estendeu seu casco tentando tocar a lua. –Você prometeu que iria me proteger quando a gente se conheceu, eu preciso de você, Luna!
Ela gritou e gritou em sua armadura, dois pegasus de couraça a puxaram pelos braços de volta para dentro, e ela se sentia cansada de mais para lutar, mas ela continuou olhando para a lua, lágrimas silenciosas correndo de seus olhos.
Eles gritaram com ela, alguma coisa sobre riscos desnecessários e violação de regras, mas ela não se importava, eles a colocaram trancada em seu quarto e ela ficou feliz de estar sozinha. Ela se deitou em sua cama e ficou olhando o teto, ela sabia que todos estavam de lutos pela morte de uma princesa, mas ela era provavelmente uma das poucas pôneis que havia conhecido a verdadeira Luna, não a fabulosa princesa da noite, mas a égua sonhadora e que retinha a esperança, que tomava tempo ainda para tentar confortar seus súditos, que conseguiria destruir nações inteiras com seu poder, mas se esforçava para alcançar soluções pacíficas, a maravilhosa égua que ainda sentia falta da irmã, não por que ela era uma princesa, mas por que ela havia sido sua irmã. A égua que parecia imortal, que havia surgido vitoriosa das piores batalhas, que havia sobrevivido aos piores ferimentos.
Como ela poderia não se apaixonar por ela? Todos viam apenas a perfeita princesa da noite, que segurava as cidades em suas costas, mas Numeric havia conhecido a verdadeira égua, com todo seu carinho, sua paixão, seus sonhos. Ela que era uma figura maior que a própria vida, que havia sobrevivido por milhares de anos, que havia prometido a Numeric que haveria de mantê-la segura.
No dia seguinte Nox e Lux passaram para ver como ela estava, pelo olhar da pegasus, a unicórnio havia partilhado do segredo de Numeric, não que isso importasse mais, provavelmente todo mundo a bordo já sabia da estúpida paixão que ela havia sentido por uma deusa. As duas tentaram conversar, animá-la, mas Numeric simplesmente não estava com vontade suficiente para essas coisas. Mais tarde Lux veio lhe trazer o almoço, apesar do prato ser o mais verde e suculento que ela jamais havia visto ela só conseguiu comer algumas bocadas da salada, seu estômago ainda estava se revirando.
Mais de tarde Lux voltou, Nox estaria ocupada na rádio até de noite e afinal ela ainda era tecnicamente uma das assistentes de Numeric, a unicórnio tentou conversar a princípio, mas vendo que a pônei terrestre não estava interessada em conversar ela se limitou a limpar e ajeitar o quarto.
Sua colega de quarto, uma pegasus chamada Lumina Nimbus apareceu mais tarde, ela tentou sorrir e ser gentil. Naquela noite Numeric a abraçou e chorou em suas asas até adormecer, se Lumina percebeu alguma coisa ela não falou nada. Na manhã seguinte ela acordou com o despertador, cansada de mais para seguir adiante, mas ela precisava, era o que Luna desejaria.
Ela ainda não conseguiu comer seu café da manhã, mas felizmente não havia falta de pôneis que queria um pouco mais de comida, depois disso, ela se forçou a trabalhar, apesar de as mente dispersa e da completa falta de disposição e energia. Havia números e dados vindos de todos os lugares da nave, desde a taxa de reciclo da matéria orgânica e atmosfera até o consumo de combustível, ela fez seu trabalho quase que mecanicamente, deixando que os seus instintos tomassem conta, ela fazia esse tipo de trabalho desde pequena.
No marco de duas semanas dentro da missão a nave passou próxima da lua, em uma manobra delicada eles usariam o campo gravitacional para realizar uma manobra de estilingue em direção ao sol. Numeric foi até o jardim hidropônico para se despedir da lua uma última vez, ela se sentia melhor, já havia voltado a comer, mas o buraco em seu peito ainda doía toda vez que ela tentava pensar em Luna, ela suspirou pesadamente pensando que precisaria conversar com Lumina o mais breve possível, ela se envergonhava de ter usado ela de tal forma por mais de uma vez, mesmo que ela nunca tivesse feito nada além de se abraçar com a égua a noite ela sentia que devia a outra uma explicação.
-Numeric. –Uma voz masculina a chamou e ela virou para ver Zura com dois alforjes leves em suas costas. –Você pode vir comigo, acho que vou precisar da sua ajuda com uma coisa.
Ela confirmou com a cabeça e seguiu o zebra, eles caminharam para fora do jardim e para uma das airlocks que no momento estava voltada para a lua, com cuidado Zura tirou de seu alforje um vasinho com uma bela flor de pétalas brancas.
-Essa flor se chama dama-da-noite. –Ele falou. –Eu roubei essa muda da casa dos meus pais antes de fugir, ela é tudo que me resta da minha casa.
-Ela é muito bonita. –Numeric falou.
-Poucas pessoas apreciam a beleza dela, pois ela só floresce á noite. Eu sempre admirei a princesa, ela sempre apoiou minha pesquisa e tentou me ajudar a me sentir melhor entre os pôneis. Eu não amei ela da mesma forma que você, mas eu também vou sentir profundamente a falta dela.
Ele apertou o botão de abertura da airlock e a planta foi ejetada em direção ao solo lunar, a pequena flor que havia sido a única planta ornamental a bordo da nave, provavelmente uma das últimas plantas ornamentais em toda Equus, se tornou uma oferenda aquela que dedicou sua vida não apenas aos pôneis, mas todos os habitantes de Equus.
-Obrigada. –Numeric falou contendo suas lágrimas. – Isso foi muito bonito de sua parte, sacrificar algo tão precioso por ela.
-Foi graças a ela que hoje eu tenho a chance de voltar para minha casa quando tudo isso acabar, eu nunca vou esquecer-me da beleza da noite. –Zura sorriu, lágrimas escorrendo de seus olhos.
Numeric concordou, lágrimas também correndo de seus olhos, ela se sentia aliviada, aquela era uma maneira mais apropriada de se despedir da princesa da noite, lembrando tudo que ela fez de bom. Numeric enxugou suas lágrimas e respirou aliviada ao perceber que não sentia mais um vazio em seu peito, Luna poderia estar morta, mas ela se lembraria dela como a sorridente e bela pônei que ela havia sido.
Zura e ela ainda ficaram lá por mais uns momentos e logo se despediram, cada um de volta as suas funções. Zura estava tentando ajudar no jardim hidropônico usando técnicas zebras para aumentar a produção de alimentos, Numeric havia sugerido há alguns dias tentar aumentar a produção ao máximo e enlatar qualquer produto possível para tentar criar uma reserva para a viagem de volta.
Dias se tornaram em semanas e meses e logo anos, juntos eles se tornaram uma comunidade, não tão diferente da que havia nas cidades, apenas menor. Casais se formaram e quebraram durante a viagem, Numeric sempre parecia um passo a frente deles, sempre mantendo os quartos devidamente organizados para causar o menor número de problemas. Nos quase oito anos de viagem seis pôneis morreram em acidentes diversos pela nave, a cada vez Mirk Whisper recitou preces em seus funerais, eventualmente ganhando sua Cutie Mark na forma de um fantasma, ela se tornou aquela que fala pelos mortos, que conforta os vivos depois de perdas terríveis.
Quem mais ganhou sua marca foi Copper Pattern, a unicórnio descobriu um talento improvisando soluções para os problemas do dia a dia, depois de ajudar a montar a rádio ela ainda conseguiu criar uma pequena usina de álcool a partir de peças sobressalentes, a marca de uma engrenagem feita de ferro velho surgiu no flanco dela, que estava tão sujo de graxa que ela só foi perceber depois de se limpar.
Uma pônei terrestre chamada Ground Solution também ganhou sua cutie mark na forma de um pedaço de céu estrelado enquanto ela ajudava a traçar o curso da nave, durante a rápida celebração que eles tiveram ela acabou mudando seu nome para Sky Watcher para combinar melhor com o seu talento.
A moral estava alta na nave apesar de todos os problemas que eles enfrentavam diariamente para manter ela em perfeito funcionamento, a sala de observação principal se tornou o grande atrativo, pois quanto mais eles se aproximavam do sol, mais sua fraca forma trazia calor e luz, pôneis começaram a passar mais e mais tempo se banhando em sua luz a ponto que Numeric começou a organizar um sistema de rodízio para que todos pudessem ter seu momento ao sol e não perturbar o funcionamento da nave, Lux especialmente adorava seus momentos ao sol, cada instante que ela passava na sala trazia lhe mais confiança e determinação de que conseguiria cumprir sua missão, mas as sombras de duvida e desconfiança ainda pairavam sobre sua cabeça.
Winter thrives in the lone heart
Winter thrives in the lone heart
Numeric sorriu ao ver o horário, ela deixou de lado suas folhas de bronze, despediu-se rapidamente de suas assistentes, todas elas já estavam acostumadas aos seus novos hábitos. Ela foi até uma das airlocks, dessa vez ela estava sem roupas, estando tão próximos do sol tinha a vantagem de que eles estavam recebendo cada vez mais calor dele, atualmente a nave estava se mantendo em uma temperatura confortável, para os pôneis nascidos nas cidades era estranho andar sem roupas, eles sabiam das histórias dos passado de quando poucos pôneis usavam roupas no dia a dia, mas muitos ainda se sentiam desconfortáveis, mas a cada dia mais e mais pôneis acabavam deixando de lado as roupas pesadas.
Ela entrou na airlock e colocou a couraça com cuidado não havia pressa, seu tempo só começaria a correr quando ela saísse da nave. Ela havia se tornado proficiente em colocar e retirar a couraça e com seus passeios rotineiros ela era provavelmente a mais experiente na nave para atividades extraveiculares, muitas vezes ela havia se voluntariado para trabalhos externos apenas para poder ficar mais tempo do lado de fora, o comandante não gostava disso, várias vezes ele dizia o ridículo de arriscar ela em trabalhos que qualquer outro pônei poderia fazer, mas ela sempre insistia e a verdade é que ela trabalhava melhor depois de suas saídas.
Ela abriu a porta da airlock com cuidado, todo o ar já havia sido drenado da sala, de forma que ela não era arremessada para fora. Ela se moveu com calma, usando os talismãs com facilidade para se mover na gravidade zero, em geral pegasi tinham uma facilidade maior com eles, mas ela havia praticado tanto que provavelmente conseguiria ir cabeça a cabeça com qualquer pegasus.
As estrelas estavam cada vez mais fracas, mesmo a pouca luz que o sol emitia estava se tornando o suficiente para encobri-las, Numeric ergueu seus cascos como que querendo tocar as estrelas.
-Ei, eu estou aqui de novo. –Ela falou suavemente, ela sabia que sua voz não se propagava no espaço, mas ela não se importava. –Cada dia eu vejo menos das estrelas, falta tão pouco para terminarmos a missão sabe, sua irmã já cobre praticamente todo o nosso horizonte, os outros pôneis estão tão felizes de poder se banhar em luz do sol, eu queria que você estivesse aqui para ver isso, a maior parte da tripulação já anda nua por ai, eu me lembro que você sempre pareceu tão diferente de todo mundo andando por ai só com suas jóias reais... Ah! Mais uma pônei conseguiu uma cutie mark! Ela se chama Lapidary, ganhou sua marca fazendo jóias a partir de ferro velho e restos, é tão incrível ver tantos pôneis encontrando seu propósito nessa missão, eu tenho certeza que você ficaria tão feliz.
Ela checou seu relógio interno, ainda tinha mais alguns minutos.
-Eu sinto sua falta ainda, acho que é difícil superar a morte de uma deusa, Lux e Nox têm sido muito boas comigo, durante todos esses anos elas ficaram ao meu lado e me ajudaram, é estranho me sentir tão próxima de outros pôneis, lá embaixo nas cidades sempre parecia haver essa barreira entre as pessoas, mas aqui em cima os pôneis parecem estar se tornando melhores, acho que as coisas eram mais assim na sua época não? Bom, meu tempo está acabando, eu preciso voltar para dentro, mas falo com você de novo quando conseguir saída.
Ela voltou para dentro da nave da forma mais demorada possível, ela sentia seu coração apertar ao pensar que logo não conseguiria mais ver as estrelas. Ela retirou sua couraça e se pôs a caminho de volta a sua estação de trabalho, parecia não haver um fim para todos os problemas que surgiam dentro da nave. A rádio estava tocando uma adorável canção que Nox havia convencido alguns dos pôneis mais afinados na nave a cantarem para ela, ela sempre se surpreendia como a pegasus conseguia ser criativa em manter a tripulação contente. No começo era simples apenas tocar os discos, mas logo eles estavam se tornando repetitivos, então ela começou a trabalhar em remixes e outras alterações nas músicas, quando eles saíram do alcance dos rádios de Equus ela começou a entrevistar pessoas da nave, contar histórias e até mesmo começou uma série de radio novelas. No momento ela havia até começado a iniciativa Crusaders, em que ela tentava ajudar pôneis a conseguirem suas cutie marks.
Ela entrou em seu quarto e quase chorou ao ver Lumina Ninbus com um pincel em sua boca, pintando o teto e boa parte das paredes com uma imagem de um céu noturno como não se via em gerações, com estrelas brilhantes e uma belíssima lua cheia.
-Eu pensei que você ia demorar mais. –Lumina falou um tanto envergonhada de ser pega no flagra.
-Lumina... –Numeric gaguejou buscando por palavras.
-Eu sei que não está muito bom, mas espero que você goste. –A pegasus falou timidamente.
-Está lindo! Mas eu não entendo, por que você fez isso? –Ela perguntou sem acreditar naquilo, todos os pôneis com quem ela havia se relacionado sempre haviam se sentido desconfortáveis com os sentimentos que ela ainda mantinha por Luna, exigindo que ela parasse com suas saídas ou coisas similares, Lumina havia sido sempre tranqüila com isso, nunca havia reclamado das saídas, na verdade no começo Numeric acreditou que Lumina só queria um pouco de sexo e diversão, mas o tempo passou e ela continuaram namorando.
-Você reclamou esses dias que não conseguia mais ver as estrelas, então eu decidi trazer elas para mais perto de você.
-Lumina... Você não sente ciúmes de mim? Do que eu ainda sinto por ela? –Numeric perguntou a questão que a havia consumido desde os primeiros dias.
-Numeric, se você quer terminar comigo pode falar.
-Não, nunca, eu te amo, mas... –Numeric começou.
-Isso é tudo que eu preciso saber. –Lumina falou com um sorriso.
As duas se beijaram apaixonadamente, nem mesmo notando a marca de um pincel e coração que havia aparecido no flanco de Lumina.
Nox colocou mais uma das gravações feitas dentro da nave mesmo, uma grande pegasus chamada Limit Break que tinha uma voz angelical, ela provavelmente ganharia uma cutie mark de cantar ou algo assim em breve provavelmente. Ela deixou a música tocando e colocou um par de fones diferente dos outros, mais pesados e tecnológicos que os que ela usava em geral no seu trabalho.
-Aqui é Nox da Luciferious II de Equestria, para qualquer um que estiver ouvindo. –Ela falou com sua voz mais gentil e esperou, checando as freqüências por quaisquer respostas antes de transmitir novamente, dessa vez falando no dialeto zebra que ela havia aprendido com Zura. Ela fazia isso todo dia, sempre que tinha tempo livre, esperando por uma resposta do lado de fora, mas até hoje nada havia respondido.
Algo diferente, ela subitamente moveu os diais de volta, buscando pelo sinal, algo tinha estado lá, por apenas um instante ela havia ouvido algo diferente do vazio.
... Que a glória de Celestia nos proteja. Aqui é Wave Band da Luciferious I, estamos com problemas nos computadores primários, nós conseguimos alcançar uma órbita estável, mas não conseguimos continuar com a missão, que a glória de Celestia nos proteja...
A mensagem repetia continuamente, Nox saltou de sal cadeira, ela precisava mostrar isso para os outros imediatamente.
Alguns minutos depois o capitão Vapor Trail havia chamado uma audiência de emergência com os líderes, além do próprio capitão e de Nox havia Numeric, Lux, Zura, Opal Hammer (Chefe de engenharia) e Silver Hoe (chefe de hidropônica) estavam presentes na sala comum, os outros pôneis ficariam sabendo do que estava acontecendo mais tarde e se fosse preciso uma votação todos seriam consultados.
-Sky Watcher conseguiu traçar a transmissão e existe algo lá fora, tudo nos leva a crer que é a Luciferious I. –Vapor Trail falou depois que todos haviam ouvido a transmissão. –No entanto vamos precisar fazer um desvio, a manobra é simples, mas vamos queimar bastante combustível.
-Qualquer benefício material que possamos ganhar é mínimo. –Numeric falou. –Se ficarmos sem combustível na volta podemos acabar encalhadas no meio de lugar nenhum.
-Mas se ainda tiver matéria orgânica na nave isso pode suplementar nossas rações o suficiente para que possamos completar o caminho de volta. –Silver replicou.
-Tem alguma chance de encontrarmos sobreviventes? –Opal Hammer perguntou.
-Impossível. –Zura responde. – Eles não teriam recursos suficientes para se manterem por tanto tempo.
-E o escudo primário? –Lux perguntou.
-Pelo que pudemos averiguar a nave parece em bom estado. –Vapor Trail respondeu.
-Então se nós conseguíssemos chegar ao escudo primário poderíamos recuperar os catalisadores secundários? –Lux perguntou esperançosa, a idéia do que eles haviam feito com os corpos das portadoras dos elementos da harmonia ainda a enervava, mas se isso de alguma forma a ajudasse a controlar melhor o mega-feitiço então valia á pena tentar.
-É uma possibilidade. –Zura respondeu. –Eu devo conseguir conectar o catalisador secundário com facilidade.
-Eu vou calcular a mudança de rota, preparem todo mundo para a aceleração. –Vapor Trail falou - Quero todo mundo em situação de alerta.
Broadband estava preso em sua cadeira enquanto a nave manobrava, seus olhos fixos na tela do radar, ele tinha certeza de que havia visto uma perturbação nele apenas alguns momentos atrás, era preciso ficar atento para qualquer corpo celeste em movimento, até mesmo os menores deles poderiam causar grandes estragos a uma nave como a Luciferious II, subitamente a grande mancha que deveria ser a primeira Luciferious apareceu em seu monitor, em movimentos bruscos ele sentiu a nave tremer e gemer enquanto seus motores colossais se moviam.
Contato! Broadband não podia acreditar naquilo, algo estava se aproximando rapidamente, não era um meteoro ou qualquer coisa similar, não pelas leituras do radar a coisa era feita de puro metal e estava mudando sua velocidade e direção, se aproximando no que só poderia ser descrito como um vetor de ataque.
-Objeto não identificado se aproximando rápido! –Broadband falou. – Dez minutos para contato.
-Todos para posição de combate! –Vapor Trail gritou sem realmente acreditar no que estava falando. –O que nós temos sobre o contato?
-Cerca de cem metros de extensão, feito de metal. –Broadband falou enquanto ele analisava as análises feitas pelos bancos de sensores da Luciferious.
-Todos os pegasus para posição de combate! –Vapor Trail falou no rádio. –Estou liberando o uso de canhões thaumicos.
Pela nave uma sirene estridente sonhava e pôneis corriam sem saber ao certo o que fazer, eles haviam treinado para diversas situações, desde incêndios até vazamentos químicos, mas nunca para o que fazer em caso de contato hostil.
Nox corria até uma das airlocks, como todas as pegasi, ela estava sendo convocada para auxiliar na defesa da nave, ela odiava o estereótipo do pegasus militarista, mas era difícil se desvencilhar desse tipo de expectativa, não importa que nas guerras modernas os unicórnios e pôneis terrestres fossem a maior parte das forças de combate, todo mundo ainda esperava que os pegasi prestassem serviço militar e soubesse dizer de cor o nome de todos os encouraçados em serviço.
Quando ela chegou já estavam terminando de colocar Lumina em uma das couraças e logo era a sua vez, ela tinha pouca experiência com atividades extraveicular, mas sua magia inata tornava mais fácil de controlar a armadura do que para unicórnios ou pôneis terrestres. Uma vez devidamente selada eles a entregaram algo que ela nunca havia usado antes, uma lança terminada em uma estranha geringonça de vidro e cobre que continha uma grande esmeralda suspensa, ela já havia visto elas em filmes de propagandas, era um canhão thaumico, que usava esmeraldas encantadas para projetar raios de plasma.
Aquilo era uma loucura, ela não tinha treinamento com armas, ela mal sabia voar direito, o que ela sabia fazer era usar sua magia inata para purificar o ar e fazer pôneis sorrirem com sua rádio.
As luzes na airlock mudaram para amarelas, Nox e Lumina estavam tremendo. As luzes mudaram para verde e as duas foram expelidas, da nave, imediatamente ordens vieram através do rádio, dando vetores para cada pegasus, a principio Nox se sentiu perdida com as indicações que vinham do rádio, os instrumentos da armadura e a sua própria visão, quando ela entrou em uma formação em V com outros pegasi se tornou mais fácil de navegar, seu instinto a ajudava manter a formação.
Por milênios os estudiosos de Equestria discutiram sobre a existência de vida fora de Equus e como seria possível se comunicar com ela, muitos especulavam sobre o assunto e chegaram inclusive a escrever livros sobre o assunto, uma das maiores especialistas no assunto foi uma pesquisadora chamada Lira Hearstrings, uma contemporânea de Twilight Sparkle, que escreveu diversos tomos e chegou até mesmo a fazer alguns documentários sobre a existência de raças não-equinas, sua grande paixão sempre foi uma estranha raça de aliens bípedes que teriam visitado Equestria milênios atrás.
Lyra nunca teria acreditado na criatura alienígena que os pegasus da Luciferious II agora encontravam, ela era diferente das criaturas bípedes que ela tanto amava ou das raças quadrúpedes que habitavam Equus, ele tinha seis pernas finas parecidas com a de um aracnídeo, uma carapaça de metal negro e por baixo dela sua carne brilhava com um verde doentio, ela tinha quatro grandes membros terminados em fortes pinças como de um caranguejo, ela tinha uma mandíbula com grandes dentes afiados que pareciam ser feitos de diamante, circundada de longos tentáculos e tinha seis pares de olhos que brilhavam com uma luz azul penetrante.
Os pegasi manobraram com cuidado ao redor da enorme criatura, tentando espantar elas, torcendo e orando para Celestia e Luna para que isso bastasse, mas a criatura não parava, ela continuava em sua rota de colisão com a Luciferious.
Vapor Trail estava inquieto, rilhando seus dentes, torcendo por um milagre que os salvasse, mas os momentos passavam e nada acontecia. A criatura ainda vinha em vetor de ataque, mas estaria ela realmente atacando, será que ele poderia se dar ao luxo de atacar uma criatura que poderia estar apenas curiosa, uma forma de vida que para todos os intentos e propósito poderia ser completamente pacífica.
A criatura abriu sua enorme boca e cuspiu uma rajada de plasma azul, o raio concentrado cruzou o vácuo e atingiu a retaguarda da Luciferious, seus motores vaporizados em um instante, ligas de metal fortes o suficiente para resistir as temperaturas infernais dos exaustores foram vaporizadas, os pôneis que trabalhavam na seção morreram sem saber o que havia acontecido.
Os pegasi reagiram imediatamente, disparando rajada após rajada do plasma gerado pelas esmeraldas em suas lanças, eles voavam se mantendo longe da boca da criatura, tentando atraí-la para longe da Luciferious, tentando atingir ela entre as placas de armadura.
A criatura não se importou com o plasma dos pegasi, agarrando com a Luciferious com suas garras, mais uma rajada de plasma de sua boca destruiu completamente o jardim hidropônico, mesmo longe Nox conseguia ver as chamas consumindo a nave por dentro enquanto as garras da criatura a destruíam por fora.
Nox e seu esquadrão mergulharam, mirando os olhos da criatura. Nox segurou a lança com os dois cascos, elas voaram através dos tentáculos e liberaram o plasma contra os olhos, a criatura pareceu se contorcer, sentindo dor pela primeira em milênios. Seus tentáculos atacaram os pegasi em resposta, Nox desviou de um com rolamento e disparou outra rajada contra os olhos da criatura, Lumina não teve tanta sorte, um dos tentáculos a agarrou e destroçou em um instante, a pegasus morreu em um instante.
-Evacuar nave! Todos para fora! –Vapor Trail deu o comando, não importava mais se eles derrotassem a criatura, a Luciferious estava condenada. –Essa ordem vale para vocês também. –Ele falou para seus subordinados na ponte de comando. -Vão agora para os módulos de escape, eu vou assumir controle total da nave.
-Capitão? –Broadband protestou. –Você precisa vir com a gente.
Ele sorriu decidido. –Um capitão deve afundar com seu navio. Vão agora!
Explosões secundárias aconteciam por toda a nave enquanto as chamas do jardim hidropônico se espalhavam rapidamente, o capitão poderia tentar isolar os setores e bombear o oxigênio para fora, mas ele estava com preciosa pouca energia já que o primeiro ataque da criatura havia destruído os motores. Ele tentava cortar o fogo fechando portas, mas ele parecia se espalhar rápido e agora eles ainda estavam perdendo atmosfera rapidamente, não importa o que ele fizesse não haveria como salvar a nave.
Zura entrou correndo na sala de comando e se sentou em um dos terminais principais.
-O que você acha que está fazendo? –Vapor Trail perguntou. –Eu dei ordens para todos os pôneis evacuarem!
-Essa criatura vai atrás dos sobreviventes se nós deixarmos.
-O que você pretende fazer? –Vapor perguntou.
Zura apenas sorriu enquanto digitava freneticamente no terminal.
Numeric guiou os sobreviventes através da nave para os módulos de fuga e então para a Luciferious I, mesmo que a nave não tivesse muito em questão de oxigênio era a última esperança para eles, qualquer outra chance de salvamento estava em Equus e eles não teriam nem mesmo como enviar uma mensagem, se eles simplesmente morressem sem tentar iriam condenar todos em Equus, apenas a Horda sobreviveria.
Ela atracou seu módulo de fuga na airlock principal, esperou a luz mudar para verde, isso queria dizer que pelo menos havia uma atmosfera de verdade lá dentro. Lux deu um passo para frente para entrar na nave, mas Numeric a empurrou para trás.
-Você é preciosa de mais, eu vou entrar primeiro.
Numeric abriu a porta e entrou, ela respirou aliviada ao perceber que havia uma atmosfera respirável lá dentro, eles estavam tão perto de cumprir a missão agora, se fosse necessário ela teria de drenar o oxigênio de dos outros módulos de fuga e isolar Lux na sala de comando, ela era a única pônei que realmente precisava chegar ao final da jornada.
Eles entraram um a um, Lux criando luz para que eles pudessem ver o que estavam fazendo, eles se espalharam e começaram a mover o segundo módulo para a airlock, isso teria de ser feito um de cada vez.
Nox estava ofegante, cansada e suando, agradecida de ter cortado seu cabelo num estilo pixie que combinava com sua carreira de DJ, agora ele não ficava caindo em sua vista. Ela desviou para a direita escapando de uma garra, mas outro pegasus foi destroçado por elas. Eles estavam morrendo inutilmente, nada que eles fizessem parecia capaz de realmente machucar a criatura, os primeiros impactos nos olhos a pareciam ter pego de surpresa, mas agora nada mais parecia sequer a incomodar, ao invés disso ela estava destroçando a Luciferious II que tentava inutilmente manobrar, girando fora de controle com seus motores secundários em ação.
-Todos os pegasus sobreviventes, recuem imediatamente! Recuem para a Luciferious I! –A voz de Vapor Trail estourou em seus rádios, como um os pegasus começaram a recuar, apenas três deles restavam e mais um foi destruído por uma rajada de plasma da criatura.
-Let there be light! –Zura falou.
E então se fez a luz, em um instante toda a energia das bombas estocadas na Luciferious II foi liberada e uma pequena nova estrela surgiu naquele momento, a criatura foi engolfada, banhada no plasma, suas carapaças de metal foram arrancadas pelas forças monumentais, sua carne que normalmente conseguiria resistir as intempéries do espaço foi destroçada, órgãos alienígenas e o que só poderia ser o sangue da criatura foram vaporizados, em um momento a criatura que havia existido por milhões de anos havia cessado de ser.
Nox aterrissou pesadamente em uma das airlocks secundárias da Luciferious I, apenas o escudo primário da nave havia salvado os pôneis ainda em módulos de fuga de serem vaporizados pela explosão.
Quando a airlock finalmente terminou de abrir ela arrancou sua carapaça com dificuldade, parecia que partes dela haviam derretido e se fundido a sua pele. Ela se levantou com dificuldade, com metade da armadura ainda com ela, Mirk apareceu para ajudá-la.
-Nós estávamos te procurando! –Ela falou ancorando a outra fêmea. –Nós achamos Blue Thunder já, ela está na enfermaria recebendo cuidados.
-Quem mais sobreviveu? –Nox perguntou exausta.
-Não muitos pôneis infelizmente. Lux está segura se é isso que você quer saber, eu sei que a Copper também sobreviveu. –Mirk falou enquanto a ajudava para a enfermaria, a sala era pequena e estava coberta de poeira, a forma esbranquiçada de Blue Thunder estava já deitada em cima de uma maca, com cuidado Mirk colocou Nox sobre uma segunda maca.
Ela injetou Nox com uma das seringas de analgésicos do estoque de medicamentos que eles haviam preparado a partir dos kits de primeiro socorros dos módulos de fuga, os medicamentos da própria nave já haviam perdido a validade ou não eram confiáveis para uso depois de tanto tempo abandonados.
Em alguns instantes Lux estava lá ao lado da pegasus, Numeric chegou pouco depois, ela olhou para as duas pegasus, procurando por Lumina. Ela engoliu a seco e deu dois passos para trás, para fora da clínica para deixar as Lux e Nox sozinhas, elas não mereciam ver ela chorar.
-Numeric... –Nox a chamou com dor se infiltrando em sua voz. –Por favor, venha aqui.
Numeric se aproximou, tentando se manter forte e segura na frente dela, haveria tempo para ela desabar mais tarde. Nox e Lux a abraçaram ternamente, nesse momento ela não agüentou mais e desatou em lágrimas.
-Nós não vamos te deixar sozinha. –Lux falou.
Da tripulação da Luciferious II, treze pessoas sobreviveram no total, o mais grave eram as perdas de pegasi, eles tinham só dois no momento, o sistema de purificação ficaria sobrecarregado. O problema era que desses sobreviventes seis deles estavam em condições precárias, incluindo um dos pegasi.
-Vocês precisam sair agora. –Mirk falou. –Eu preciso cuidar das duas antes que o analgésico perca o efeito.
-Vocês vão ficar bem? –Nox perguntou as duas.
-Claro, eu vou tomar conta dela. –Lux respondeu jogando um caso cobre os ombros de Numeric. –Trate de ficar bem para mim.
Nox e Lux se beijaram rapidamente e Lux saiu acompanhada de Numeric, deixando Mirk sozinha na sala com as duas pegasi feridas. Ela começou a tirar o máximo que podia de pó do lugar, mas nos anos de abandono a nave havia desenvolvido uma pesada cobertura de poeira por todo lugar, com cuidado ela abriu uma das gavetas de instrumentos cirúrgico, para sua felicidade eles pareciam ter se conservado intactos e pareciam ainda estar todos em ordem, apenas um dos bisturis estava faltando. Ela respirou fundo e começou a trabalhar como podia.
Lux e Numeric estavam explorando a nave, a maior parte dos pôneis estavam na sala de comando, tentando fazer a nave voltar a funcionar, mas uma pergunta pairava sobre todos: O que havia acontecido a tripulação. A nave estava em boas condições, não parecia ter sido atacada pela mesma criatura que atacou a Luciferious II, o mais estranho era a atmosfera ainda estar respirável depois de tantos anos provavelmente sem pegasi para manter ela pura.
Os quartos estavam abandonados como elas esperavam, poeira cobrindo tudo, mementos pessoais abandonados, um livro de bronze esquecido aberto em cima de uma cama, uma caneca de bebida deixada em cima de uma mesa. Elas continuavam andando em silêncio, qualquer barulho parecia quase profano.
Algo brilhante chamou sua atenção em um dos quartos, ela se aproximou cuidadosamente dentro do pequeno cubículo que era o quarto, notando o nome acima da porta: Sun Seeker.
O quarto estava bagunçado como os outros, abandonado, mas em uma das paredes havia um símbolo de ouro que imitava a cutie mark da Celestia, refletindo suavemente a luz que Lux gerava, ela recuou devagar sem querer perturbar ainda mais o quarto.
Havia uma pintura em uma parede da tripulação original toda reunida, um dos garanhões na direita tinha uma cutie mark de uma paleta de cores e no centro de todos estava um unicórnio de um amarelo suave com uma longa crina que parecia ser feita de ouro, ele sorria alegremente e tinha uma cutie mark de sol em seu flanco.
-Quem é ele? –Lux perguntou olhando dentro dos olhos do unicórnio.
-Sun Seeker, ele foi seu antecessor assim por dizer. Ele foi a primeira anomalia que nós achamos.
Elas seguiram em frente, as despensas ainda estavam cheia de enlatados e água.
-Eles consumiram quase metade dos suprimentos, mas parece que muitos deles estão estragados, se o jardim hidropônico não estiver funcionando eles não vão conseguir voltar. –Numeric falou, pelo menos isso era uma boa notícia depois de tudo aquilo.
Logo depois veio o jardim hidropônico e as duas ficaram chocadas ao ver as plantas crescendo sozinhas, se espalhando por toda parte.
-Que nem na Everfree... –Numeric sussurrou, Luna havia lhe contado inúmeras histórias da floresta, de como sua irmã havia estabelecido um castelo no meio da floresta para poder se manter isolada dos pôneis e continuar com seus experimentos em paz, ela nunca havia falado que experimentos eram esse, apenas que era algo muito importante para Celestia.
Elas olharam admiradas para as plantas que haviam crescido sem controle cobrindo praticamente toda a sala, muito além do que qualquer pônei terrestre conseguiria induzir com sua magia inata, apenas um pequeno caminho que levava ao que parecia ser uma clareira no meio da sala, Lux olhou surpresa para o chão, percebendo que alguém havia pintado a forma estilizada da cutie mark de Celestia no centro da sala, ela se sentia atraída ao lugar, mas ao mesmo tempo se sentia enojada, existia energia a puxando para aquele lugar, mas era uma força doentia e sem controle, magia selvagem.
-Alguém sobreviveu. –Numeric declarou.
-Como você pode saber disso? -Lux perguntou, cada vez mais atraída para aquele lugar no centro, se aproximando quase inconscientemente.
-As plantas foram cortadas recentemente. –Numeric falou, as plantas ainda sangravam seiva de onde elas haviam sido cortadas.
Lux registrou isso, mas sua mente estava enlaçada pela magia local, ela tocou o centro da imagem e imediatamente seu corpo foi atingido por uma descarga poderosa de magia e sentimento, alguma coisa havia meditado ali por tempo incontável, algo que ela não conseguia ver, seus olhos desviavam instintivamente da criatura que um dia havia sido um pônei, ele tinha algo que só poderia ser descrito como uma pequena estrela sobre sua cabeça, ele havia alimentado as plantas todos esses anos com sua energia, ele próprio vivendo de... outra coisa.
-Lux! –Numeric a arrancou de sua alucinação. –Eu preciso de você agora!
Lux confirmou com a cabeça, um tanto tonta ainda.
Numeric a apontou para a plantas que cresciam vorazmente, espinhos nascendo de seus caules que se tornavam negros e suas folhas afiadas como espadas. Lux abaixou sua cabeça, concentrando sua magia que se formou em uma pequena estrela sobre seu chifre, ela sentia o cheiro de seus cabelos queimando.
-Não! –Numeric gritou rapidamente. –Você vai acabar queimando tudo se fizer isso!
Soltando sua respiração Lux deixou a magia se esvair, procurando desesperadamente ao redor por algo que pudesse usar contra as vinhas que avançavam em sua direção. Nesse momento a nave tremeu violentamente enquanto seu motor entrava em ação.
Diferente dos motores mais convencionais usados na Lucifeirous II, a primeira nave usava um modo de propulsão desenvolvido pelas zebras, o modelo usava a energia de reações nucleares rápidas para impulsionar a nave através de jatos direcionados de plasma. Em outras palavras eles detonavam bombas nucleares atrás de um escudo de aço de 6 metros de espessura para fazer a nave se mover. A zebras chamavam esses sistema de Orion.
Lux caiu contra os espinho com o primeiro pulso de aceleração, a planta cortando fundo em seu couro, os espinhos como que reagindo ao sangue pareciam cravar mais fundo querendo beber dele, Numeric a agarrou e puxou dos espinhos.
Ofegante e sentindo as vinhas se aproximarem, locando desesperada o redor por algo para afastar as vinhas, mas não havia nada que estivesse fortemente preso ao solo ou seguro pelas vinhas, ela tinha certeza que havia equipamento de jardinagem em algum lugar, mas sem conseguir ver era impossível manipulá-los e mesmo que conseguisse que bem faria, telecinese nunca havia sido seu forte.
Não... Ela era bom em luz, criação de energia e agora esse talento era inútil em face dessas plantas sanguinárias, ela via nos olhos de Numeric o desespero, seus olhos varrendo a sala em busca de uma solução.
Não havia outra solução.
Lux carregou sua magia com toda força na ponta do seu chifre e investiu contra as vinhas, Numeric correndo atrás dela enquanto as plantas queimava, chamas se espalhando rapidamente pelas plantas, o calor de Lux forte o suficiente para secar os vegetais e torná-las suscetíveis a simplesmente irromperem em chamas.
Lux e Numeric desabaram do lado de fora, Lux simplesmente cansada de mais para continuar andando, o esforço de manter a magia em um nível tão elevado era de mais para o seu corpo. Numeric fechou com força a porta atrás delas, o jardim hidropônico irrompendo em chamas.
-Não... Não... –Numeric repetiu, ela precisava arranjar uma solução para as chamas, sua mente calculando as suas chances de sucesso. Baixas.
Ela abriu a porta e correu entre as chamas, seu pêlo queimando e sentindo seus olhos arderem com a fumaça, havia pouco ar respirável na sala, ela continuou adiante através de espinhos que cortavam seu couro com facilidade, ela encontrou a airlock, coberta nas grossas vinhas e arrancou elas da porta, os espinhos abrindo grande talhos em seus cascos, ela desativou o sistema de segurança e abriu a porta evacuando todo o oxigênio, todo aquele gás sendo expulso de uma só vez a arrancou de seu lugar, ela ainda tentou se agarrar a porta, mas força massiva quebrou seu casco direito, ela via o espaço vazio se aproximando quando uma aura dourada a envolveu, tentando lutar contra a força do vento, mas era muito pouco, ela olhou exaustos de Lux que tentava segurá-la.
-Adeus. –Numeric sussurrou.
Não! –Lux gritou e puxou com toda sua força, o brilho de seu chifre aumentando subitamente, aura sobre aura de energia residual arcana brilhando enquanto ela lutava contra o vácuo, segurando Numeric em seu lugar. Com toda sua força Numeric apertou o botão de selamento de emergência, as pesadas comportas se fechando imediatamente.
As duas pôneis desabaram exaustas, as plantas felizmente pareciam exaustas depois da exposição ao vácuo e das chamas elas pareciam ter perdido sua energia, lentamente Lux se levantou, quase despencando com dois pulsos de aceleração em rápida sequência. Ela e Numeric se ajudaram a ficar de pé e começaram a cambalear de volta para a enfermaria.
Mirk estava morta quando eles chegaram lá, seus pulsos cortados com um bisturi ainda em sua mão, Blue Thunder estava morta, pedaços da carapaça ainda fundidos a sua pele, aparentemente ela não havia conseguido aguentar a cirurgia.
Lux colocou Numeric sobre uma das macas, sem nem se importar em tirar o pó de cima dela, injetando a égua com uma dose de analségico e buscando entre o estoque algo para limpar as feridas de Numeric, ela usou dois rolos de bandagem para parar o sangramento e engoliu duas pilulas de estimulantes.
Lux se deixou cair no chão por um instante, Numeric estava dormindo profundamente, ela havia conseguido improvisar uma tala, mas ela precisava achar alguém para cuidar dela de verdade. Se esforçando ela se levantou de novo e começou a andar em direção a ponte de comando.
Na sala comunal três pôneis estavam estirados no chão com bandagens e curativos improvisados, alguns até mesmo feitos com silver tape. Ela subiu as escadas devagar, com medo de seus cascos falharem embaixo dela e bateu duas vezes na porta de comando, três pôneis esperavam por ela lá.
High Command estava sentado no trono de cristal, três balões delineados por um suave brilho rosa em seu encosto, Copper Pattern estava mexendo em alguns dos painéis e Broadband, apesar de um grande ferimento em seu rosto, estava operando um dos painéis principais.
-Mirk cometeu suicídio. –Ela falou, casada de mais para sentir tristeza. –Eu preciso de ajuda com Numeric.
-Vocês dois vão ajudar ela. –High Command falou em monótono, o esforço de usar o trono exigindo mais dele do que ele poderia prever.
Com a ajuda de Copper Pattern e Broadband ela voltou a enfermaria e desabou enquanto os dois tomavam conta de Numeric. Ela acordou com com uma pegasus deitada gentilmente em seu colo, ela sorriu e beijou a testa de Nox, notando que suas asas estavam embaixadas e em muitos pontos manchadas de sangue, no fundo da sala Broadband e Copper Pattern estavam fazendo sexo, Lux sorriu e voltou a cochilar.
Quando as três acordaram de novo foi com o som de pôneis correndo e conversando apressados, as três seguiram os pôneis, Numeric tomando cuidado com seu casco machucado, até a ponte de comando. High Command havia sofrido um derrame falta, sobre carregado pelo excesso de informação do trono.
Os três corpos foram lançados ao espaço em uma órbita que os levaria ao sol e os sobreviventes começaram a se organizar para tornar o lugar habitável, tentando limpar a poeira que havia caído sobre todo lugar, Lapidary foi a próxima a morrer, seus ferimentos extensos de mais para seus parcos recursos médicos e falta de profissionais.
Sky Watcher foi o próximo a morrer, três dias depois ele se trancou dentro da sala de observação sem nenhuma proteção, mesmo com o poder do sol tão diminuído ele ainda morreu incinerado pelo calor do sol.
-Haviam dois pares de pegadas. –Numeric falou para Nox e Lux enquanto elas comiam.
-Do que você está falando? –Nox perguntou entre suas bocadas de maçã enlatada.
-Na sala de observação, haviam dois pares de pegadas indo para a sala de observação. Alguém entrou lá com Sky Watcher. –Numeric Explicou.
-O jardim! –Lux falou subitamente, sua memória voltando para os momentos antes do ataque das plantas.
-Sim, alguém da tripulação original está aqui. –Numeric falou.
-Isso é impossível! –Nox replicou. –Como alguém teria sobrevivido sem nós sabermos?
-Eu ainda não sei. –Numeric suspirou, passando e repassando os eventos em sua mente para tentar entender o que poderia ter acontecido.
Ela nunca teve tempo de pensar, pois logo Graveyard Shift entrou correndo desesperada, todo o setor de engenharia havia sido despressurizado, mais seis pôneis haviam morrido.
-E tem mais! –Ela continuou agitada. –Uma das bombas foi ativada!
-Nox, leve Lux para o escudo principal. –Numeric falou.
-Para onde você vai? –Lux perguntou.
-Eu sou a pessoa com mais experiência em atividades extraveiculares aqui, eu encontro vocês lá. –Ela sorriu confiante, apesar de estar tremendo de medo.
Numeric correu até o setor de motores da nave, o gigantesco depósito de armas nucleares que serviam como propulsão para a nave, ela colocou a couraça com facilidade treinada e entrou na sala de máquinas. Os corpos dos pôneis estavam próximos as portas, eles haviam tentado escapar, mas não tiveram tempo o suficiente para isso. Ela colocou eles de lado e caminhou com dificuldade para o dispositivo nuclear ativado, a carapaça não havia sido feita para operar em gravidade normal, ela era pesada e desajustada, mesmo com os talismãs de levitação cada passo era um esforço e ainda pior era mover seus cascos da frente, seu casco direito ainda estava curando da fratura.
Ela encontrou o dispositivo bloqueado por entulho que havia caído, ela suspirou, não havia como mover tudo isso com um casco ainda fraturado... Não, ela precisava fazer isso. Ela desviou sua bateria do suporte de vida para os talismãs de levitação, ativando eles em máxima expansão por apenas alguns segundos, subitamente os destroços flutuaram livres da gravidade e com leves toques ela conseguiu empurrar eles para longe do dispositivo, com cuidado ela desativou o gatilho, mas a contagem não parou. Ela respirou fundo, alguém havia feito um bom trabalho nisso.
Ela descarregou toda sua energia através dos medalhões de levitação e empurrou a bomba com toda a sua força para longe da nave, toda a nave tremeu violentamente quando o dispositivo detonou meio do seu caminho pelo gigantesco escudo, destroçando completamente o escudo de aço, Numeric ouviu um tique constante vindo de sua armadura, algo sobre radiação, o veneno silencioso que havia matado Rarity e Spike, mas ela não tinha tempo para se preocupar com isso agora, qualquer complicação que viesse disso seria tarde de mais para impedir ela de cumprir sua missão.
Ela foi jogada no chão pela onde de choque da explosão percorrendo a estrutura da nave. Ela se torceu e tentou se virar, mas era inútil a armadura era pesada de mais, grande de mais, ela deveria usar os talismãs de levitação para sair de situações assim, mas surpresa! Eles estavam completamente esgotados depois do seu último truque com a bomba. O sistema de suporte de vida também estava falhando... Ótimo, não é como se ela quisesse ar para respirar mesmo.
Numeric respirou fundo rapidamente várias vezes e então respirou o mais fundo que ela poderia e ativou os sistema de liberação da armadura, suas travas explodindo imediatamente, Numeric correu para fora, o vácuo quase total tornado cada passo uma agonia, ela agarrou a porta com seus dois cascos e forçou com toda sua força, ela sentia sangue tentando jorrar de seus olhos, ela fechou seus olhos com força e forçou tudo que podia com alívio vendo a porta se abrir, ela entrou e trancou a porta atrás dela, sentindo com alívio a atmosfera se reestabelecendo, sangue escorrendo de seus olhos e boca.
Ela se sentia completamente esgotada, ela caiu contra uma parede para respirar aliviada por um momento, todo mundo deveria estar na sala principal depois do tumulto que ela havia causado com o dispositivo nuclear.
Algo se aproximou pelo canto de sua visão, ela se virou para o encarar , mas havia algo de errado, ela não conseguia encarar quem quer que fosse diretamente, ela sabia que era um pônei, mas sua visão estava borrada, distorcida, como se sua mente estivesse evitando a criatura com toda sua força.
-Vai tudo ficar bem. –Lumina falou.
-Eu sempre te amei. –Luna falou.
Não! Numeric espantou as assombrações com seu casco ainda inteiro. As duas já estavam mortas, ela sabia disso, não fazia sentido elas estarem aqui. Ela fechou seus olhos e investiu contra a criatura que ela não conseguia ver, ignorando os pedidos de Luna e Lumina, era tão difícil recusar os pedidos das duas para que ela sentasse e descansasse. Ela sentiu um bisturi cortando seu lado, por pouco errando seus órgãos vitais, ela apenas continuou correndo, o que era perder mais um pouco de sangue depois de tudo isso?
Ela correu por um corredor, descendo através do jardim hidropônico, a criatura atrás dela, os sussurros das duas éguas que ela amou estavam em sua cabeça... Não, essa criatura não poderia chegar a Lux, a missão precisava ter sucesso. Ela entrou em uma das airlocks, se trancando lá dentro, a criatura bateu contra a porta e os espíritos gritaram, pedindo por ajuda, eles queriam entrar também, Luna implorou misericórdia, Lumina pediu em nome de seus filhotes não-nascidos.
-Não! –Numeric Gritou desesperada e continuou gritando, cobrindo suas orelhas com os cascos, mas as vozes dela ressoavam dentro de sua mente, incapaz de conter as vozes ela começou a recitar números primos, a criatura atacou a porta pelo que pareceu ser horas até se cansar e seguir em frente.
Numeric foi acordada com o som do rádio estalando em vida.
-Numeric? Numeric, você está ai? –A voz de Nox vinha ressoando por toda a nave, soando em todos os terminais de rádio.
-Nox? –Numeric perguntou ao rádio, com medo de que fosse outra alucinação.
-Sim, o que aconteceu ai? A nave toda tremeu agora. –Nox perguntou preocupada, o som agora vinha apenas do rádio dentro da airlock.
-Vocês ainda estão no escudo primário? –Numeric olhava ao redor vendo o que ela tinha a disposição, uma couraça pronta para uso e um kit de ferramentas.
-Sim, está tudo bem ai? –Nox estava cada vez mais preocupada.
-Você consegue selar o escudo primário? –Numeric perguntou enquanto usava um rolo de silver tape para cobrir seus sangramentos.
-O que aconteceu, Numeric! Você esta me assustando! –Nox demandou.
-Não tenho tempo para explicar. Sele o escudo principal do resto da nave agora! –Numeric falou colocando a couraça.
Houve uma pausa e o barulho de uma pônei mexendo em um teclado de computador e o silvo de sistemas hidráulicos se movendo a distância.
-Pronto, estamos seladas. –Nox falou. –Numeric, você está bem?
-Eu vou ficar. –Numeric respondeu antes de selar seu capacete.
A égua pegou o maçarico de corte do kit de ferramentas, como ela imaginava a porta havia sido bloqueada do lado de fora, com rapidez ela usou o maçarico contra a porta a toda potência, a comporta era grossa, mas a tocha havia sido feita para cortar exatamente através desse tipo de material.
Não importa o sacrifício, a missão teria de ter sucesso.
Ela viu um buraco se abrir na porta, algo que ela mal conseguiria ver através, mas era mais do que suficiente, ela respirou fundo e abriu a comporta externa, todo o ar sendo drenado através do buraco rapidamente, ela se agarrando com seu casco ao casco externo da nave, usando as botas magnéticas para andar sobre o casco da nave até a próxima comporta enquanto tentava não pensar em todos os pôneis que ela havia acabado de matar, sem uma capitã na cadeira de comando não haveria ninguém para fechar as comportas internas, eles morreriam e com sorte a criatura iria junta.
Ela entrou através de outra comporta, nem se importando com equalizar a pressão, apenas abrindo a porta e se escondendo ao lado enquanto o pouco de atmosfera que ainda restava vazava violentamente. Ela entrou e passou pela comporta, sem olhar para os corpo dos mortos, pelo menos parecia ter funcionado, ela estava respirando aliviada.
-Eu estou desapontada. –Luna disse.
Não! Numeric começou a correr, com os talismãs de levitação da couraça totalmente carregados era mais fácil, ela bombeou tanta energia quanto poderia para eles, fechando as portas atrás dela, correndo até a cadeira de comando, a cada esquina as visões continuavam.
-Você matou eles! –Lumina disse.
-Eu pensava que você era melhor do que isso. –Luna falou.
-Eu nunca te amei! –Lumina disse.
-Você é o pior monstro que eu já conheci. –Luna proclamou.
Ela entrou na ponte de comando recitando os algarismos de Pi. Ela se sentou na cadeira de comando, sentindo toda a informação da nave torturada fluindo através de sua mente subitamente, ela respirou profundamente e ativou o processo de separação do escudo primário, colocou um timer de apenas alguns minutos e então se ergueu e com um pedaço de cano que ela arrancou dos consoles atacou o trono com toda sua força, destruindo o cristal, impedindo que qualquer um pudesse impedir suas ordens.
-Você arruinou as chances deles de voltarem a Equus. –Lumin falou.
Não, Números primos felizes! Era bem melhor pensar nos números primos felizes do que naqueles que haviam morrido. Ela correu até o ponto de ligação entre a nave e o escudo primário, tendo certeza que ninguém havia passado por lá ainda, trancando a porta atrás dela.
-Você vai nos matar! –Luna batia na porta com seus dois cascos desesperadamente.
-Por favor, me salva! –Lumina implorava.
Então elas pararam, subitamente ela estava em silêncio. Ela olhou ao redor assustada, mas para sua felicidade viu apenas Nox e Lux com seu chifre brilhando. Ela arrancou seu capacete, completamente exausta. As naves agora começaram a se mover, sem ninguém para controlar o módulo principal ele é consumido pelas chamas dos motores do escudo primário que iria impulsioná-lo para o coração do sol.
Com a ajuda das duas, Numeric saiu de sua carapaça e as três começaram a se afastar da comporta quando uma luz fulgurante brilhou, derretendo parte do corredor, elas foram atingidas em cheio pela onda de calor e sabiam que no meio daquilo havia uma criatura, mas elas não conseguiam olhar para ela.
Nox jogou Numeric em suas costas e saíram correndo desesperada para cima, para a sala principal quando a coisa que evitava o olhar teletransportou na frente delas, derretendo parte do corredor ao redor de sua magia.
-Saia de perto da minha namorada! –Lux gritou, seu chifre brilhando com energia carregada, sua luz jorrando sobre a criatura e para sua surpresa ela notou que conseguia olhar para ela, não mais um monstro de pesadelos, mas um unicórnio cobertos em extensas queimaduras, sua crina e cauda completamente queimados, a única coisa que permitia a Lux o identificar era os restos de uma cutie mark de um sol em seu flanco.
A criatura flutuou um bisturi ao seu lado, mas Lux lançou um raio tórrido contra a arma, vaporizando o metal antes que ele pudesse ferir ainda mais suas amigas.
-Você é uma miragem, luz corrompida! Você não tem poder contra a luz verdadeira! –Lux gritou e deixou sua luz jorrar sobre a criatura, ela desapareceu em mais um teletransporta tórrido.
Sem tempo a perder as três correram até o salão principal, as duas capsulas esperavam por Lux e Numeric em uma cópía quase igual ao escudo primário da Luciferious II, a única e vital diferença eram os seis grandes blocos de obsidiana em que estavam incrustados os equeletos das portadores.
O escudo atingiu o sol e toda a estrutura rangeu, subitamente sistemas de refrigeração começaram a falhar um após o outro enquanto eles lutavam futilmente contra o calor da estrela moribunda, tudo que importava para os primitivos sistemas da nave era manter uma temperatura capaz de suportar vida dentro da pequena sala pressurizada em seu interior.
Nox sentiu seu peso diminuir enquanto a gravidade perdia sua consistência enquanto elas desciam em direção ao coração da estrela. Não havia tempo para aproveitar isso, ela começou a ajudar Numeric em sua capsula quando o que um dia havia sido Sun Seeker reapareceu, Lux pulou em sua frente, pronto para jorrar sua luz sobre ele, mas dessa vez ela havia sido pega de surpresa, apenas um instante para energizar seu chifre, mas isso foi tudo que ele precisou, onde antes havia um unicórnio decrépito e coberto em queimaduras agora havia Nox, ferida, implorando pela ajuda de Lux.
A unicórnio hesitou e a criatura atacou com um jorro de calor e dor, as três ouviram o grito de dor de seus amados, mortos e vivos, enquanto seus corpos queimavam.
-Por favor faça a dor parar! –Luna gritou para Numeric.
-Não me deixe morrer de novo! –Steel Rivet implorou a Lux.
-Faça a dor parar! – Night Skies berrou para Nox.
-Mãe? –Nox caminhou para frente vendo a sua frente a mãe que havia lhe ensinado a sorrir apesar de tudo.
-Me salve! –Night Skies chorava lágrimas de sangue.
-Você não é ela! –Nox socou a criatura com toda sua força.
A criatura recuou, assumindo rapidamente a forma de todos que Nox jamais havia amado, implorando por sua ajuda, por perdão, pelo amor dela.
-Você não vai tocar minhas amigas. –Nox gritou com todos seus pulmões, abrindo suas asas machucadas para proteger Lux e Numeric.
A criatura agarrou Nox em seu campo telecinético, a anergia parecia queimar seu corpo como fogo e se teletransportou com Nox para o teto, Nox sentia a força contra sua garganta, lutando para respirar, o campo de força da criatura que envolvia as duas era a única coisa que impedia elas de queimarem vivas instantaneamente, mas agora ele se desfazia.
-Nox! –Luna gritou desesperada e se teletransportou com Numeric para cima, seu corpo estava transbordando de energia, mais energia do que ela sabia como controlar, ela envolveu as três em seu mais poderoso campo de força, a gravidade se alterando e subitamente o teto era o chão para elas, elas caíram sobre o escudo, Lux sentia todo o calor fluindo através do seu escudo, era energia de mais, mesmo nesse estado o sol tinha mais energia que qualquer unicórnio poderia controlar sozinha.
Ainda bem que ela não estava sozinha, ela buscou com sua magia os esqueletos das seis portadoras em seus caixões de obsidiana, ela buscou por eles e implorou a seus espíritos por ajuda.
A criatura subitamente era Nox e Lux e Lumina, todas implorando por amor.
A gravidade alterou e as quatro estavam caindo em direção ao solo, Nox estendeu suas asas e segurou as duas como podia, sangue jorrando de seus machucados que se reabriam conforme magia fluía através delas. A criatura caiu com força contra o chão, sangue jorrando por mil ferimentos, mas ela parecia não se importar.
As três caíram com estilo no chão, Lux mantendo seu escudo para protege-las do calor absurdo, a criatura começou a se levantar, mas antes que ele pudesse se erguer seis espíritos coloridos emergiram de seus sarcófagos, se tornando pouco mais do que borrões de luz Nox, Lux e Numeric sorriram ao ver as heroínas de sua infância uma última vez antes do final.
A criatura urrou e luz monocromatica se expandiu de seu corpo decrépito, dissipando a luz colorida do espirito das seis portadores, os sarcófagos estourando conforme os espíritos eram dissipados.
Lux deu um passo para trás, não podia ser, essa criatura não podia ser parada, todo o poder das portadoras não poderia dete-lo, sua magia ou a inteligência de Numeric ou a determinação de Nox, nenhuma delas era suficiente para parar a criatura nascida de insanidade, banhada no poder de uma estrela decrépita por anos a fio.
Nox e Numeric colocaram seus cascos sobre o ombro de Lux e foi então que ela sentiu algo dentro dela, algo novo e quente, diferente da luz que cega ou do calor que queima, era a chama que queimava no coração de cada ser, subitamente ela sentiu seu coração se encher de energia, o amor das duas lhe tornavam mais poderosa, a criatura atacou, mas agora sua luz não podia mais feri-las por que elas estavam juntas, a dor não podia tocá-las, a luz jorrou sobre a criatura e elas puderam vê-la como ela realmente era.
Sun seeker, jovem unicórnio dotado de um talento único, escolhido pessoalmente pela princesa para uma missão para salvar o mundo, treinou durante anos com um único propósito, deixou de lado todo o resto apenas pela missão. Viajou através do espaço com uma tripulação de soldados treinados, todos profissionais, todos mantendo uma distancia do unicórnio que iria morrer no coração da estrela. Sua fé em Celestia se tornando a cada dia em devoção cega, abrindo caminho para a luz que cega, o fogo que queima, magia sombria que se encravou em seu coração.
O fogo da amizade queimou as amarras que ainda o prendiam a esse mundo, a luz que cega e o fogo que queima não poderiam mais mantê-lo vivo por que essa não era uma magia ofensiva, era libertadora, pacífica. A magia da amizade nunca poderia realmente machucar alguém, ela apenas libertava a criatura de sua prisão de trevas seja ela interna ou externa.
Exausta Lux se forçou a um ultimo teletransporte para dentro da sala pressurizada.
-Rápido, a gente precisa disparar o seu feitiço! –Numeric falou entregando o capacete para Lux.
Lux agarrou o capacete e colocou sobre sua cabela, ela sentia que seu chifre havia trincado, mas agora não importava mais, ela só precisava conjurar mais um feitiço.
-Vamos lá, só uma magia de luz, é mais fácil de todas! –Nox a encorajou.
Lux suspirou, ela nunca queria que a pegasus morresse com ela, mas agora não havia mais outra escolha, apenas uma última magia para salvar o mundo, a magia mais simples que qualquer unicórnio poderia conjurar... Não, ela olhou de Nox para Numeric e abraçou as duas com toda força, o fogo de suas amizades queimando forte quando o escudo se ativou, milhares de explosões nucleares ocorrendo simultaneamente, toda essa energia convertida em um simples feitiço, o feitiço mais simples que qualquer pônei poderia conjurar, tudo que bastava era se importar com outras pessoas.
Em um instante elas deixaram de ser, eram agora parte da estrela, parte do sol que nascia sobre Equus trazendo nova chance de vida para o planeta.
Epilogo.
Pônei.
Unicórnio.
Pegasus.
Três espíritos fundidos no coração de uma estrela nascentes, queimadas no fogo solar e renascidas como uma só, da estrela renascida elas emergiram como uma só, uma criatura nascida do amor que três sentia uma pela outra, nascida de perda e tristeza.
Poder.
Paixão.
Inteligência.
A criatura viajou com a velocidade do nascer do sol, tocando o solo do mundo congelado, cada passo trazendo calor e vida para a terra devastada, como a tantos milênios havia acontecido agora o ciclo se repetia, uma nova criatura sem igual nascia.
Lealdade.
Riso.
Magia.
Logo pôneis, zebras, dragões e tantas outras criaturas iriam emergir de seus esconderijos, atraídas pelo sol, elas repovoariam o planeta, mas a criatura se sentia solitária, não havia outra como ela. Ela precisava de uma irmã.